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Projeto forma campeões por meio do Taekwondo

Atualizado: 6 de Jul de 2019

Projeto social, ajuda jovens e crianças que sonham em ser atletas de Taekwondo.


Por Leandro Bezerra e Luan Coutinho.


No bairro Jardim Felicidade, na cidade de Macapá, somos recebidos por Matheus Rodrigues, 21 anos, faixa preta 1º DAN (primeiro nível da faixa preta), com a vassoura na mão, preparando o espaço cedido por uma Igreja Batista, para ser montado o tatame e assim, ser dado início as aulas do dia.

Matheus Rodrigues dando treino em espaço cedido pela igreja. Foto: Leandro Bezerra

A turma, formada por oito crianças, nenhuma usando Kimono ou faixa, mas todas demonstrando um pouco do espírito de luta necessário para vencer a falta de coordenação, de jeito e a inquietude normal da pouca idade.


O respeito pelo jovem mestre é um sentimento presente durante todo treino. Para Matheus esse respeito é fundamental, “já dou aula de Taekwondo há uns dois anos, nunca pensei em ser professor, mas surgiu a oportunidade, e eu amo ensinar, amo passar a prática e a importância do respeito e da disciplina da arte marcial”, afirma.

Alunos do Matheus Rodrigues treinando. Foto: Leandro Bezerra

Matheus coloca ainda a arte marcial em um patamar de grande importância em sua vida:

“O Taekwondo me possibilitou muitas conquistas, a faculdade, viagens e o mais importante, me deu a oportunidade de ser uma pessoa melhor”

A última conquista do Amapá no Taekwondo foi a convocação da atleta Leylianne dos Santos, 22 anos, para a seleção brasileira visando disputar o campeonato Pan Americano Open de Parataekwondo, que ocorrerá em junho deste ano em Portland, Estados Unidos. A atleta, que nasceu sem uma das mãos, é um grande fenômeno.


A paratleta que também é faixa preta de Karatê, esporte que pratica desde os 14 anos de idade. Há cinco meses, passou a também praticar o Taekwondo, na academia Bruno Igreja, desde então vem se desdobrando para se manter em alto nível nas duas modalidades.


No início, Leylianne relutou um pouco ao convite do seu treinador, no entanto ela resolveu conhecer essa arte marcial. “Eu iniciei o Taekwondo, agora no mês de janeiro, mas o convite já havia sido feito no final do ano passado como sou atleta de Karatê, demorei um pouco para aceitar, mas aí eu falei pra mim mesma, quer saber vou experimentar essa aula”.


Além de Leylianne e Matheus, o Taekwondo proporcionou muitas alegrias para outros jovens no Amapá, conseguindo conquistar seu espaço no nível nacional e até internacional. Um caso concreto é o do atleta de Taekwondo amapaense Venilton Teixeira.


Uma das grandes estrelas do Taekwondo do Amapá, Venilton, é medalhista de bronze no campeonato mundial disputado em Cheljabinsk na Rússia em 2015 e nono colocado nas Olímpiadas do Rio 2016. Venilton, hoje mora no sul do país e treina na Associação Caxiense de Taekwondo (ACTKD/UCS).


Venilton ressaltou a importância do seu treinador na sua carreira tão vitoriosa. “Ele foi muito importante, pois ele estava comigo desde o início da minha carreira, ele foi meu professor. Então ele foi de suma importância, ele me criou no Taekwondo na verdade, me moldou como atleta que eu sou hoje, eu sou grato a ele, então ele foi muito importante na minha vida de atleta, e também na social”.

"a gente não é só campeão como atleta e sim na vida também.” - Venilton Teixeira

Matheus, Leylianne e Venilton são três jovens, com diferentes histórias de vida e com diferentes modos de se relacionar com o esporte, no entanto, suas histórias são interligadas por um ponto em comum, todos, em algum momento de suas trajetórias, passaram ou estão passando pela condução do treinador Bruno Igreja.

Bruno Igreja, concedendo entrevista para a Tajá. Foto: Leandro Bezerra

Bruno, 28 anos, profissional amapaense com reconhecimento nacional e internacional, é atualmente o técnico da Seleção Brasileira Juvenil de Taekwondo, tem 20 anos no esporte e somente como treinador possui 10 anos de experiência. O técnico fala da sua convocação para a seleção com entusiasmo. “Isso para mim é gratificante, fiquei feliz e honrado de ver o meu trabalho sendo reconhecido, mas principalmente, por provar para as pessoas que mesmo você sendo do Amapá, do norte do Brasil, mesmo mediante todas as dificuldades que a gente enfrenta.

