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O Teatro é verbo

Atualizado: 29 de Mai de 2019

A (des)valorização da cultura teatral em Macapá


Por Brunna Silva


“Preparem-se senhoras e senhores que mais um espetáculo vai começar, não esqueçam de colocar o celular no silencioso e de tirar fotos sem o flash. Lembrem-se que rir é de graça e aproveitem o que está por vir!” é mais ou menos assim a abertura de um espetáculo teatral, a emoção toma conta e a ansiedade invade a alma. Mas talvez poucos conheçam toda essa emoção que tentei passar aqui, principalmente em Macapá onde nosso teatro, no geral, não é tão valorizado assim.


Triste realidade, visto que o teatro é tão importante para o conhecimento e aprendizagem das pessoas, uma vez que este é uma reconstrução do próprio “eu” e um olhar para si, onde transcende vários sentimentos e reconhece várias reflexões. Como diz Cláudio Silva, 38, arte educador e gestor de cultura do Teatro das Bacabeiras, “o teatro é plural. O teatro é verbo porque pode-se evoluir, amar, crescer, transcender e progredir”. São vários os sinônimos que sustentam tudo o que o teatro pode fazer com o artista e com o telespectador.

Ensaio- Fotos: Brunna Silva

E ainda assim, com um leque de versatilidade, ainda nos falta valorizar essa cultura que é rica em valores e tem muito a nos oferecer, mas não chega ao nosso alcance, quem sabe por falta de interesse da própria população ou pela falta de investimento nessa arte. Marina Brito, 22, professora de Teatro, formada pela UNIFAP, comenta que a cultura teatral deve ser incentivada desde as escolas, para que as crianças já cresçam entendendo a importância dessa arte, além do Governo e o Ministério da Cultura fomentar o teatro auxiliando a comunidade teatral, “precisa de patrocínio, precisa de formas pro Governo mudar seu pensamento sobre o teatro”, reitera a jovem.


Não é que o fazer teatral não exista na nossa cidade, mas ele precisa ser visualizado e compreendido pelo Poder Público que está em carência no fomento da nossa cultura. Cláudio Silva comenta que o nosso Estado está tentando implantar um sistema estadual de cultura para que as pessoas possam produzir arte com o mínimo de dignidade possível, as quais seriam leis e fundos de incentivo à cultura. “Esses são marcos regulatórios para o fazer cultural, que transcendam gestões e partidos [...] quando o Estado perceber que implantando esse sistema os artistas passam a ter oportunidades iguais, a possibilidade de ascensão coletiva desses grupos de teatro do Estado vai se dar de forma mais efetiva”. afirma o gestor.

Fotos: Amanda Portugal

E enquanto isso não acontece, nós seguimos sem políticas públicas essenciais de fomento a produção teatral, fazendo o nosso teatro mágico com iniciativas privadas, para poder ter o direito de lazer ainda garantido. E por falar de iniciativas privadas, em 2016, aqui em Macapá foi iniciado o Festival de Teatro em Pequenos Formatos, onde Cláudio estava inserido e comentou que esse festival é de experimentos cênicos, onde grupos apresentam propostas cênicas para que uma comissão avalie as potencialidades dos experimentos. O ganhador recebe uma ajuda financeira para transformar seu projeto em espetáculo teatral.


E como reflexo do festival, temos grupos teatrais locais fazendo espetáculos Macapá afora, como o “Se deixar ela canta” da companhia Cangapé, além de “A mulher do fim do mundo” e “Chica Fulô de Mandacarú”. Essas iniciativas privadas são exemplos concretos, de que temos uma comunidade teatral no nosso Estado em potencial, que precisa apenas ser reconhecida por nós enquanto sociedade.


TEATRO AUTÔNOMO


Assistir a um espetáculo teatral, com toda certeza, é bastante emocionante. Muitas luzes de palcos, diversos efeitos sonoros, várias expressões faciais que nos transmitem diversos sentimentos e alguns truques que nos deixam pensativos. Tudo isso é repassado para a plateia de forma singular e com certeza, no final do espetáculo, as palmas são merecidas aos atores que tanto se esforçam para que tudo saia em perfeito estado.


