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Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor…

Se não fosse aquele general não deixar nós passarmos, talvez não fôssemos o que nos tornamos


Por Karla Gabriela e Jamily Canuto


O ano era 1966 e os versos dessa canção foram abraçados pelos brasileiros como hino contra a Ditadura Militar que se instalara no país. À época, a arte fazia jus a sua função de retratar e criticar a realidade através do olhar do criador com maestria. Mas no Norte do Brasil, cerca de quinze jovens jamais imaginariam que este método de protesto marcaria para sempre a história de suas vidas.


A banda(Foto:/Arquivo da Banda)

Em uma terça-feira de Carnaval de 1965, enquanto o grupo jogava cartas e dominó, como de costume, na sede de um tradicional clube de futebol do Amapá, a conversa tomou um rumo político. O então governador, o general Luís Mendes da Silva (ARENA), havia decidido candidatar um militar para o cargo de deputado federal como representante do Território Federal do Amapá nas eleições daquele ano. Engajados politicamente e opositores ao Regime Militar, os jovens não deixariam que o plano se concretizasse. Motivados por Amujacy Alencar, integrante do grupo, optaram por apoiar um outro candidato, o primeiro governador do Amapá, coronel Janary Nunes (PSP).


A decisão gerou motivo para comemorar o Carnaval. Com um plano de oposição ao governo, a turma foi às ruas juntar-se ao “Cinturão Asfáltico”, como era conhecido o percurso, com um novo bloco: A Banda. Sobre a escolha do nome? Esse era o título dos melódicos versos “a minha gente sofrida despediu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”, do eterno Chico Buarque, trilha sonora da campanha de Janary.


Da Rua Tiradentes a Avenida Feliciano Coelho, Leopoldo Machado e FAB ao primeiro obstáculo do recém-nascido bloco. Chegando nos arredores do Palácio do Governo do Território, guardas enviados pelo governador já aguardavam para impedir a passagem dos blocos, medida típica do regime ditatorial.


Como lembra o atual presidente da Banda, José Figueiredo Souza, o Savino, caso o grupo não obedecesse às ordens do general, todos seriam presos. “Eu já tinha sido preso antes na Fortaleza de São José de Macapá porque eu era líder estudantil da época. Então eu já estava registrado como ‘agitador”, relata.

Ele conta que o grupo retornou a sede do clube de futebol para continuar a festa, mas que o ocorrido lhes dera uma motivação ainda maior. Determinados, profetizaram que no ano seguinte, A Banda conseguiria passar, com a vitória de Janary Nunes estabelecida. “Se não fosse aquele general não deixar nós passarmos, talvez não fôssemos o que nos tornamos”, supõe Savino. Em 1966, o bloco já contava com cem brincantes.

A banda (Foto:/Arquivo da banda)

Chicona, Arizinho, Anhanguera e Iracema


No Carnaval de 1965 outro acontecimento também marcou a história da Banda. Foi na esquina do estádio Glicério Marques que Savino encantou-se por uma boneca com cerca de três metros de altura e a ela deu o nome de Chicona. “Eu achei aquela boneca muito parecida com uma enfermeira aqui de Macapá que se chamava Francisca e o apelido era Chicona”, explica o presidente do bloco. A partir daquela esquina, Chicona se juntou ao grupo e, 54 anos depois, ainda faz o percurso com ele.


Com o tempo, uma família de bonecões foi formada. Iracema é uma homenagem a esposa do coronel Janary Nunes, a dona Iracema Carvão Nunes. O casal era amigo dos fundadores da Banda.


O Anhanguera veio de uma homenagem que um dos conselheiros do bloco quis fazer a rua onde morava, na Zona Sul da capital. Em 1998, Anhanguera “casou-se” com Chicona. A união aconteceu na esquina da Avenida Feliciano Coelho e Rua Jovino Dinoá, com direito a um juiz de paz fictício. Quando o conselheiro faleceu, a família pediu que o boneco tivesse o nome dele. Anhanguera agora é Vanderlei.

Chicona e Anhaguera se “casaram” na passagem da Banda no ano de 1998 (Foto: Arquivo da Banda)

Outras homenagens póstumas que o bloco fez aos seus colaboradores através dos bonecões foram Arizinho e Cutião. O primeiro é referência ao conselheiro Arimatéia, e o último, ao criador da primeira boneca, a Chicona.


A Banda é do povo amapaense...

Para Savino, A Banda é algo muito maior que um bloco, é a personificação do povo amapaense. Ela cresceu por causa dele e se mantém pelo mesmo. O espaço que A Banda recebeu, segundo seu Savino, também é para o povo. É uma retribuição a tudo o que eles conquistaram graças ao apoio popular “Tudo isso aqui, eu nunca imaginei. O espaço é enorme e aqui nós conseguimos ofertar diversas atividades para o público”.

O casamento teve direito a juiz de paz (Foto: arquivo da Banda)

O Carnaval dura alguns dias, mas a Banda dura o ano inteiro. Tombado como patrimônio cultural imaterial do Amapá, o bloco assume uma função social no estado. Um convênio com o Sistema S (Sesi/ Senai), apoiado pelo governo do estado, permitiu que a organização pudesse ter sede própria e oferecer serviços à comunidade.


