• Tajá

Vozes que cantam, resistem e encantam

Atualizado: 23 de Mai de 2019

Fortalecidas pela maternidade, cantoras radicadas no Amapá conquistam seu lugar ao sol


Por Renata Santos


No Amapá, o ambiente musical, principalmente o popular, ainda é dominado pelo sexo masculino. Quando paramos para analisar, percebemos que nomes como Zé Miguel, Amadeu Cavalcante e Osmar Júnior vem à mente quase que instantaneamente. Isso não significa dizer que não há mulher na música amapaense, elas estão lá, mas ainda não estão recebendo seu devido reconhecimento.

Hanna Paulino

Grande parte das bandas musicais do Amapá são formadas apenas por homens, eles dominam a cena. Poucas são as bandas onde mulheres compõem a formação.


Para Bárbara Alcântara, estudante de jornalismo, apaixonada por música local, a voz feminina é o ponto chave da música popular amapaense. “É o que diferencia, em cada show que eu vou, consigo me apaixonar mais vendo elas cantarem. É muito bonito”, afirma.

Suellen Braga, parada do Orgulho LGBT de Macapá. Foto: Antonique Queiroz

O protagonismo feminino no Estado ainda está ganhando espaço, poucas são as mulheres que conseguem se manter ativas no exercício de suas atividades artísticas. Um exemplo disso, é a cantora Suellen Braga que está na estrada há 22 anos.


Suellen iniciou sua carreira aos 7 anos de idade, cantando na igreja. Passou por quatro bandas e hoje produz e mantém o seu próprio show. Carismática, ousada, performática e com um vasto repertório, Suellen fidelizou seu público e não só se tornou ícone LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) no Amapá, como é a maior intérprete de Brega nas noites da cidade.


Outro exemplo é a cantora Hanna Paulino, nascida no Rio de Janeiro, mas amapaense de coração. Hanna começou cantando nas rodas de samba com os amigos, mas foi na banda de Heavy Metal amapaense, Hidrah, que sua carreira iniciou e hoje canta em eventos particulares produzindo suas próprias apresentações.


Hanna é cantora lírica, formada na primeira turma de canto lírico da Escola Walkiria Lima. Dona de uma extensão vocal invejável, arranca arrepios de quem a ouve.


Quem também merece destaque, é a cantora Marcelli Fernandes. Marcelli começou sua carreira há 6 anos, ao lado do marido. Hoje, a jovem se apresenta individualmente nas noites da cidade. Adepta da música popular, Marcelli encanta com suas interpretações. Sua voz suave remonta a sensações de aconchego e calmaria.

Mulher, mãe, cantora: várias mulheres vivendo em uma
Marcelli Fernandes

Tanto Marcelli quanto Hanna e Suellen são mães. A maternidade é desafiadora, para algumas assustadora; mas para essas três mulheres, a maternidade foi o que as fortaleceu e as inspirou em continuar trilhando o árduo caminho de ser artista e viver do que se ama.


“A minha filha estava comigo nos momentos mais importantes da minha vida”, conta Hanna Paulino ao relembrar o dia em que junto com a banda Hidrah, abriu o show para a banda Angra, internacionalmente conhecida.


O mundo artístico é cheio de dificuldades e pedras no caminho, é necessário ser persistente e ter principalmente um motivo para continuar.


Marcelli afirma que a pequena Isabella de 3 anos é o elo entre ela e o mundo da música. “Ela é razão das minhas lutas diárias, tudo o que eu enfrento é por ela e pra ela”, diz.


Dificuldades no meio artístico


Um dos principais desafios no meio artístico para as mulheres é ter sempre que reafirmar o seu trabalho e provar seu potencial; estar constantemente mostrando para todos do que é capaz.

“Ser artista não é fácil” - Suellen Braga

A vida artística está envolvida em diversas dificuldades. Segundo a cantora Suellen Braga, ser artista não é fácil. “Nessa vida nada é fácil, quando você quer alguma coisa não é fácil, ser artista não é fácil mesmo”, diz.


A mulher ainda é diariamente discriminada na sociedade, sempre está sendo julgada por suas ações. Quando se é artista tudo se agrava e fica mais difícil.


Suellen afirma que diversas vezes foi discriminada por ser uma artista de atitude, que se entrega de corpo e alma em seus shows.


“Várias vezes em meus shows eu ouvi que a mulher não pode dançar, não pode rebolar e que ela tá ali só pra cantar”, conta.


