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O Marabaixo brilha! Como os ladrões de marabaixo revelam a memória de gerações amapaenses

Atualizado: 17 de Jul de 2019

Por Beatriz Belo


Entre batuques, ladrões, saias rodadas, gengibirra e caldo pra esquentar o corpo, o Ciclo do Marabaixo acontece desde o sábado da Aleluia seguindo até o domingo do Senhor, 23 de junho. Num dos barracões mais antigos da cidade, nomeado como Dica Congó, o ciclo homenageia a Santíssima Trindade dos Inocentes, e as marabaixeiras se reúnem para dançar ao som dos batuques e letras cantadas na hora. Com vestidos azul e branco e flores no cabelo, elas mostram que estão preparadas para mais um dia de muita dança e cantoria.


Elisia Congó (55) é uma das principais organizadoras do grupo Raízes da Favela, que surgiu originalmente no barracão que leva o nome de sua mãe. O sobrenome ou apelido vem do passado do seu avô, velho Congó. "Os bisavós dele vieram da República do Congo por isso esse nome, esse apelido Congó" ela conta. Sendo hoje da quinta geração de sua família no Marabaixo, Elisia conta de onde veio a tradição: "foi trazida pelos bisavós do meu avô que vieram pra cá nas condições de escravo da República do Congo, depois veio o pai do meu avô e depois o meu avô, então é uma tradição secular dentro da família Congó e a gente continua", ela declara.


Domingo do Mastro, uma das festividades do ciclo. Foto: Beatriz Belo


O marabaixo é memória. É uma tradição passada de geração em geração, sendo uma expressão popular, familiar e tradicional no Estado. Segundo a história, a manifestação foi trazida pelos negros que chegaram ao Estado do Amapá no século XVIII. Para o antropólogo Luciano Araújo (45), o marabaixo se caracteriza como “uma manifestação e um meio de identidade cultural de um coletivo, de um grupo que caracteriza uma forma de ser bem amapaense e que se distingue das práticas de outras identidades culturais do Brasil afora”. Luciano é natural de Natal - RN, mas vê no Amapá grande riqueza cultural, principalmente com o Marabaixo. Acredita que a manifestação traz elementos identitários. A gengibirra, as danças, a vestimenta, “tudo isso compõe de uma forma ou de outra a natureza de uma tradição que gera identificações então tipicamente vinculadas a um lugar, a um espaço, a uma territorialidade.”, ele afirma.


Sobre o processo de identificação, Maria Paula (20), amapaense e acadêmica de Artes Visuais, vive a experiência na pele. Amante da cultura regional, ela sempre esteve em contato com a dança. Mas foi há poucos meses que efetivamente entrou para um grupo de marabaixo, o Raízes da Favela. Trocou os vestidos e saias que geralmente usava pela vestimenta azul e branca padrão do grupo, que ajuda a rodar melhor. Comprou uma flor azul para o cabelo e foi. No começo ocorreu um estranhamento, das duas partes. Maria não se sentiu tão acolhida, talvez, “pelo meu jeito de me vestir pelo pelo corte do cabelo por usar tatuagem e por eu não ser negra de pele retinta”, ela afirma. Mas ao mesmo tempo vê essa vivência de forma “antropológica”, como ela mesma diz, entendendo que é um pouco diferente das mulheres e dos homens que participam do ciclo, mas vendo o marabaixo como resistência. E apesar do pouco tempo como Marabaixeira, já surgiram identificações “como uma mulher nortista, identificação como mulher descendente de negros e identificação de mulher descendente de indígenas”, ela diz.


Marabaixeira do grupo Raízes da Favela. As cores azul e branco são tradicionais do grupo. Foto: Beatriz Belo

Numa casa no bairro Jardim Felicidade, mora uma senhora que faz jus ao nome do bairro. Benedita Ramos (68) relembra com carinho das histórias e vivências junto à sua mãe também marabaixeira, que faleceu há 4 anos mas deixou um legado do qual ela tanto se orgulha. “Mamãe me deixou rica em termos de cultura”, ela afirma, com os olhos brilhando. Benedita reconta uma história que a mãe, Francisca Ramos, lhe contou sobre o surgimento do marabaixo, que diz que a manifestação começou com a vinda de um negro refugiado da África que andou de “mar abaixo, mar acima” procurando um lugar pra morar e encontrou o Curiaú. E ainda acrescenta que o nome realmente não é Curiaú e sim Criaú, o lugar que ele achou para criação de gado. O nome desse negro era Inácio da Bacaba, “foi o homem que trouxe o marabaixo pro Amapá”, ela afirma. A história diz que ele veio de Mazagão, cidade próxima à Macapá, e passou a morar sozinho no Curiaú, com 4 cachorros. Quando a tarde chegava ele amarrava os cachorros na cintura e tocava marabaixo a noite toda, chamando atenção da população. “Daí começou a história do marabaixo, o povo do Curiaú vinha tocar marabaixo no laguinho e se espalhou”, diz dona Benedita. Ela não escreve ladrões, mas acompanhava sua mãe nas cantorias.