Apesar de grande parte dos brincantes não fazer ideia do que o bloco oferta tanto no dia de folia quanto durante o ano todo, existem diversos projetos elaborados pela coordenação. Desde 2018, na manhã antes da saída do bloco às ruas, uma ação social gratuita, com serviços de saúde e beleza, é aberta para a população. A estrutura é disponibilizada pela Secretaria Municipal de Saúde, Sesi e Senai. O horário geralmente é das oito da manhã ao meio dia. Durante essa ação são ofertados serviços como aferição de pressão, dentista, massoterapeuta, testes rápidos de doenças sexualmente transmissíveis, dentre outros.


Já nos meses que sucedem o Carnaval, além de centro cultural, a sede da Banda é espaço de aprendizado. Lá são realizados cursos de iniciação profissional para a comunidade de baixa renda. Para o futuro, o fundador remanescente espera algo que ele chama de um “bloco sustentável”, que cada um coloque na porta de sua casa uma caixa de som, para que assim ele se torne também algo colaborativo na comunidade “Se cada um dos moradores que residem pelo percurso colocar uma caixa de som na porta de casa, o bloco pode se tornar maior ainda”.


“A minha carne é de carnaval, meu coração é igual” ...


A Banda sai todos os anos, impreterivelmente na terça-feira de Carnaval, como naquela primeira tentativa frustrada em 1965 e carrega mais de 150 mil brincantes. Para a maioria deles, principalmente os que acompanham o bloco há muitos anos, os preparativos se iniciam bem antes da semana de carnaval. Beatriz Melo Castro, de 19 anos, sai anualmente no bloco desde a infância. Ela conta que pensa na fantasia alguns dias antes e usa a criatividade para elaborar, mas nem sempre é possível. “Quando eu não tenho dinheiro simplesmente visto a roupa mais engraçada e colorida que eu tenho, passo brilho na cara e vou assim”.

A banda (Foto:/Arquivo da banda)

Durante a semana de folia, diversos eventos são privados e grande parte da população não tem acesso. Esse é o maior diferencial da banda, ela é gratuita, ela é do povo. “Um bloco de rua como A Banda, pode nos proporcionar acesso gratuito para todo mundo curtir a folia. Algumas comemorações do carnaval são muito restritas a pessoas que tem dinheiro, mas A Banda é de graça, você pode ir e a diversão é sempre garantida, porque você vai ver coisas engraçadas, ouvir músicas que levantam o astral e beber por um valor acessível”, relata Beatriz.


Para a jovem, A Banda é muito mais que apenas um bloco, é a representação de um momento em família. “O fato de ir para banda marca muito no carnaval porque eu vou com a minha família inteira e a gente fica parada ali na Leopoldo Machado depois da FAB. Nós ficamos lá nos divertindo e para mim é muito bacana curtir o carnaval em família. Eu gosto de me divertir no bloco com os meus amigos, mas indo desde a infância, a minha percepção da banda é a de um momento de lazer familiar. A melhor lembrança que eu tenho é essa, de estar com a minha família e de me divertir muito com os meus tios”.


O dia do bloco é de extrema relevância não somente pela brincadeira, mas também pela movimentação para comerciantes autônomos. No dia do bloco, diversas pessoas saem de suas casas com o objetivo de faturar um rendimento extra. Para Aline Assunção, de 26 anos, o dia da banda gera renda para diversos setores e trabalhadores formais e informais. “No dia do bloco há intensa movimentação de pessoas na cidade e, consequentemente, de dinheiro. Pessoas daqui de Macapá frequentam a banda e pessoas dos interiores também, então isso gera maior circulação de capital pela cidade. Do maior ao menor empreendedor há algum tipo de lucro”, ressaltou Aline.


Ivo Matheus, de 22 anos, indo pela segunda vez ao bloco, aponta A Banda como uma grande influência para a comunidade amapaense, principalmente por carregar o peso de ser um evento cultural anual de décadas, que pode ser usado como ferramenta para a mudança de certos estigmas que há na comunidade, carregados pelo período festivo ou não.

José Figueiredo de Sousa, o Savino, presidente e um dos idealizadores do bloco (Foto: Arquivo da Banda)

No ano de 2019, por exemplo, os brincantes do maior bloco do estado e de outros espalhados pelo país estiveram sobre a proteção da lei 13.718/2018, que versa sobre atos de importunação sexual. O termo engloba qualquer ato que fere a dignidade sexual de uma pessoa, sem configurar estupro, como “roubar beijos” ou apalpar. A nova lei prevê de um a cinco anos de prisão para tais atitudes. Ivo conta que neste ano, a Banda levantou a bandeira do respeito ao corpo do outro.


“No caso desse ano - não sei se em edições anteriores houve o mesmo-, foram distribuídos adesivos ao longo do percurso, incentivando o respeito às mulheres, o que visa alterar essa imagem de que no carnaval "todo mundo é de todo mundo" e a diminuição do assédio sexual, dentro e fora do período do festivo. Além de que há outras maneiras de usar a Banda como ferramenta para implementação de políticas voltadas para os brincantes que visem outros aspectos relacionados à cultura, lazer, saúde e compromisso social”.


No dia da Banda, mais de 150 mil pessoas se encontram no decorrer do percurso. Pessoas se arrumam e saem de casa para acompanhar o bloco, ou então simplesmente olham de suas casas a multidão alegre passar. Para Adriane Lobato, de 22 anos, o ponto auge da banda é justamente a mistura do povo. “No bloco vem gente de todo lugar, de várias classes sociais e etnias. É um dia de brincadeira em que as pessoas tendem a se misturar muito, algo que, infelizmente, não é muito vivenciado. Na Banda, os foliões viram uma galera só e isso é o que eu acho mais bonito”.



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