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Um retrato da museologia amapaense

Atualizado: 23 de Mai de 2019

No estado, as reformas estruturais dos museus Joaquim Caetano e MAE há anos não passam de projetos.


Por Jamily Canuto


A História do Amapá, apesar das diversas comemorações e feriados locais que marcam datas importantes, é pouco conhecida pelos amapaenses. Parte desse desconhecimento pode ser atrelado à falta de estudo da história local nas escolas e, outra parte, pelas dificuldades que a museologia amapaense enfrenta. O museu histórico Joaquim Caetano e o Museu de Arqueologia e Etnologia são os espaços que mais têm informações do nosso passado. Além de artefatos importantes dos nossos antepassados, neles está relatado todo o caminho para sermos o Amapá. No entanto, um está fechado há anos e o outro, não tem sequer sede própria.

Peças da exposição etnográfica “Deuses Africanos e os Processos Civilizatórios”, em exibição no Museu de Arqueologia e Etnologia do Amapá. Foto: Jamily Canuto

Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva

Criado em 1990, o museu funciona no terceiro prédio mais antigo de Macapá, ficando atrás apenas da Fortaleza de São José e da Igreja de São José. No século XIX, o prédio era sede da antiga superintendência de Macapá.

Antiga Intendência do Amapá, hoje o Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva. Foto: Blog Porta-Retrato

O nome é uma homenagem ao médico, geógrafo e diplomata gaúcho Joaquim Caetano da Silva, autor da obra L'Oyapoc Sr L'Amanoe, cujo texto inspirou Barão do Rio Branco na defesa dos limites entre Brasil e França em 1900. Os restos mortais de Joaquim Caetano estão no museu.

No local também está um acervo cerâmico, composto de urnas funerárias, dos povos indígenas Cunani e Maracá. Fotografias raras que contam a história do Amapá, documentos impressos e objetos pessoais do primeiro governador do Estado Janary Nunes e de Cabralzinho também estão guardados no museu.


Em 2014, o lugar precisou ser fechado para visitações por conta de problemas na estrutura do prédio. O início dos reparos foi previsto para março do ano seguinte para ser reaberto em julho, o que não aconteceu.


Entre abril e junho de 2016, as obras foram retomadas, mas novamente foram interrompidas. O motivo seria o corte de verbas para pelo menos 120 obras devido a uma crise financeira no Amapá. Além das manutenções nas partes hidráulica, elétrica, na pintura e no teto, a estrutura também teria adaptações para deficientes. O custo da obra, segundo o portal do Governo do Estado do Amapá, foi estimado em R$ 176.613,72, valor que de acordo com o Estado já estava 56% executado em setembro de 2017.

O Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva está fechado para visitações desde 2014. Foto: Portal Governo do Amapá - Maksuel Martins

Criou-se então uma expectativa de reabertura do museu. Novembro de 2017 era o prazo final de conclusão da obra, período em que também findaria o contrato com a empresa responsável. O fim da reforma foi anunciado em janeiro de 2018 e, segundo informações do portal do Governo do Estado do Amapá, o procedimento seguinte seria a assinatura do Termo de Compromisso que passa responsabilidade pelo museu da Secretaria de Infraestrutura para a Secretaria de Estado e Cultura (Secult).


A reportagem da Tajá esteve no local para levantar informações sobre a demora para a reabertura do museu, mas o lugar está de portas fechadas. Na Secult, a informação, de caráter não oficial, é de que as obras não estão concluídas. Oficialmente a Secult não se manifestou.


A separação do Museu de Arqueologia e Etnologia do Museu Histórico

A História tem base na escrita, a Arqueologia em materiais fósseis ou feitos de pedra, por exemplo, e a Etnologia na análise do homem em sociedade. Mas o que hoje é o Museu de Arqueologia e Etnologia do Amapá (MAE) já foi um departamento do Museu Joaquim Caetano.


Com o tempo, a arqueologia cresceu e ganhou mais visibilidade na região, o que levou, em 2007, a necessidade de um espaço para os achados arqueológicos, nascendo assim o MAE.

Fachada do prédio do Museu de Arqueologia e Etnologia. Foto: Jamily Canuto

O pequeno prédio de uma loja de artesanato local abrigou arqueólogos, antropólogos e suas peças históricas. “Foi feita uma limpeza, uma pintura e nos instalamos aqui. Isso aqui é um embrião ainda. Até hoje é a mesma estrutura. Então falta muito para dizer que é um museu. Está faltando uma área técnica, antropólogo, técnicos e trabalhadores para as escavações”, relata o historiador Manoel Maria dos Santos que trabalha no local.


O MAE é um museu público, mantido pelo Governo do Estado, mais especificamente pela Secult. Segundo o historiador, as únicas despesas arcadas pelo Estado são de energia elétrica e água. O Estado chegou a doar uma central de ar usada. O profissional conta que algumas necessidades os funcionários cobrem com recursos próprios. Na visita da reportagem ao museu, Manoel dos Santos mostra um bloco de panfletos que ele confeccionou usando a impressora de sua casa e comenta: “Agora eu vou instalar uma internet aqui, porque não tem. Nosso computador roubaram, então eu tenho que trazer o meu”. O prédio nunca passou por reforma, mas apesar das dificuldades apresentadas pelo pesquisador, o museu nunca fechou as portas para o público.

O que a Secult tem a dizer sobre o MAE?

A lei nª 1073, de 02 de abril de 2007, inclui como competências da Secult a execução da “política cultural governamental nas áreas de museologia, arqueologia, etnologia, antropologia, preservação do patrimônio histórico material e imaterial”. Dentro da secretaria existem coordenadorias com estes fins. O MAE está ligado à Coordenadoria de Preservação da Memória Material e Imaterial (CPMMI).

Secretaria de Estado e Cultura (SECULT). Foto: Jamily Canuto

A técnica em arqueologia Márcia Miranda da Silva está na CPMMI desde março deste ano. Ela responde também pelo Museu dos Povos Indígenas do Oiapoque (Kuhai) e o Museu da Imagem e do Som (MIS). Desde que passou a integrar a coordenadora tem analisado a situação dos museus citados.


Em relação ao MAE, ela afirma que existe um projeto de construção do museu desde 2008 mas que ainda não foi executado por erros no planejamento. A coordenadora apresenta a planta de um projeto moderno, com laboratórios devidamente separados de análise do material arqueológico e etnológico, biblioteca e um grande espaço de exposição. Porém, a planta deve ser alterada. O espaço destinado para receber, limpar e estudar as peças foi planejado para ficar localizado na parte da frente do prédio. Assim, os visitantes teriam de passar pelo corredor dos laboratórios onde as peças recém-chegadas estariam sendo estudadas. “O contato de pessoas com este material pode transmitir germes e bactérias, fazendo com que percam o valor científico”, disse Márcia. Na planta também não existe separação de espaço para material fóssil e artefatos de cerâmica ou pedra. Embora estas alterações ainda são estudadas, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já autorizou o recurso para as obras.


Outro obstáculo para a construção do museu, segundo a coordenadora, foi a doação de parte do terreno onde o museu está funcionando atualmente para a construção de um hospital. O projeto precisa de um espaço amplo para ser executado. A coordenadora afirma que a Secult tem buscado solução. “A coordenação está procurando junto com a Secretaria de Estado e Administração um espaço vago na lista de prédios que eles têm. O MAE está com recurso no Iphan, mas precisamos de um prédio próprio”, explica Márcia Miranda.


Urna mortuária com a ossada do diplomata Joaquim Caetano trazida de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, em 1953. Foto: Flickr - Marcel Lima

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