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Veteranos: Animais da unifap recebem cuidados mais que especiais e viram atração entre os acadêmicos

Atualizado: 17 de Jul de 2019

Por Tassia Malena


Todos os dias, sob sol forte ou chuva torrencial, ela chega munida de grandes e volumosas sacolas que carrega sobre os ombros. A pé, ela adentra os portões traseiros e cruza a universidade de ponta a ponta, e logo a princípio é recebida pelos verdadeiros “veteranos”. Com passos firmes, ela abre caminho entre a procissão de bigodes e rabos abanando para cumprir sua rotina de cuidados com a ilustre e conhecida população de animais que habita a Universidade Federal do Amapá.



Em meio a sorrisos e acenos, dona Nilza Rola, figura notória e bastante respeitada pelos internos da instituição, afirma que sempre gostou de bichos e que, só na Unifap, já desenvolve voluntariamente o trabalho de cuidado com animais em situação de abandono há 22 anos: “Eu cuido deles desde 98, 99... Por aí assim”, afirma ela.


Diariamente, sempre às 14h em ponto, é certo encontrá-la no bloco A do campus Marco Zero, na cidade de Macapá, para dar início à rotina. Sua caminhada passa pela Rádio Universitária, segue pelo Restaurante Universitário, pelo Centro de vivências e pelo Ginásio Poliesportivo até se findar nos arredores das obras do Hospital Universitário. Antes, ela já passara nos blocos de Fisioterapia e Medicina. Pacientemente, serve a refeição de dezenas de animais – 10 cães e 17 gatos, segundo a mesma – que dela dependem.



Um misto de ração e comida, às vezes sopa, é servido por ela em porções exatas nas vasilhas reaproveitadas a partir de garrafas deixadas pelos estudantes e o grande público nas festas noturnas que ocorrem no campus. Elas são guardadas e disponibilizadas com o apoio e a solidariedade dos funcionários que trabalham nos serviços gerais e na vigilância da universidade, que além de amigos de dona Nilza, a quem se referem com muito respeito e admiração, também se mostram verdadeiros defensores desses animais.


Enquanto conversa, dona Nilza atenciosamente recolhe e lava cada uma das vasilhas que encontra nos pontos, onde diariamente serve os mais de vinte e cinco animais que moram no campus. Quando recebe novos vasilhames, ela retira da bolsa um estilete e logo trata de adaptar as garrafas que recebe, cortando-lhes a base para servirem de prato para água e comida.


É com os olhos cintilantes e com muita ansiedade que cães e gatos, entre filhotes e adultos, aguardam a chegada da sua benfeitora. Eles recebem dela o carinho e atenção necessários, que além do tempo que dispõe para o trato e o cuidado com eles, fornece do próprio bolso mais que somente o alimento, mas

também medicação e procedimentos médicos, se necessário, apesar das dificuldades. “Ontem tinha uma cachorra nossa que não poderia ter os bebezinhos e eu não tinha dinheiro. Eu fiquei desesperada, mas eu consegui. A noite ela foi operada. Foram dez cachorrinhos, três morreram”, conta ela.


Dona de 15 gatos e vários cachorros, dona Nilza ainda ampara outros animais em situação de abandono. Junto com seu marido, ela mantém uma casa no bairro Brasil Novo, onde se dedica aos cuidados de mais alguns cães: “A gente não tem abrigo. A gente tem uma casa só. Tem uns seis cachorros lá”.


Embora as dificuldades sejam muitas, ela se orgulha de não depender da ajuda de segundos e terceiros, inclusive da própria universidade, para dar continuidade à ação que empreende há tanto tempo. Quando questionada se recebe alguma ajuda por parte da Unifap, de alguma entidade ou ONG, ela responde: “Só o meu bolso. Graças a Deus que o meu dinheiro dá. E graças a Deus nenhum dia eles ficaram sem comer”.


Apesar dos esforços, toda ajuda é bem-vinda. Segundo relatos de um funcionário responsável pelos serviços gerais, que opta por não se revelar, dona Nilza tem se revelado um verdadeiro exemplo de solidariedade que ganha cada vez mais notoriedade e admiradores entre os acadêmicos. Através da ajuda dos internos, especialmente estudantes, um comedouro foi construído, fixado e é frequentemente abastecido no Ginásio Poliesportivo.


Grande sucesso na internet entre o público amante e engajado no resgate de animais de rua, o reservatório, localizado próximo ao vestiário masculino, é feito a partir de tubulação e conexões de plástico e está disposto verticalmente preso à parede, como forma de armazenar grande quantidade de comida que é liberada a medida que é ingerida.




