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Os Fortes onde cantam nossos sabiás

Atualizado: 17 de Mai de 2019

A história da Fortaleza de São José de Macapá e a importância da sua valorização pro estado do Amapá.

Por Brunna Silva


Macapá tem suas próprias riquezas, memórias e cultura popular. Aqui se encontra a história sofrida de um povo e, que ainda assim, vive com um sorriso no rosto e com os braços abertos para acolher todos que por aqui passam. Macapá é a terra do Marabaixo, da gengibirra, do açaí, do Zouk e do tacacá no fim de tarde. Macapá por vezes é sinônimo da Pasárgada de Manoel Bandeira, lugar tranquilo e que quando nada mais valer a pena, tem o Rio Amazonas para se deitar.

Nessa terra Tucuju, o cartão postal é a Fortaleza de São José de Macapá, monumento histórico que abarca a cultura dessa cidade brasileira que também é o meio do mundo e que abre alas para quem quiser entrar e conhecer a história dessa gente guerreira. A Fortaleza, é o Forte da cidade, o esteio dos macapaenses e de todos aqueles que chegam aqui. Ela é nossa palmeira, e as cantorias dos sabiás sempre nos levam até ela. E sem dúvida a Fortaleza é o ponto turístico mais famoso, que carrega nas suas pedras, baluartes e canhões muita garra de quem morreu por ela e de quem mora nessa cidade tucuju nos dias atuais.


Baluarte de São Pedro de frente pro Rio Amazonas e orla de Macapá. Foto: Brunna Silva.

Apesar do tesouro vivo que temos na nossa terra, ainda assim, pouco se dá valor ao turismo nessa cidade, que mesmo pequena, é rica de valores e memórias pra contar. Ana Karolina, 19, lamenta o fato de poucos macapaenses conhecerem a Fortaleza de São José, “A Fortaleza é um monumento muito bonito mas muito desvalorizado por nós que moramos em Macapá e é muito importante que a gente tenha a consciência de riqueza cultural que a gente tem aqui” diz a jovem macapaense.

A Fortaleza representa a garra do nosso povo, é a protetora da nossa cidade e nem mesmo colocar um pé em cada hemisfério tem tanto valor como se deleitar com uma Barsa materializada na orla de Macapá. Como diria Nivito Guedes, ela é sim um paraíso na Terra e não há mais nada nesse pedaço de chão que se compare a ela.


Infelizmente, o turismo não é o ponto forte de Macapá, mas a Fortaleza deve ser para os macapaenses como o Cristo Redentor é para os cariocas: motivo de orgulho, além do mais, um importante testemunho da formação social brasileira no período colonial. E está aí para ser reconhecida e valorizada por todo território nacional.


E é com tamanha felicidade, e com os olhos sorrindo, que Ronielson Moreira, 43, monitor e guia turístico do local fala sobre o quão é emocionante trabalhar nesse monumento histórico. “É algo bem gratificante e orgulhoso de trabalhar em um monumento imponente e grandioso, é o orgulho de nosso estado pois é a maior fortificação da América Latina e os estrangeiros nunca quiseram enfrentá-la”, diz o monitor.


“Objeto de memória e reveladora da história e da cultura local, regional e nacional”.

Ele ainda explica que a Fortaleza é um lugar de memória histórica sociocultural que se revela como uma potência de mercado turístico regional e nacional já que é um direito e dever de todos brasileiros terem acesso ao conhecimento sobre os bens culturais brasileiros. Mas infelizmente, as nossas memórias são frágeis e se esvaem pelo tempo, quisera eu, que elas fossem tão fortes como são as pedras que constituem a Fortaleza.


Se a história não fosse tão fácil de ser apagada das nossas memórias, talvez a maior fortificação da América Latina já tivesse o reconhecimento da UNESCO para trazer os turistas do mundo todo para o meio do mundo. E ao conversar com Ronielson, ele disse que, por hora, esse é o sonho do guia turístico que todos os dias demonstra seu amor pela Fortaleza em aulas de história quando algum visitante chega ali para querer saber mais da nossa cultura. O guia se encontra feliz com uma estatística média de 100 visitantes diários no monumento, que atrai aproximadamente 3.000 visitantes por mês durante a baixa temporada.


E apesar daquele reconhecimento pela UNESCO ainda não ter sido concretizado, todos os turistas que chegam aqui querem só uma coisa: conhecer a maior fortificação da América Latina. Com João Vitor Silva, 22, um jovem militar que veio do Rio de Janeiro morar aqui a trabalho não foi diferente, o primeiro monumento que ele conheceu foi a majestosa Fortaleza. “Eu já tinha visto por foto, mas assim, em si, ninguém nunca tinham me falado, não. Só pela internet mesmo” afirma o jovem. Ele já havia pesquisado sobre o monumento antes de chegar em Macapá e certamente achou o patrimônio grandioso.

João Vitor conhecendo a Fortaleza de São José. Foto: Brunna Silva.

João Vitor lamenta o fato de ter ido na Fortaleza e ter saído de lá ainda sem saber a história por trás de todas aquelas pedras que a constituem, já que naquele momento não havia um guia turístico para lhe contar quão bonita é a nossa história, mas eu, uma jovem que adora valorizar seu estado, dei um jeitinho brasileiro de contar o motivo da Fortaleza ser um patrimônio histórico do nosso país, afinal nenhum turista ou um novo morador da cidade, não pode desconhecer a memória de um povo.