A mulher ocupando espaço na música


Hanna Paulino, Da gente por elas. Foto: Sesc Araxá

Historicamente, o arcabouço artístico é composto por homens, tendo em vista que o sexo masculino era o detentor da “santa sapiência” e a mulher não passava de um ser subordinado. Com os avanços e conquistas, as mulheres também ganharam espaço na arte, principalmente no cenário musical.


Um importante fenômeno social tomou conta do universo musical no final do século XIX, as mulheres estavam almejando conquistar profissionalmente seu espaço na indústria da música. O discurso proeminente na época disseminava que moças deveriam tocar instrumentos apenas para o regozijo familiar e doméstico. Realizar tais atividades fora de casa era impensável.


Mesmo com todas as restrições e regras impostas socialmente às mulheres, com muita garra e perseverança foram ocupando gradualmente seu tão precioso espaço ao longo do século. Hoje podemos notar equilíbrio no cenário musical, no entanto ainda vemos locais onde o machismo domina a indústria.


Segundo o sociólogo Luciano Araújo, a participação feminina na música é muito importante, não apenas como atividade política, mas criativa e empreendedora. “Infelizmente a sociedade não dá às mulheres oportunidades iguais aos homens, é muito importante que a mulher ocupe o cenário musical, construa o seu protagonismo e fortaleça a ideia de produções autorais encabeçada por mulheres. É um contexto de ativismo e participação política”, afirma.

“Quanto você cobra para fazer um show só pra mim?” - Hanna Paulino

Várias são as mulheres que já foram vítimas do assédio sexual, um demônio à espreita esperando o momento mais propício para atacar. No mundo da música não é diferente. Olhares constrangedores, alguém que se acha no direito de tocar o corpo feminino, gestos obscenos e até mesmo proposta de prostituição, como ocorreu com a cantora Hanna Paulino.


Hanna conta que ao terminar uma apresentação recebeu uma proposta lastimável. “Eu estava me apresentando em um bar da cidade e quando terminei um cara chegou em mim e perguntou ‘quanto você cobra para fazer um show só pra mim?’(silêncio)”, relata.


Essas são apenas algumas situações encaradas diariamente. Durante o show a mulher não está ali para satisfazer as necessidades sexuais de ninguém, mas sim para entreter, descontrair e obter o seu sustento de forma honesta.

Mulher como sinônimo de resistência

Show de Suellen Braga na Parada do Orgulho LGBT+ de Macapá. Foto: Antonique Queiroz

Ser mulher, existir, sobreviver, viver… Todo dia uma história diferente, uma situação desconcertante, medo e impotência.


Acima de tudo isso, existe uma voz, voz essa que ecoa e te alcança. Uma voz que não somente canta, mas uma voz que toca o teu íntimo, que te faz repensar, que te dá forças para não desistir.


Mulheres não são indestrutíveis, mas carregam vários mundos no colo e nas costas. Cada uma a sua maneira, vai buscando a melhor forma de continuar.


Desde os primórdios, a mulher sempre ocupou o papel de subordinada, sofrendo opressões e discriminações desde o início da civilização, não somente em razão do gênero, mas pela forma que a sociedade as enxergava e compreendia seu papel, sendo vista unicamente como filha, esposa e mãe.


Quando casada, a mulher carecia incessantemente da autorização de seu esposo para realizar atos de âmbito civil. Tida como principal genitora, esteve sempre incumbida de ser responsável por seus filhos, entretanto seu pátrio poder era exercido de forma subsidiária.

Marcelli Fernandes

Não havia respeito para com a mulher ao desempenhar suas funções no mercado de trabalho, além da grande discriminação, era explorada de forma exaustiva, ultrapassando seus limites físicos e recebendo salário inferior ao do homem. Apesar das desigualdades, a mulher contribuiu abundantemente para o crescimento e desenvolvimento da sociedade, mas sempre seguiu sendo desvalorizada, gerando indignação, acarretando em lutas sociais pelos seus direitos, principalmente os trabalhistas.


Posteriormente à tantas lutas e tentativas de igualdade e melhorias, a mulher pôde conquistar seus direitos e deveres básicos garantidos por lei em todos os âmbitos, inclusive o trabalhista. Atualmente mulheres podem assumir cargos de chefia e teoricamente recebem salário igual aos dos homens.


Mulheres continuam lutando diariamente para ter seus corpos, ideologia e opiniões respeitadas. De acordo com Beatriz Melo, estudante de jornalismo, engajada em movimentos sociais feministas, as mulheres passam por situações constrangedoras desde a infância, situação que as impede de participar de certos espaços e fazer escolhas sobre si e sobre o mundo. “A luta pela liberdade das mulheres é uma tentativa árdua de equiparar homens e mulheres nos direitos à vida”, afirma.

Trecho da música nova de Suellen Braga

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