Desde a sua criação no ano de 1990, animais são abandonados entre os muros da Universidade. Apesar de haver uma lei que proíba os maus tratos e o desamparo aos animais, sob pena de detenção e punição, ainda há quem o faça. Não é raro encontrar caixas com filhotes sorrateiramente depositadas pelo campus, pequenos animais que, se não vierem a morrer devido à prematuridade com que são desmamados, vêm a corroborar futuramente para o crescimento desordenado da população que hoje lá vive.


Outro fator responsável para esse aumento contínuo do número de gatos e cachorros diz respeito aos próprios animais que entram e saem livremente da universidade todos os dias. Alguns deles ficam apenas durante o período diurno e retornam para suas casas a noite, ou simplesmente vão embora; outros, porém, passam a fazer da Unifap seu lar por encontrarem abrigo, proteção e alimentos regularmente.


Apesar do empenho dos responsáveis pela segurança institucional em manter a ordem do lugar, “é muito difícil administrar essa situação”, desabafa um vigilante que prefere não se identificar. É impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo, bem como manter todas as condutas sob vigilância para evitar esse tipo de situação, assim, inevitavelmente, alguns abandonos acabam por ocorrer de maneira clandestina e terminam por agravar ainda mais a situação desses animais.


Beatriz Belo, estudante de jornalismo pela instituição, acredita que a maioria dos animais chega de forma espontânea, “já que existe aquele portão que dá acesso ao bairro Universidade, então alguns podem ter vindo de lá. Além disso já vi algumas cadelas grávidas que provavelmente tiveram seus filhotinhos nas dependências da instituição”.


Juliana Távora, estudante de mestrado em literatura pela Unifap, diz que já viu muitas cadelas grávidas e também muitos filhotes e assevera “Outro dia vi uns filhotes de gato perto do DEPLA também, com a mãe deles por perto, protegendo as crias. Tenho amigos que contam que já viram caixas com filhotes que foram abandonados. Apesar de eles já se reproduzirem aqui, a raiz da questão é o abandono”.


Arthur Corrêa, estudante da universidade pelo curso de jornalismo, crê que a grande maioria de gatos e cachorros que vivem no local sejam fruto de abandono. “Vejo muitos filhotes então talvez esses sejam considerados a segunda opção, mas creio que a maioria tenha sido abandonado e em seguida procriou ali no ambiente”.


Embora haja comprometimento por grande parte dos internos, ou pelo menos o não envolvimento por parte de outros, maus tratos ainda são relatados contra os animais. São pessoas que chutam, batem, beliscam, que inutilizam e até mesmo jogam fora o alimento destinados a eles. A Lei n.º 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, que versa sobre a imputação de pena sobre aquele que agredir ou abandonar animais domésticos, embora exista há mais de uma década ainda é pouco explorada.



A universidade, infelizmente, não dispõe no presente de meios, projetos ou iniciativas que atuem de modo combativo contra essa situação. Ela também não prevê ações que visem amparar a população de animais no futuro. Dona Nilza, diz que não acredita que a instituição venha a colaborar com o que quer que seja para a modificação do quadro atual em que se encontram os bichos, especialmente agora que as universidades federais de todo o país estão sob ameaça de corte no orçamento.


Descrente, ela conta apenas consigo mesma para dar continuidade ao trabalho que já realiza e com a ajuda de alguns que dividam com ela o mesmo amor e o mesmo envolvimento no cuidado com animais. Acostumada no trato com bichos desde a infância, quando ainda morava no interior, dona Nilza aprendeu no decorrer da vida e na prática do dia a dia os conhecimentos que possui. Hoje é ela quem se responsabiliza pela aplicação de medicamentos e injeções contraceptivas nas gatas e cadelas que habitam a universidade como forma de evitar a superpopulação, contudo é muito difícil manter esse controle. Com a ajuda de parceiros, ela se esforça para conseguir a castração de cada uma delas e melhorar a qualidade de vida delas e adianta: “Agora eu achei uma moça lá na medicina que é veterinária. Ela disse que se eu conseguir os remédios, o necessário para operar as cachorras, ela faz tudinho pra mim. E eu vou fazer isso”.



Após mais de duas décadas de dedicação e muito trabalho no cuidado voluntário com animais abandonados, dona Nilza conclui: “A minha vida é essa. Eu faço isso porque gosto, ninguém me pediu, ninguém me mandou”. Ela então recolhe suas sacolas e, de alma leve, vai-se embora com a cabeça iluminada, dourada pelo sol, seguida pela fiel procissão que a acompanha.

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