E sobre essa falta de guias, Ana Karolina Nunes, macapaense, vê como abandono pelos governantes, ela diz que falta manutenção no monumento e que não tem monitores para ler às novas gerações esse livro que é a Fortaleza de São José de Macapá, “Quando a gente vai lá a grama tá alta, [...] falta manutenção” diz a jovem, e disse ainda: hoje se tu for conversar com uma criança ela não foi na Fortaleza, e não tem guia lá pra ajudar ela a saber mais dessa história, e isso me entristece muito.

Entrada da Fortaleza de São José. Foto: Brunna Silva.

E quem sabe um dos motivos desse abandono ou a carência de manutenção seja a falta de cobrança para entrar no local, talvez pagando uma pequena taxa para entrar no ponto turístico, os moradores deem mais valor na sua cultura e teria sempre um Forte belo para abraçar quem ali entrar. Ronielson, nosso guia turístico, afirma que há um projeto para pagar a entrada para ajudar na manutenção. E Karolina, diz que essa cobrança vai atrair muitos curiosos para a Fortaleza, “As pessoas vão querer saber porque tem que pagar pra entrar lá, saber o que tem demais e vão querer pagar pra entrar” diz a jovem. Na visão dela isso certamente ajudará na manutenção e quem sabe na economia da cidade já que o número de visitantes pode aumentar.

E enquanto isso não ocorre, é dever dos macapaenses fazer sua parte nessa história, e não deixar cair no esquecimento dos frutos que estão por vir o porquê daquele Forte ser a nossa proteção, o qual devemos zelar pois simboliza o mais importante documento material do patrimônio histórico do Amapá e da Amazônia, sendo a conquista da região para o Brasil.


Você conhece a história da fortaleza de São José de Macapá?


A Fortaleza de São José de Macapá é uma das principais edificações militares existentes no Brasil, e é a maior da América Latina. Foi construída em 1764 com o propósito de defender a Amazônia e Macapá de uma possível invasão francesa, já que os franceses haviam ocupado o território da Guiana. A Fortaleza ocupa uma extensa área na margem esquerda da foz do rio Amazonas, na capital do Amapá.

Ela foi arquitetada pelo engenheiro Henrique Gallucio e autorizada pelo então rei Dom José I. sob a supervisão do primeiro-ministro, Marquês de Pombal, com administração da Capitania do Grão-Pará e do Maranhão, visto que o Amapá ainda não era Estado Federado.


Maquete da Fortaleza pensada por Henrique Gallucio. Foto: Brunna Silva.

Após quase duas décadas de muita luta, a Fortaleza surgiu em 1782 no dia do Santo Padroeiro da cidade, 19 de março, com base no trabalho escravo de negros comprados na África pelo governo da capitania e de índios capturados que transportavam as pedras do Rio Pedreira à 32 quilômetros (km) do local para erguer o monumento; e apesar da inauguração, a obra ainda era incompleta e nunca chegou a defender nenhum combate.

Mas ainda assim, nos dezoito anos de duração da obra, centenas de trabalhadores vieram a óbito, entre eles o próprio Gallucio. O engenheiro que desenhou a Fortaleza e que a ela se dedicou por anos morreu de malária.

"Monumento imponente e grandioso"

A riqueza dessa construção percorre desde a história de salvadora da pátria para até então a pequena vila que fora construída nesse período aqui, até a grandiosa arquitetura bem articulada que é o patrimônio hoje em dia. E como a intenção era a proteção do local, a arquitetura foi pensada em um formato quadrado com baluartes que receberam o nome de santos católicos: Nossa Senhora da Conceição; São José (Santo Padroeiro da cidade); São Pedro e Madre de Deus. No interior da Fortaleza, havia uma praça rebaixada com oito prédios, sendo um deles uma capela. Do lado externo, havia o fosso seco que, no projeto original, contornava a praça principal, o revelim.

Baluarte de São Pedro da Fortaleza de São José, o primeiro a ser construído. Foto: Brunna Silva.

E para esse Forte já foram dadas várias destinações, no período colonial ela foi ocupada pelos pelotões portugueses e imperial. Com a chegada da proclamação da República, ela perdeu sua função e foi abandonada por anos, até que em 1946, nela foi instalada a Guarda Territorial do mais novo Território Federal do Brasil: o Amapá. E logo após, em 1950 o local foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico Nacional (Iphan).

Capela e a casa do Comandante, na praça rebaixada do monumento. Foto: Brunna Silva.

Em seguida, nas décadas de 50 e 60, a instalações se transformaram em uma espécie de hospedagem para as famílias que chegavam na cidade. E ainda, chegou a ser uma cadeia pública para os presos que estavam sob a vigilância da Guarda Territorial. Só em 1996 a Fortaleza foi reconhecida como o potencial turístico histórico-cultural que o monumento possui, e hoje em dia, é aberta a quem deseja visitá-la.

E por toda essa bagagem, que é uma história que o Brasil deve contar a todos os brasileiros e que o macapaense tem o dever de se orgulhar, que a Fortaleza é a nossa nobreza e pra sempre será a nossa palmeira onde canta o nosso sabiá.



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