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O motocross mostra sua potência

Atualizado: 30 de Mai de 2019

O ícone dos esportes radicais e incrivelmente popular, mesmo nos lugares mais remotos, o esporte se desenvolveu ao longo dos anos na base da poeira, barulho, adrenalina e paixão.


Por Leandro Bezerra e José Eduardo Lima


O motocross brasileiro não é um esporte elitista, apesar dos altos custos envolvidos para ingresso de novos participantes, no aperfeiçoamento de pilotos e na participação regular em competições. O que podemos observar, é que ele evolui muito nos interiores do Brasil. De todas as cidades sedes já definidas para o campeonato brasileiro de 2019 a maior, Alfenas - MG, possui uma população de aproximadamente de 80 mil habitantes.


Um dos competidores de Motocross em Porto Grande /Foto: José Eduardo Lima

A última competição realizada no Amapá ocorreu no Clube Tambaqui que fica nas proximidades do município de Porto Grande em 9 de fevereiro. O evento contou com competidores de todo o Brasil e foi bastante disputado. Centenas de pessoas contemplaram as incríveis vitórias dos corredores das mais diversas categorias.

Michael Jordan em competição de Motocross em Porto Grande /Foto: José Eduardo Lima

Com nome de ídolo, o santanense Michael Jordan, campeão da categoria iniciante da competição, já foi campeão em outros sete campeonatos ao longo de sua trajetória. Jordan se diz um apaixonado pelo esporte: “tenho diversas tatuagens homenageando o motocross, tem até a logo da Fox, empresa de off-road”.


A relação entre os amapaenses e o motociclismo


De acordo com dados do Denatran, em 2018, dos 195 mil veículos do Amapá, cerca de 39% eram motos, uma para cada dez amapaenses. Obviamente, nem todos possuem tanta simpatia assim com o motocross ou outras competições semelhantes.


Paulo Simonetti, membro do Abutres, um dos maiores grupos voltados ao motociclismo no mundo, detalha a diferença entre motociclistas e motoclubistas: “tem muita gente que tem uma moto por meio de transporte, por não ter opção de ter um carro e tem uma moto, que é uma opção mais barata. O motociclista ou motoclubista, não, ele tem paixão pelas duas rodas, a sensação de liberdade e o prazer de pilotar uma moto”.


O baixo custo para ter uma moto, comparado a um carro, impulsiona a cultura do motociclismo, porém não é suficiente para influenciar a popularização da modalidade esportiva no Estado. Outros entraves, como o alto custo de equipamentos profissionais, manutenção, treinamento e estruturação de pistas e campeonatos são desafios maiores.

Carnatrilha 2019 /Foto: José Eduardo Lima

No entanto, aos poucos, a paixão pelo esporte floresce dentro de eventos voltados à reunião de grupos em prol do off-road, como o Carnatrilha. O movimento que começou há seis anos é uma celebração realizada na época do carnaval em que as pessoas se fantasiam, escutam faixas carnavalescas em caixas de som, comem, bebem e fazem uma trilha extremamente irregular nas proximidades do Curiaú. Além dos grupos de motocross, fazem parte do evento: os motociclistas do asfalto, caso do grupo Abutres, e inclui até o Jeep Clube de Macapá.


O grupo de motocross Coyotes, por exemplo, começou como uma comunidade capaz de reunir aqueles que eram iniciantes no esporte, sem preconceitos, e com os mais experientes sempre dispostos a receber novos integrantes. Idealizado por Carlos Aguiar, no Amapá, o grupo já conta com mais de 47 mil membros no Facebook e mais de 100 pessoas correm pelos Coyotes no Estado. Se tornou sucesso nacional.


Carlos Aguiar relaciona a discriminação sofrida por iniciantes no esporte, ao criar seu grupo, com os calouros de uma faculdade: “aí eu fiquei mordido com isso e fiz um grupo de calouros de trilha”.


Os números do grupo, por si só, mostram a força interna que emana do motocross, por mais que não seja o carro-chefe dos esportes do Amapá. O que o Coyotes propõe é algo nato do esporte como elemento socializador e isso contribui para alavancar a popularização da modalidade em nível estadual e nacional.


Uma família do motocross


O motocross também protagoniza uma história familiar muito curiosa. Sammy Araújo, seu esposo e sua filha, de apenas um ano, são fãs do esporte e participam do grupo Amigos do Motocross. Os pais da pequena Sylvia sempre vão aos mais diversos eventos do Amapá. Sammy é uma piloto que compete ativamente. A história dessa família mostra o quão a modalidade tem evoluído quanto a participação feminina nas competições. No dia das fotos, ela foi logo avisando: “essa moto aí é minha, ele está correndo com ela emprestada por hoje, só porque eu estou machucada”.


