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Reciclagem e Reaproveitamento que transformam vidas

Atualizado: 27 de Mai de 2019


A Revista Tajá conta histórias de pessoas que usam a reciclagem e o reaproveitamento para mudar vidas e ajudar o meio ambiente em Macapá e Santana.


Por Dellano Carvalho/ Fábio Tomaz


As toneladas de lixo jogados na lixeira do Bairro Jardim de Deus I, em Santana, 20 km de Macapá, não foram rejeitadas pela paraense Rosalina Santos Conceição (43) que nasceu em Santa Izabel do Pará, mas vive há dez anos no Amapá. Com o marido, Cledison da Silva Saldanha (35), achou no lixo o teto de lona e o alimento que usaria para manter a família, composta por 4 filhos. Muito além do abrigo ou do alimento, o sustento viria das garrafas de plástico, que demoram 400 anos para se decompor, mas apenas alguns minutos para outra utilidade.


Foto - Fabio Tomaz - Pessoas que vendem material reciclável na Reciclagem Macapá

A reciclagem e o reaproveitamento do lixo podem parecer a mesma coisa, mas não são! Na reciclagem, acontece o processamento de resíduos para a transformação em algo novo, ou seja, a produção de um novo produto para uma utilidade completamente diferente, como por exemplo, o asfalto produzido a partir do pneu. O reaproveitamento não envolve reprocessamento para um produto novo, mas a utilização de objetos de uma nova forma para o lixo, um exemplo são as garrafas pet que viram móveis. Ambos os processos vão muito além de renovar o ciclo do lixo que não tem seu fim definido no descarte, mas renovar a esperança de pessoas que batalham por ciclos de vida melhor para si e para quem amam.


Rosalina, ou dona Rosa, popularmente conhecida, há nove anos produz vassoura com garrafas pets e revende para mercantis, supermercados e para o município de Oiapoque. O conhecimento adquirido através de um curso ofertado por um vereador da cidade foi o divisor de água para quem não tinha absolutamente nada, só uma bolsa de roupas e uma sacola de panelas. “A gente se alimentava do resto que a gente pegava da lixeira. Toda a família catava na lixeira e disso a gente se alimentava”, disse.


Foto - Fabio Tomaz - Cledison, Rosalina e o filho João Vitor - Cursa faculdade de Redes de Computadores

Emocionada, dona Rosa lembra do dia em que foi para a lixeira junto com os filhos e se viu no dilema de pegar 1kg de arroz que estava perto de um gato morto. “Eu tinha uma escolha ali, ou eu trazia o quilo de arroz para alimentar os meus filhos ou a gente ficava com fome. A minha escolha foi pegar e trazer”, frisou a produtora.


As garrafas pets que dividiam espaço com o sustento da família Conceição, hoje sustentam uma casa com dois banheiros, e o sonho de comprar um carro e construir um galpão para servir de fábrica.


As garrafas são pegas nas ruas ou doadas por uma empresa. Apesar da grande quantidade que é descartada diariamente, ainda não é suficiente para uma grande quantidade de produção, afirma Rosalina. Segundo ela, é necessário parar um dia inteiro para coletar as garrafas que serão usadas no outro dia.


Conforme a Associação Brasileira da Indústria do Pet (ABIPET), em 2016, o Brasil produziu 840 toneladas de garrafas pet, e 51% foram recicladas. A reciclagem do material pet pode ser utilizada na construção civil, produção de automóveis e celulares. No caso das vassouras é chamado de reaproveitamento, assim como a produção de outros objetos para a casa.


O reaproveitamento das garrafas pet garantem benefícios sociais, econômicos e ambientais. Ainda de acordo com informações presentes no site da ABIPET, somente no Brasil “a diversidade de usos permite que o valor pago pela sucata seja altamente atrativo o ano todo, o que mantém em atividade muitas empresas que comercializam o material, bem como inúmeras Cooperativas e seus catadores”. Economicamente, a reciclagem do pet gera impostos, empregos e renda, movimentando a economia cada vez mais desde 2000.


Além da diminuição do lixo no meio ambiente, um dos benefícios ambientais é que a matéria-prima reciclada substitui material virgem em muitos outros produtos, nos segmentos mais diferentes, como construção civil e automotivo.


A produção das vassouras inclui máquinas artesanais feitas pelo marido de Rosalina a partir de peças descartadas de máquina de lavar, por exemplo. Na montagem de uma vassoura são necessárias 15 garrafas pets e ao fim do dia aproximadamente 30 dúzias são produzidas, em cinco minutos sem incluir o forno, usado para endurecer o plástico.


