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Representatividade é marcada nos filmes de heróis

Atualizado: 18 de Jun de 2019

Heróis da ficção geram identificação pessoal, empoderamento e impacto mercadológico.


Por Diego Balieiro


Em diversos segmentos a palavra “representatividade” toma cada vez mais espaço e é o centro de várias discussões, seja nas redes sociais, no marketing, nas novelas e, de uns tempos para cá, no universo cinematográfico.


No cinema, um dos subgêneros mais populares é o de heróis, entretanto, no que se refere a representatividade, o gênero ainda deixa muito a desejar. Mas qual é a importância desse tema? O que a indústria cinematográfica ganha com isso?

Diversidade nas HQs.

A mídia, de maneira geral, causa um grande impacto na sociedade. Dentro da indústria cinematográfica, isso não é diferente. Através de suas representações tende a criar modelos e padrões de comportamento e beleza. Usando estereótipos dentro de seus personagens, molda diversos conceitos que são absorvidos e aceitos socialmente. Entretanto, as pessoas são plurais, ou seja, grande parte não se identifica com o que é retratado nas produções.


Grupos conhecidos como “minorias” têm dificuldade em se identificar com grande parte do que é mostrado nas produções cinematográficas; seja no que diz respeito a comportamento ou representação da imagem. Tanto que, quando surge um personagem que retrata um determinado grupo, a identificação do público é quase que imediata e ele passa a ser um ícone, como é o exemplo de Pantera Negra. A socióloga Adriana Lopes acredita que as novas produções estão trazendo para a nova geração, novos conceitos e formas de enxergar o mundo e aos movimentos negros e de mulheres ganharam força e que agora que a comunidade LGBT tenta ganhar seu espaço, mas ela está confiante enquanto a isso: “acredito que o passo de igualdade tem trilhado um caminho de muito êxito na sociedade globalizada”.

Super-heroínas. Foto: Divulgação

Mulheres como super-heroínas


O mundo dos quadrinhos não é feito só de heróis. As super-heroínas, mesmo sofrendo com vários problemas em seu desenvolvimento, como a hiperssexualização, também têm seu espaço ao sol. Apesar disso, no que se refere a cinema, as adaptações são escassas. Em uma publicação feita por Genna Davis Institute on Gender in Nações Unidas (ONU) mostrou que embora as mulheres sejam metade da população do mundo, dos 5.799 personagens nomeado na tela, apenas 30,9% são mulheres. Já no caso dos filmes de aventura ou de filmes de ação, essa participação do público feminino é ainda menor: elas são 23%, em relação ao protagonismo, elas são apenas 23,3%.

“esse protagonismo inspira força para toda e qualquer mulher que estiver passando por um momento difícil”.

Em 2017 a DC Comics lançou “Mulher Maravilha” e foi um sucesso de bilheteria. Além disso, a diretora Patty Jenkins se tornou a primeira diretora da história a assumir uma produção em live-action com o orçamento maior de US$ 100 milhões.


Anita Flexa, apresentadora do programa Rádio Pop, programa da Rádio Universitária, comentou sobre as mulheres da vida real. Ela argumenta que “essas mulheres hoje em dia são vistas como divas e são inspiração para muitas outras mulheres que estão assistindo” e finalizou: “esse protagonismo inspira força para toda e qualquer mulher que estiver passando por um momento difícil”.

Filme Pantera Negra. Foto: Divulgação

Representatividade da cultura negra


Nos quadrinhos, heróis negros quebram barreiras desde os anos 60, com a aparição de Pantera Negra, herói da editora Marvel. Entretanto, quando se refere a cinema, essas aparições são mais recentes. O próprio Pantera Negra teve sua primeira aparição no terceiro filme de Capitão América, intitulado Guerra Civil, de 2016, e logo após ganhou seu filme solo em 2017.


O filme é composto basicamente por pessoas negras. O enredo mostra a luta de uma civilização que até então para o mundo era de camponeses, mas que, na verdade, é rica em vários sentidos. Além de quebrar estereótipos em relação a representação dos personagens, o filme soube abordar vários temas como preconceito e outros conflitos.