Um breve histórico sobre o Motocross

Competidor mostra habilidade em Porto Grande/ Foto: José Eduardo Lima


O desenvolvimento dos motores e a popularização das motos possibilitou o nascimento do motociclismo de competição. A primeira prova reconhecida ocorreu em 29 de novembro de 1897 no condado de Surrey, Inglaterra. A prova era chamada de Motorcycle Scrambles, algo quase sempre traduzido para “subidas de motocicleta”. A nova modalidade passou a crescer em popularidade e, com o tempo, o nome oficial do esporte se tornou motocross, derivado do francês "motocyclette" e das palavras combinadas "cross country".


Neste período, o motocross ganhava popularidade na Grã-Bretanha e em outros países da Europa. Porém somente no período pós-segunda guerra as corridas locais inglesas passariam a ser realizadas em âmbito nacional e internacional. Nos EUA, devido a crise econômica de 1929, a adesão a nova modalidade foi adiada.

Corredores buscam as primeiras posições em Porto Grande /Foto José Eduardo Lima





O “boom” do estilo europeu de motocross foi então levado e popularizado nos EUA a partir dos anos 1960 pelo norte-americano, natural de Iowa e vendedor de motos, Edison Dye. Na sua biografia, ele afirmou que pretendia melhorar suas vendas e para isso, sua estratégia seria colocar pilotos demonstrando as motos: “pensei em como poderia melhorar minhas vendas. Eu tinha visto motocross na Europa. No segundo ano, trouxe Lars Larsson da Suécia.”


Em 1999, Dye receberia o prêmio Motocross Life Achievement Award por seus esforços durante um período de dez anos, quando o motocross chegou ao país.


No Brasil, os motociclistas já ensaiavam algumas competições desde 1914 e, por volta dos anos 40 e 50, começou a se organizar. A Confederação Brasileira de Motociclismo foi criada nesse período, em março de 1948. Entretanto, a primeira prova de Motocross considerada oficial só viria a ocorrer em fevereiro de 1972 em Itanhaém, SP. A despeito de todas dificuldades, o esporte evoluiu no Brasil. Atualmente as competições ocorrem regularmente e são um sucesso de público.




Como o motocross funciona


As competições de Motocross dividem seus participantes em classes ou categorias, baseadas principalmente nos tipos de motores e cilindradas. A faixa etária dos pilotos também é importante para indicar a classe em que o piloto se encaixa. Em diversas categorias, as disputas incluem homens e mulheres competindo lado a lado. No campeonato brasileiro que se inicia em 14 de abril em Alfenas-MG, a distribuição das classes é a seguinte:


As provas de motocross são disputadas em uma pista off-road (fora de estrada) de aproximadamente 1,5 km, geralmente em terreno molhado. As pistas também incluem curvas e obstáculos suficientes para aumentar a competitividade e dificuldade das provas que, no geral, têm entre 10 e 20 minutos. Em competições oficiais, como o Campeonato Brasileiro, os tempos de corrida são de 1 ou 2 baterias de 30 ou 15 minutos, conforme a categoria, acrescidos de duas voltas finais.


Maiara Basso: Do Areião para o mundo

Maiara Basso

Naturalmente, o motocross também possui seus ídolos e uma em especial, Maiara Basso, natural de Marau-RS, 22 anos, é líder do ranking feminino nacional. A Gringa, como é conhecida, é uma referência nacional em esportes envolvendo motos e fez história em 2018 porque além de disputar três competições nacionais em três modalidades diferentes (Motocross, Enduro e Velocross), ganhou todas elas; foi a primeira mulher a alcançar tal feito.


A Gringa é dona de uma firmeza e de um autoconhecimento invejável de suas potencialidades, desde muito cedo, se dedica a um esporte de alto risco, com profissionalismo. Em diversos momentos nesta entrevista, algumas palavras tiveram ênfase: expectativa, foco e vitória. A atleta, muito atenciosa, concedeu entrevista ao Tajá via telefone e contou um pouco da sua carreira, rotina e do que espera para o motocross nacional.


- Como começou no Motocross? E como foi a trajetória até ser profissional no esporte?


Comecei no esporte em 2004 com meus dois irmãos mais velhos: o Lucas e o Mateus. Eles sempre iam assistir corridas no Areião aqui no sul. Meu irmão mais velho pediu uma moto para meu pai quando tinha quatorze anos e começou a andar. Passados dois meses, o meu irmão do meio também pediu uma moto. Eu, como sempre fazia tudo que meus irmãos faziam, então disse: Vou experimentar esse negócio aí, vai que dá certo! E aí comecei a andar por brincadeira, andava devagar sempre, por diversão, aí comecei a ir para as corridas. Isso foi em 2004, tinha 8 anos. Em 2008, já disputava o campeonato gaúcho de motocross e constantemente ficava em sexto ou sétimo, sempre ia mal nas corridas. Quando então, fiz uma corrida muito boa na 2ª etapa do gaúcho. Liderei a prova até os minutos finais, faltavam duas curvas para finalizar, acabei caindo e ficando na quarta colocação, mas foi nesse momento que percebi ter potencial para alcançar meus objetivos e podia conseguir vencer o gaúcho de motocross. Daí, passei a treinar muito e, em 2010, consegui meu primeiro título no Gaúcho, queria muito ganhar. De 2010 em diante ganhei em todos os anos o estadual e acredito que foi nesse intante que me tornei profissional. Em 2013 consegui entrar em uma equipe, na Rinaldi, a qual ainda estou até hoje sempre levando tudo muito à sério, com muita dedicação e com muito foco nos meus objetivos.