Atualmente, a venda das vassouras sustenta a família, porém Dona Rosa afirma que quem revende o produto é quem realmente ganha dinheiro. “Essa vassoura aqui (da forma maior) sai por R$8,50 aqui (vendida diretamente por ela). E eu vendo pra Oiapoque essas vassouras, passo para outro rapaz e ele vende a R$24,00 reais uma dessa (se referindo ao modelo da vassoura), a gente que fabrica ganha bem pouco”. A paraense acrescenta que o produto é muito bem aceito no mercado. “Ninguém vai se negar em vender as vassouras”.


Em meio às dificuldades do negócio, que incluem uma rua cheia de lama no inverno e a falta de um veículo para transportar, Dona Rosa realiza tudo o que faz pensando nos filhos. “Não estudo, só trabalho para manter a família. Meu foco são meus filhos, para manter os estudos e para que eles tenham uma vida melhor que a minha”, diz ela.


Nada da garrafa é desperdiçado, a produtora explica que as tampas são doadas para Náutica, fabricante de barcos que as utiliza em garrafas que ficam debaixo das embarcações, e para revendedores de açaí que o transportam em garrafas. O gargalo das garrafas vai para reciclagem que é derretido e tem outra utilidade em São Paulo.


Sobre o meio ambiente, Dona Rosa diz que é gratificante poder ajudar com ele. “Quando eu vejo as garrafas transformadas nisso aqui (vassouras), poderia ser uma garrafa no esgoto, entupindo um bueiro, e não, elas estão aqui, estamos trabalhando com elas”.


O lixo descartado na lixeira pública, perto de onde fica casa de Dona Rosa, reciclou a esperança e a coragem de poder escrever uma nova história para si e sua família. E é a chance de mudar a vida de quem se gosta, que muitos homens e mulheres encontraram na reciclagem muito mais do que uma renda extra para a casa, mas verdadeiras amizades que compartilham e apoiam.


Susi Cristina Maciel dos Santos (36), de Tucuruí - PA, é muito mais do que esposa do dono da Reciclagem Macapá, mas uma humanitária que vê, principalmente nas mulheres, que passam pelo condomínio onde mora, guerreiras que merecem uma vida melhor. A ajuda de Susi vai além do dinheiro da reciclagem. “No nosso trabalho aqui na reciclagem, eu vi a necessidade de ter um olhar melhor por essas mulheres; vendo elas catando nas lixeiras e trazendo pra gente, no sol quente, com pneu (de bicicleta) furado, mas com aquela vontade de trabalhar. Vendo elas, uma força cresceu dentro de mim pra trazer mais recursos pra poder ajudar e fui buscar parceiros”, afirma.


Formada em Recursos Humanos, Susi sabe a importância dos estudos e de uma boa capacitação para buscar outros trabalhos. “Eu quero que algumas pessoas possam ajudar trazendo para elas (as famílias de catadores de lixo) cursos de Capacitação e Desenvolvimento Pessoal”. Para grande parte dos catadores, a reciclagem é uma renda extra, como para Aldinéia Oliveira Albuquerque que é costureira e faz vestidos para Susi.

“Eu não tenho vergonha de fazer reciclagem, porque tem muitas pessoas que reparam, mas eu não tenho vergonha. A gente tá ali fazendo nosso trabalho” - Alcília Ramos Castilho.

O trabalho social na Reciclagem Macapá acontece há 13 anos e também envolve ex-detentos. Susi frisa o papel importante do lixo para gerar oportunidades: “a reciclagem já deu muito pra gente e tá na hora de devolver com esse olhar. A gente já faz esses trabalhos sociais desde que começamos a contratar pessoas à margem da sociedade”.

O lixo, também chamado resíduo sólido, é uma das consequências do desenvolvimento das cidade, por isso seu aumento a partir do crescimento dos centros urbanos é fator para se preocupar e cuidar ainda mais dos resíduos sólidos. Segundo o engenheiro ambiental, Osvaldo Brígido Correa Neto, destaca que é preciso pensar em todas as maneiras de reduzir o lixo. “O reaproveitamento tem sido de grande importância para própria sociedade, pois através delas todos os resíduos são devidamente descartados e evitam a própria poluição de maneira geral, deixando de causar grande consequências para a humanidade”, informa o engenheiro.


Segundo dossiê “Lixo” realizado pelo Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), em novembro de 2017, o Brasil possuía 858 indústrias recicladoras, incluindo centros de coleta, indústrias processadoras e produtoras de embalagens apoiados pela Cempre. O número de municípios atendidos chega a 732 contemplado 130.719.535 habitantes. Ainda segundo o dossiê, apenas 18% dos municípios realizam o sistema de coleta seletiva .


Susi explica que somando essas catadoras que moram às margens dos trilhos da estrada de ferro do Amapá e de outros bairros, e que vendem para a reciclagem, são 60 a 100 pessoas ganhando com o lixo. Mas o carinho especial é com as catadoras dos trilhos que ela vê e ajuda diariamente.


