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Pesquisa inédita no Amapá apontará pessoas com tendência para desenvolver câncer

Atualizado: 13 de Abr de 2019

A detecção precoce do câncer evita gastos com internações hospitalares, tratamentos e ajuda a pessoa a mudar o estilo de vida.


Por José Raimundo Koga


A professora Ártemis Rodrigues fará um estudo para identificar na população amapaense a predisposição genética para o câncer. A pesquisa busca avaliar no DNA da população a existência de marcadores específicos de câncer gástrico e câncer de mama. A pesquisa será iniciada em abril, no entanto, já está em processo de finalização no Comitê de Ética da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Ártemis Rodrigues é amapaense, natural de Macapá. Doutora em Clínica Médica, há mais de cinco anos ela desenvolve pesquisas na área de biologia molecular relacionadas ao câncer.

Professora Ártemis Rodrigues

Sobre o Câncer


O câncer é considerado uma das maiores causas de morte no mundo e é originado por alterações no genoma humano. A doença surge após sucessivas mudanças no material genético (DNA) de células normais. As células sofrem transformações até se tornarem malignas. Com a pesquisa, possíveis casos de câncer poderão ser diagnosticados e tratados precocemente.

Padre Paulo

O padre Paulo Roberto, fundador do Instituto de Prevenção do Câncer Joel Magalhães, fala da ausência de divulgação para a sociedade amapaense das pesquisas desenvolvidas na UNIFAP. “Vi a universidade ser implantada aqui no Amapá e sempre fui um crítico da UNIFAP. Existe um abismo muito grande entre a universidade e a sociedade. Se você for perguntar para sociedade o que ela sabe da universidade, o que a UNIFAP está produzindo, ninguém sabe”, asseverou.


Mas Padre Paulo reconhece que há um esforço da Universidade para a pesquisa integrada com a comunidade. “A professora Ártemis está de parabéns porque, nessa área da medicina, nessa área social é a primeira vez que eu vejo a universidade procurar a comunidade. Vejo sempre a UNIFAP fazer trabalhos em outras áreas, como a pedagogia, mas nessa área é a primeira vez que vejo”, diz.


Em busca de explicação sobre a afirmação do Padre Paulo, a produção da Tajá Revista entrou em contato com o Departamento de Ciências Biológicas e da Saúde da Unifap. A resposta do Técnico em assuntos educacionais, Rafael Hansseler Saldanha, foi que atualmente o departamento possui 54 projetos de pesquisa na área da saúde. Alguns deles envolvem a participação direta e indireta da comunidade, seja por meio de Educação Ambiental, Epidemiologia, grupos de pesquisa que envolvem a saúde da criança, adolescente, mulher, doenças crônicas, estudo de fármacos e fisioterapia postural, há mais de 5 anos.


Muitos deles ocorrem nos laboratórios, na Unidade Básica de Saúde localizada no Campus Marco Zero e nos campos de estágio dos acadêmicos vinculados aos projetos. “Certamente pecam na publicidade dos projetos”, diz Saldanha.


A pesquisa contará com a participação do IJOMA na busca por participantes voluntários para projeto. O Câncer se origina através de mutações genéticas, sendo 5% mutações hereditárias e 95% mutações por causas adquiridas do ambiente e hábitos de vida.


Estatísticas


De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA) são diagnosticados mais de 20 mil novos casos de câncer gástrico por ano.


Ele aparece em terceiro lugar na incidência entre homens e em quinto entre as mulheres.


Conforme dados da Sociedade Brasileira de Mastologia, cerca de 1 a cada 12 mulheres terá um tumor nas mamas até os 90 anos de idade.


No Amapá, segundo o INCA, as estimativas de novos casos de câncer no ano de 2018 para cada 100 mil habitantes, eram de 60 novos casos de câncer de mama em mulheres. Já o câncer de estômago seriam 60 novos casos em homens e 20 em mulheres. Os dados são preocupantes comparados a anos anteriores, por exemplo, de 2014 para cá os índices tiveram um aumento de 50% em novos casos.


Custo do exame


No Brasil o teste de predisposição genética do câncer começou a ser realizado em 2001. Apesar dos avanços na área, os testes ainda não são contemplados pelos serviços oferecidos na rede pública de saúde do SUS.

Porém, esses testes existem apenas nos laboratórios particulares e, em alguns deles, com cobertura por convênios, regulamentados pela Agência Nacional de Saúde. Em média, o custo do exame varia entre R$1.500,00 a R$14.000 reais. Porque alguns laboratórios enviam as amostras para serem analisadas em institutos de pesquisa nos Estados Unidos.


Se você tentar realizar o exame no Amapá, terá que arcar um pouco mais, o serviço não é oferecido no Estado. Para isso, é possível contratar a empresa que enviará um profissional para a coleta e transporte adequado da amostra para a execução dos testes.


Sobre o exame


O exame de predisposição genética avalia no organismo humano a probabilidade de desenvolver certas doenças, como por exemplo alergias, diabetes, câncer. No entanto, é importante saber que nem todo indivíduo que tem uma predisposição genética irá desenvolver o câncer.


“O que a gente tem que deixar bem claro é que nem todas as pessoas que apresentam essas alterações em seu DNA terão câncer. Não quer dizer que o resultado seja uma sentença de morte. Não quer dizer que elas necessariamente irão desenvolver algum tipo de tumor”, ressaltou Ártemis.


A discussão sobre este tipo de câncer ganhou notoriedade após a atriz Angelina Jolie, enviar uma carta para publicação no jornal americano New York Times, em maio de 2013. Quando a atriz soube da predisposição genética ao desenvolvimento de um câncer, ela decidiu remover as mamas como medida preventiva. Pois a mãe e a tia haviam morrido devido a um tumor de ovário e de mama, consequentemente Angelina Jolie teria uma maior probabilidade de desenvolver a mesma mutação genética.


A professora Ártemis faz um alerta para essas medidas radicais de prevenção: “Na época, a decisão da Angelina Jolie causou uma grande confusão. Ao mesmo tempo que ela estaria tentando se prevenir, isso não garantiria que ela deixasse de desenvolver algum tipo de câncer. Porque a alteração está no DNA da pessoa, o que ela fez unicamente foi a retirada de um tecido específico. E ela não está livre do aparecimento de um câncer em outro tecido”.


Do resultado


A predisposição genética do câncer não significa que a pessoa vai necessariamente desenvolver a doença. A detecção precoce de qualquer doença evita gastos com internações hospitalares, tratamentos e ajuda a pessoa a mudar o estilo de vida.

Estagiário Luan Giles

O estudante de farmácia Luan Giles fala sobre o que faria caso descobrisse que tem predisposição genética ao câncer: “Eu buscaria acompanhamento adequado e tomaria atitudes que melhorassem a minha qualidade de vida. Como por exemplo praticar esportes, melhorar a alimentação, evitar a bebida e o cigarro. Eu posso mudar minha vida para não desencadear a doença”, diz.


Onde serão realizados os testes


Os testes serão realizados na Universidade Federal do Amapá, no Laboratório de Biologia Molecular e Biotecnologia, do curso de Ciências Biológicas. Com a participação de mais de 300 voluntários, entre pessoas com câncer e pessoas sem a doença. Provavelmente a pesquisa iniciará no mês de abril, e já possui a aprovação de recursos para aquisição dos reagentes.


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