“Se a gente sonhar e realmente trabalhar todos os dias em busca desse sonho, a gente pode realizar”.

O treinador é o gestor responsável pela condução do projeto social “Nascidos para vencer, desistir jamais”. O projeto possibilita a prática do Taekwondo para jovens carentes e atua nos aspectos socio educacionais e nos de rendimento esportivo para os atletas que se destacam e que queiram seguir como profissionais no esporte. Em uma conversa, em sua recém-inaugurada academia, Bruno Igreja fala sobre como entrou para o esporte, como desenvolveu o seu projeto social e sobre como alcançou o posto de treinador da seleção brasileira de Taekwondo.


Bruno, quais foram suas referências para começar no esporte?


O Taekwondo entrou na minha vida com uma grande participação do meu pai (Sr.Alex Igreja), ele era praticante de judô, foi um grande incentivador para que eu praticasse várias modalidades esportivas, independentemente de ser luta ou não. Eu comecei praticando Capoeira, Caratê e cheguei a praticar Judô, mas o Taekwondo, por ter uma academia próxima da casa da minha avó (Sra Jacira Igreja) que era onde eu ia sempre que saia escola. Toda vez que eu passava no caminho eu me deparava com uma academia que era do meu mestre, Júnior Maciel, no início eu ia só para olhar, depois, meu mestre me chamou para treinar e desde a primeira vez que eu treinei, nunca mais sai da academia.


Quando você iniciou o projeto e a academia?


Em 2009, comecei a dar aula um projeto social chamado “Mais Educação” do Governo Federal, no colégio Reinaldo Damasceno que fica no bairro Cuba de Asfalto. No final de 2010, devido a troca de governo, eles encerraram as atividades e dispensaram todos os monitores, a gente dava aula gratuitamente, éramos voluntários. Foi então que, no final de 2010 por incentivo da minha família e amigos eu iniciei o projeto.


Com a saída dos monitores fizeram, inclusive um abaixo-assinado solicitando que a direção da escola voltasse atividade, mas não foi atendido. Foi então que, num espaço de 5x5 nos fundos da minha casa que era o ambiente que eu treinava com meu pai que eu tive a ideia e então o meu projeto abriu mesmo, chamado “Nascido para vencer, desistir jamais”, isso ocorreu em dia 28 de janeiro de 2011.


Nos seus anos como treinador e gestor de um projeto social, quais foram os maiores desafios?


Quando se fala em ser um atleta, independente de modalidade, enfrentamos muitas dificuldades, porque a vida do atleta é dependente de patrocínio, da família e, principalmente do apoio de terceiros.


Quando se fala de gestão, você tem nas suas mãos muitas pessoas para você cuidar e direcionar, então a dificuldade é dobrada. Ser gestor de um projeto social é muito difícil, você dedica do seu tempo, do seu conhecimento e, principalmente do seu recurso (dinheiro), porque não é todas as pessoas que têm esse olhar de investir no projeto social e ter aquela coisa de amor ao próximo, de repassar tudo que aprendeu em algum segmento para outras pessoas de forma gratuita. A gente vive em um mundo capitalista, muitas pessoas visam o retorno financeiro. Mas, eu sempre tive um incentivo da minha família, minha mãe é assistente social e eu herdei isso dela, de alguma forma tenho que retribuir para as pessoas o que um dia lá atrás, outras fizeram por mim.


A gente venceu as dificuldades com apoio da família e dos pais dos alunos da comunidade. O aluno do projeto, vê no esporte uma oportunidade de repente de conhecer outro estado ou outro país, já que vê que o projeto revela muitos talentos. Eu tenho um exemplo aqui dentro que deu certo, o Venilton que foi para as Olímpiadas, então os demais querem também ser igual ele. Então, a dificuldade aumenta porque nós lidamos com pessoas de baixa renda, em vulnerabilidade social, sem muito recurso. É algo muito maior que a gente, vamos correndo atrás e conseguindo através de apoio de pessoas que tem pensamentos parecidos com a gente.


O projeto possui algum apoio governamental ou de empresas? Como é que o projeto se sustenta hoje?


Até 2015, antes da gente ter um medalhista mundial, a gente se sustentava com apoio da minha família, meu próprio recurso e tinha alguns apoios de parceiros, mas esse apoio da iniciativa privada era mais voltado para os atletas e não para o próprio projeto social. Este projeto é uma coisa que pouco se vê no Brasil, nós temos um projeto de duas vertentes, ele é socio educacional e de rendimento. Nós somos um projeto que oportuniza a prática do taekwondo para comunidade carente, ensinando para eles a serem cidadãos de bem e se tornarem seres críticos e conscientes de seus deveres na sociedade.