- A última temporada foi de vitórias importantes no cenário nacional. Para você, qual foi a mais difícil e a mais importante?

Arquivo Pessoal de Maiara Basso - Participação em prova pelo campeonato Brasileiro de Velocross

2018 foi um ano muito desafiador para mim, participei de três campeonatos nacionais em três modalidades diferentes: o Motocross, o Enduro e o Velocross. Foi um ano em que tive que treinar muito, me dedicar bastante e estar muito focada nos meus objetivos. Estava ciente que deveria dar o máximo de mim para que desse tudo certo, para obter bons resultados e conseguir levar estes títulos. Foi um ano que com certeza vai ficar marcado na minha vida.


Para mim, o título mais difícil foi o Enduro porque foi o meu primeiro ano na modalidade. Eu havia feito duas trilhas na minha vida. Então tive que treinar bastante, ir para o meio do mato pegar todas as técnicas. O Enduro é bem diferente do Motocross e do Velocross. A forma da corrida é outra; então para mim, foi o mais desafiador. O ano foi de muita experiência e era legal porque coincidia de em um fim de semana ter brasileiro de Enduro, no outro brasileiro de Motocross e no outro ainda o brasileiro de Velocross. Em três finais de semana, tendo corrida direto, tinha que dar tudo certo. Foi muito legal e dizer o título mais importante, não dá para dizer. Acho que os três foram bem importantes, os três têm peso grande.


- Quais são os maiores entraves para o Motocross brasileiro evoluir ainda mais?


 Os entraves são relacionados a falta de investimento. As equipes devem valorizar mais os pilotos profissionais porque o custo para ser um profissional e o tempo exigido para um piloto se preparar é muito grande. O incentivo também deve vir dos organizadores, com condições melhores de premiações e assim diminuir os custos para que o esporte evolua.


- Como você enxerga o motocross feminino na atualidade?


O motocross feminino vem crescendo muito, mas não somente ele, o esporte feminino como um todo. No Velocross está muito forte, as meninas vêm andando bastante, de cinco anos para cá, aumentou muito o número de mulheres participando. Isso é muito legal, vejo que falta apenas as mulheres irem mais para os campeonatos porque têm muitas mulheres que só andam de moto, treinam, mas não vão competir às vezes, até por medo de participar, por exemplo, de um campeonato estadual ou nacional. Acho que elas precisam se desafiar um pouco mais, pois não precisa ter esse medo. Claro que no início é sempre muito difícil, mas a experiência é boa e é um esporte em que a participação feminina está crescendo muito e tenho muita fé que vai crescer ainda mais.


- Você já sofreu algum preconceito por ser mulher no meio do Motocross?


Têm alguns pilotos que, em alguns momentos, faltam com respeito, mas isso a gente tem que saber dar a volta por cima, não ligar, porque nós mulheres temos um potencial enorme para acelerar a moto, tal qual qualquer homem acelera. Um fato muito engraçado, ocorreu em 2011, quando fui correr em Goiás. Na época não tinha muitas mulheres no Motocross, larguei na categoria MX3 junto com os homens e estava na 5ª colocação, indo ultrapassar o 4º e a partir daí o mecânico mostrou uma placa para o piloto da frente: "mulher atrás, acelera". Então, querendo ou não, os homens não querem perder para mulher, essa é uma questão óbvia, mas no mundo de hoje, as mulheres fazem o que os homens fazem da mesma forma, com o mesmo potencial, então não dá para aceitar isso, é uma coisa que temos que ir mudando.

Arquivo Pessoal de Maiara Basso - Detalhe da atleta em competição de motocross

- Qual é a expectativa para a temporada 2019?


Em 2019, vou participar apenas do campeonato brasileiro de Motocross, conversei com meus patrocinadores (a Rinaldi, a KTM Sacramento e a ProTork). Vou fazer também o estadual gaúcho de Motocross e de Velocross e quem sabe, participar do Latino-americano de Motocross em que já tive a oportunidade de correr uma vez. Serão estes campeonatos os quais vou fazer. A expectativa é muito boa, estou ansiosa para o início do brasileiro, dia 14 de abril. Já venho treinando bastante e a expectativa é vencer, o foco principal é ganhar sempre.


- Quais são os próximos objetivos na carreira?


Meus objetivos na minha carreira são o de continuar evoluindo como piloto, sempre adquirindo mais técnica, sendo cada vez mais rápida e esse é o objetivo principal. Pretendo participar de um campeonato mundial de Motocross, é um grande sonho que tenho. É muito caro participar de uma etapa porque é em outro país, então são vários custos, mas tem que sonhar alto para a gente conseguir realizar. Sem dúvidas, esse é um sonho que tenho no esporte.


Competições realizadas no Amapá / Vídeo: José Eduardo Lima



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