Para a Marvel, o filme é bem significativo, pois está no top 5 dos filmes mais assistido do estúdio, sua bilheteria é de 1,344 bilhões de dólares. Além da grande bilheteria, o filme foi indicação ao Oscar de melhor filme, sendo o primeiro filme de heróis a concorrer nessa categoria.

“A gente vê que por muitos anos houve exclusão dos negros e você avalia a história do cinema, você verifica que o negro era colocado como vilão”.

Mas antes desse filme, os Negros não eram realmente representados. Claro que tinham seus papéis, mas sempre como secundários. Tempestade de X-Men é exemplo disso, nos quadrinhos teve vários arcos importantes, mas no cinema não teve seu reconhecimento e sempre foi subutilizada.


A socióloga Adriana Lopes diz que a indústria cinematográfica tratava a comunidade negra dentro das telonas de forma excluída. “A gente vê que por muitos anos houve exclusão dos negros e você avalia a história do cinema, você verifica que o negro era colocado como vilão”. A socióloga ainda ressalta a importância dos movimentos para a comunidade: “acredito que a força dos movimentos sociais que nasceram nos EUA, impulsionaram esse papel de destaque a mulheres e negros, isso vem nos mostrar sobre a igualdade, respeito e desconstrução de padrões” e finaliza: “na verdade todos devem ter espaço em pé de igualdade”.


LGBT dos quadrinhos para o cinema


Os LGBT (Lesbicas, Gays, Bixessuais e transexuais) se ratificam como o grupo de menor visibilidade nos cinemas, já nos quadrinhos, no decorrer dos anos, diversos personagens ao longo de suas histórias acabaram assumindo suas orientações sexuais.


Colocar um personagem assumidamente LGBT sempre foi uma dificuldade para as editoras, pois existem diversos estigmas que rodeiam a homossexualidade. Um grande exemplo é dos anos 80 a 90, pois na época a homossexualidade era fortemente associada a AIDS e as editoras sofriam grande pressão para não ter esses personagens. Infelizmente, essa associação, por ignorância, ainda é muito comum.


Um dos primeiros heróis assumidamente gay, é Jean-Paul Beaubier, mais conhecido como Estrela Polar. Ele compõe o time de heróis da editora Marvel. Sua orientação sexual era algo planejado há bastante tempo pelos seus criadores, mas devido ao código moral da época não era permitido. Para quem não conhece, o herói é um mutante do universo do X-Men.


A fã de quadrinhos Glenda Vital relembra o anti herói da DC, o Constantine. Nos quadrinhos ele é assumidamente bixessual. O personagem já protagonizou um filme e uma série e nenhuma das produções retratou esse fator. “O caso dele é interessante devido aos fãs dele não aceitarem o fato da sexualidade, por mais que isso esteja comprovado por causa da própria dinâmica do personagem por ser um exorcista e ter toda a pose de machão, como se fosse impossível para um personagem por fazer as coisas que ele faz”.


Durante vários anos a sexualidade da Mulher-Maravilha, da editora DC Comics, foi questionada pelos fãs devido sua origem. Em 2016, Greg Rucka confirmou em uma entrevista ao Comicosity que Diana Prince se relacionou e se apaixonou por mulheres e homens e a definição que o autor dá é interessante: “Uma amazona não olha outra amazona e diz ‘você é gay’. Elas não fazem isso. O conceito não existe”. Entretanto, na recente produção audiovisual a heroína nunca teve esse outro lado de sua sexualidade retratada.

Representatividade LGBT nos quadrinhos.

A importância de retratar a diversidade


O jornalista e pesquisador Jacks Andrade, ratifica a importância de haver empresas que abordam o assunto e que se preocupam com a diversidade. Em sua análise, ele fala que se você colocar somente um determinado tipo de traço físico no herói e comportamento no vilão, você estará ensinando a sociedade a reconhecer esses traços e classificá-los. Então se essa mídia não trabalha com representatividade, ela ressalta os estereótipos prejudicando essas pessoas na vida real.


O jornalista ressaltou a importância e a necessidade de a mídia quebrar esses padrões: “Existe uma necessidade urgente de conscientização das empresas que trabalham com esse tipo de história nas suas diversas mídias, seja elas com quadrinhos ou cinema. É necessário se conscientizar de uma maneira a incluir toda a diversidade que existe no mundo real”.

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