Relatos de conquistas que vieram do lixo


Aldinéia Oliveira Albuquerque Gomez (40), de Serra do Navio - AP é costureira e mantém seis filhos com o marido. Ela é muito grata pela amizade que tem com a dona da recicladora. “Deus colocou a Susi no meu caminho e como eu sempre falo pra minha família, a gente não tem que ter vergonha de trabalhar, juntar latinha não é crime, crime é roubar. E aqui eu fui bem recebida e meu trabalho foi bem-vindo. Então através disso eu consegui essa amiga, essa pessoa que tá lado a lado comigo, eu tive muito apoio dela”, afirma.


Foto - Fabio tomaz - Catadora Marilda Rocha de Oliveira

A catadora Marilda Rocha de Oliveira (40), de Bagre - PA, há 17 anos no Amapá, destaca uma história que teve de solidariedade. “No começo de 2018 alguém parou o carro no nosso lado, eu com a minha colega (enquanto concedia entrevista, Marilda estava acompanhada da amiga e colega de trabalho Sebastiana Machado Aragão) querendo comprar todo o nosso material e eu disse que a gente não ia vender porque não tava pesado, mas ele estacionou o carro e disse que ia esperar a gente na reciclagem porque ele tinha mil reais para nós em compras. E eu perguntei se ele tava brincando com a gente e ele disse que jamais faria uma brincadeira daquelas. Eu fiquei com medo porque poderia ser um sequestro, né? Mas a Sabá insistiu e ele nos levou pro supermercado e nós fizemos a compra de mil reais”.


Para Alcília Ramos Castilho (30), de Santarém - PA, o olhar torto das pessoas não muda o orgulho que a mãe de duas filhas tem em coletar lixo. “Eu não tenho vergonha de fazer reciclagem porque tem muitas pessoas que reparam, mas eu não tenho vergonha. A gente tá ali fazendo nosso trabalho”. Assim também é com Jucirene da Silva Conceição (38), que recicla há 19 anos: “as pessoas às vezes olham com nojo, mas nós estamos lá sendo obrigado porque nós não tem outra coisa pra fazer, nós sem emprego não tem nada”, diz.



Da reutilização à produção de sabão


Os olhares preconceituosos enfrentados por muitos recicladores diariamente é reflexo da falta de informação e sensibilidade que muitos não têm sobre a importância do trabalho de coleta. Esse déficit de conscientização por parte da sociedade também resulta em comportamentos graves, como jogar lixo doméstico em canais e lixeiras viciadas. O trabalho de ensinar ao próximo e cuidar da nossa terra também é sinal de amor; este lema é propagado pelo casal Edna dos Santos (57), do Pará, e Uriel Palheta Lobato (59), natural do Amapá.


Os conhecimentos de Dona Edna da produção de sabão, barra e líquido, a partir do óleo, foi o pontapé inicial para começar o Comitê Ambiental no Residencial São José, Buritizal, Macapá. “Ela (dona Edna) já tinha esses conhecimentos e formou uma equipe e nasceu esse projeto que trabalhamos até hoje e a gente pretende levar para outros lugares também”.


O projeto do casal objetiva “trazer um conceito de educação ambiental, conscientizando as pessoas para que elas não jogassem borra de café no ralo, resíduos de comida e óleo de frituras. Então ao invés de ir para o ralo e agredir o meio ambiente, nós fazemos o recolhimento desse óleo para que pudéssemos transformar em sabão”, expõe Uriel.


A produção do sabão, barra e líquido, leva em média 20 minutos envolvendo limpeza do óleo, água quente, soda cáustica, álcool, glicerina e, dependendo do tipo, essências aromatizantes. O óleo é coletado no próprio residencial através dos moradores, com ambulantes que vendem batata frita e para quem quiser doar.


Para o casal, uma das principais dificuldades é a falta de transporte para buscar o óleo na casa de quem oferece. A atual estrutura resulta em uma pequena casa cedida pela prefeitura, que não proporciona um ambiente saudável. “A gente tem essa casinha que usamos como oficina, mas ela é muito pequena e quente e nós temos dificuldade, mas a tendência é melhorar”, afirma Uriel.


O senhor ainda explica que no residencial são conhecidos como educadores ambientais devido ao Comitê Ambiental que, através das oficinas, leva o conhecimento e conscientização aos moradores sobre descarte adequado do lixo e dos alimentos para a preservação do residencial e do ambiente. Mas como o meio ambiente não é só o residencial, as sábias palavras desse paraense ficam de lição para todos nós. “A gente vai trabalhando a conscientização ambiental auxiliando eles, informando que de ‘o óleo e a borra de café não se joga no ralo porque ele vai entrar nos esgotos, vai poluir os rios, ele vai pro meio ambiente’, então se nós já temos um campo saneado nós temos que zelar, nós temos que preservar esse meio que a gente já tem, como uma bênção”, finalizou.


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