E apesar de todos os percalços já ditos anteriormente, temos grupos teatrais em Macapá que fazem essa arte com muito louvor, que é o caso do Beco Teatral, um grupo de teatro que surgiu em 2016, idealizado por Elielson Araújo e Iury Laudrup. A motivação para criar o grupo foi advinda da ideia de fazer uma peça inspirada na peça de Harry Potter. Elielson Araújo, 23, produtor de peça teatral, relembra esse momento. “Eu já tinha essa vontade de fazer teatro e o lançamento dessa peça foi só o impulso [...] eu falei pro Iury ‘por que a gente não faz uma história inspirada nessa peça do Harry Potter em Macapá?” comenta o jovem.


E foi com muito trabalho, montando roteiro e cenários, que em 2018, nos dias 16 e 17 de agosto, dois anos após a ideia, o Beco teve sua primeira apresentação no Teatro das Bacabeiras, levando magia e bruxaria para o palco. E por falar em magia, o Beco procura fazer teatro para um público mais jovial, tentando sempre despertar os interesses dos seus telespectadores e aguçar os melhores sentimentos neles.

Por esse motivo, é que agora, nos dias 23 e 24 maio, o grupo fará sua segunda apresentação teatral em menos de um ano, com o tema “Percy Jackson e os Olimpianos”, onde irão contar a história dessa saga do jeitinho deles, para atrair ainda mais público para o projeto. A ideia de fazer essa peça surgiu do ócio que ficaria após o projeto do Harry Potter acabar, o que eles não queriam que acontecesse, era necessário deixar o projeto do Beco Teatral vivo. Elielson diz o público da saga do Percy é muito forte, então fazer algo baseado neles seria um bom atrativo, além do que as histórias das duas sagas têm viés parecidos. “As histórias são parecidas, então pensamos em trazer esse livro que muita gente gosta pros palcos de uma forma fiel e adaptada”, afirma o produtor da peça.


Ensaio Percy Jackson - vídeo: Brunna Silva


Tive o prazer de presenciar um ensaio do grupo, e tudo que eu vi foi quão encantador o teatro é e como nos faz aguçar a imaginação, além de ter sentimentos únicos. E de outro ângulo, consegui sentir quão família é esse grupo, todos acolhedores, bem-humorados e preocupados uns com os outros para que estejam bem no grande dia e para que tudo seja muito bem executado. Daniela Aires, 23, atriz do Beco Teatral e acadêmica do curso de Teatro da UNIFAP, diz que se sente muito grata por participar do Beco. “Esse ano eu entrei pra cursar teatro na UNIFAP e isso veio acrescentar na minha vida, eu escolhi Teatro através do Beco”, comenta a atriz, trazendo a certeza que o teatro é sim muito importante para a formação da sociedade.

O teatro pode ser crescer, amar, evoluir, progredir

Mas para os integrantes do grupo de maneira geral, fazer teatro é além de tudo uma causa social. Desde o começo do projeto eles ajudam instituições carentes doando alimentos, afinal, na compra de um ingresso para assistir um espetáculo deles, também é preciso doar alimentos não perecíveis para ajudar essas instituições.


O Beco tem um projeto que chama bastante atenção do público, mas que assim como todos os outros artistas precisa de visibilidade, porque falta recurso para eles terem um retorno da sociedade. “A nossa maior dificuldade inicialmente foi o recurso, e depois é fazer as pessoas irem assistir e acreditar no projeto”, afirma Elielson que ainda acrescenta dizendo que eles têm tido uma resposta muito boa.


Imagem divulgação

Por hora, o que nos resta é continuar lutando pela valorização de todos esses artistas e dessa cultura teatral que é rica e necessita de visibilidade, e como eles costumam dizer em sinal de boa sorte: merda! Muita “merda” para que logo mais, todos que vivem de teatro ou que pretendem viver tenham dignidade nessa caminhada árdua no nosso Estado.

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