A gente realiza várias ações que beneficiam não só os alunos do projeto social, como no dia das mães, das crianças, no Natal solidário, que é o nosso forte, e na Páscoa solidária. Realizamos também atividades que beneficiam a comunidade de alguma forma, sempre tem alguém que está doente ou está passando por uma dificuldade. Nós temos também o rendimento que é através do projeto social que geramos talentos, aquele jovem que se sai bem na modalidade e acaba se tornando atleta. Um desses, em 2015, foi o Venilton Teixeira que disputou o campeonato mundial em Chelyabinsk na Rússia e foi medalhista no Mundial. A partir daí surgiram novos parceiros. A comunidade do Amapá em geral, inclusive de outros estados viram que nosso projeto social é sério e que rendia muitos frutos no cenário nacional e Internacional e foi aí que nós ganhamos nosso maior parceiro hoje, que eu posso dizer que é o nosso maior financiador e que possibilita que este projeto não feche as portas.


Qual é o seu balanço do atual rendimento dos atletas no Amapá?


No cenário nacional, o Taekwondo Amapaense é sem dúvidas uma das grandes referências, não só pelos resultados, mas pelo processo que a gente leva até estes resultados, nós sabemos que moramos em um estado pequeno, distante do Centro Sul, onde são realizadas as competições nacionais e as classificatórias para entrar na Seleção Brasileira, então a gente é desfavorecido geograficamente, no Amapá é tudo mais caro.


É impressionante o quanto que a passagem aérea é cara, e nós estamos lidando com projeto social, com pessoas carentes, de baixa renda, assim a dificuldade se multiplica. Este ano, posso dizer para você que é um ano atípico, porque foi o primeiro ano que a gente colocou somente um atleta na seleção, nos anos anteriores, a gente colocava 4, 5 até 7 na seleção brasileira.


Esse ano foi atípico, por conta das dificuldades que a gente teve para levar os atletas, levamos somente 40% da equipe que poderia brigar por uma vaga na Seleção Brasileira e por conta de estarmos passando por um processo de renovação dos nossos atletas. Mas a avaliação hoje é que, sem sombra de dúvidas o Taekwondo amapaense é uma grande referência no cenário nacional e internacional, afinal de contas eu sou técnico da seleção brasileira juvenil e fui treinador nos jogos olímpicos de 2016, então ninguém chega nesse posto se realmente não tiver um trabalho de grande relevância.


Como é a experiência de ser treinador de uma seleção brasileira?


Eu vejo isso como reconhecimento no trabalho de muitos anos, a gente vem trabalhando muito. Todo atleta tem o sonho de chegar na Seleção Brasileira, obviamente todo treinador de qualquer equipe também tem um sonho de chegar na Seleção Brasileira. A gente trabalha duramente para alcançar esse objetivo, eu tive o privilégio de ser treinador nos jogos do Rio 2016. Em 2017, infelizmente eu saí da seleção principal, mas, em 2018 eu entrei como treinador provisório da Seleção Brasileira juvenil e fui convidado para o Mundial junto com uma aluna minha. Neste ano veio a tão sonhada efetivação no cargo de técnico da seleção brasileira, isso para mim é gratificante, fiquei feliz e honrado de ver o meu trabalho sendo reconhecido, mas principalmente, por provar para as pessoas que mesmo você sendo do Amapá, do norte do Brasil, mesmo mediante todas as dificuldades que a gente enfrenta. Se a gente sonhar e realmente trabalhar todos os dias em busca desse sonho, a gente pode realizar.


Como foi estar presente e atuar com seus atletas numa Olimpíadas?


Foi um marco na minha vida participar do maior evento esportivo do planeta. Os jogos olímpicos é um momento que o mundo para. Historicamente, já conseguiu até parar uma guerra.


O poder que este evento tem é muito grande, principalmente na vida de quem é desportista, as pessoas que não têm envolvimento com o esporte já se emocionam bastante só de assistir e ver os atletas do seu país, defendendo a sua bandeira. Então, imagina você está no lugar dele, você estar lá como treinador ou como atleta lá, defendendo não só a bandeira da sua pátria, mas também a bandeira do seu estado. Afinal de contas, nós éramos os únicos representantes do Amapá, no maior evento do planeta e realizado no nosso país, um privilégio. Então, foi um momento marco, uma consagração de um trabalho árduo que já vinha desde 2009. Na verdade, foi o momento de coroar aquilo que a gente sonhou.


Entrevista: Bruno Igreja


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