Explica que os ladrões contavam sobre o cotidiano do povo e têm esse nome porque significa “roubar” uma história, retratar o que está acontecendo no momento e transformar em música. Portanto, ladrão é como são chamadas as músicas do marabaixo. Elísia Congó, além da organização dos ciclos e festividades, gosta também de compor. Segundo ela, as letras compostas pelo Raízes da Favela são em sua maioria registradas, todas de domínio popular, podendo ser encontradas no IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Acrescenta que os ladrões são “o seu dia a dia, um acontecimento, uma vivência, por isso que também se chama de lamento”. Maria Paula vê os ladrões como uma “coisa incrível”. Mas não concorda com algumas letras. Segundo ela, já ouviu alguns que falam sobre violência contra a mulher, por exemplo. "São músicas que quando começam a tocar eu paro de dançar na hora, porque não sou de acordo”, ela diz. Por retratarem a realidade de muito tempo atrás, em alguns ladrões é comum perceber certas práticas que não são tão comuns no tempo presente.

“Escreve minha filha, que isso vai servir pra vocês. O dia que eu for embora vocês vão ter tudo que eu ensinei”

Dona Benedita relembra as palavras de sua mãe. Quando escrevia as letras, Benedita não sentia que sua mãe ia partir tão cedo. Dona Francisca estava doente e no leito pediu um papel e uma caneta para Benedita escrever um ladrão para ela cantar na festa de Santo Expedito. A música, “Ê Ê Senhor”, não foi cantada, Francisca partiu antes, mas deixou registrada para os filhos e hoje, junto com os irmãos, Benedita repassa tudo o que aprendeu para outras gerações. Para a Antropologia, conta Luciano, as músicas, a questão da letra, do poema musical, são referências muito importantes para que os indivíduos se identifiquem e perpetuem isso como forma de ensinamento e tradição para gerações futuras, mostrando sobre o que se fazia e muitas vezes sobre o que se deixou de fazer. “É uma questão memorialística”, ele acrescenta e reforça que é de máxima importância ter atenção sobre essas produções culturais.


Novas gerações assistindo à festividade. Foto: Beatriz Belo

A Secretaria Extraordinária de Políticas para os Povos Afrodescendentes (Seafro), atua em políticas públicas não só para o marabaixo em específico, mas com as demandas do movimento negro em geral.

Valdinete Costa tem 48 anos e trabalha há 5 na secretaria como assessora técnica. “A gente vêm com essa força e responsabilidade de fazer políticas públicas para melhor qualidade de vida, melhor memória e história”, destaca. Com o marabaixo, a secretaria norteia e articula politicamente o segmento. Em relação aos ladrões, Valdinete conta que não há nada catalogado por lá mas já há um projeto formulado dentro da secretaria para a produção de uma cartilha com os ladrões de marabaixo. O projeto ainda precisa de algumas articulações para sair do papel mas a Seafro continua atuando sob a cultura viva, com os detentores do saber do Marabaixo. Fora da secretaria, há outro projeto de cartilhas de ladrões feito pelo “Seu Nonato”, Valdinete conta.


Produzida no bairro do Laguinho de forma independente, a cartilha conta com os clássicos dos ladrões e a secretaria vem como um auxílio para inserir esse trabalho dentro da própria sociedade, buscando parcerias para auxiliá-lo numa melhor produção. A Secretaria também fomenta a memória e preservação do marabaixo. Valdinete conta que “a política é traçada independente de festividades, ela articula os meios por dentro do Estado para que a gente possa receber esse auxílio, não só financeiro como de pessoal”. Em todas as atividades do marabaixo, mesmo as de fora do ciclo, os técnicos estão presentes para fotografar, filmar e registrar a cultura. Esse material é acervo da Secretaria mas é popular.


Hoje a Seafro conta com a parceira do IPHAN na difusão e perpetuação dessa memória. Mesmo com vários avanços, Valdinete ainda encontra várias barreiras. "Ainda sofremos com racismo estrutural, ainda recebemos muito não", afirma. O preconceito é grande e os técnicos sentem na pele na hora de solicitar auxílios e parcerias.


“Dizem que o movimento negro é desorganizado mas não é verdade, o movimento é discriminado. Precisamos falar alto para nos ouvirem”, diz.


A secretaria se torna uma resistência mas faz sua parte na memória do movimento, para que as próximas gerações conheçam de onde vieram.


Os homens “tiram” os ladrões na hora para as mulheres dançarem. Foto: Beatriz Belo.

A ideia de preservação da cultura, segundo Luciano, é “interessante e ao mesmo tempo muito complicada porque ela demanda que haja preocupação sobre as gerações mais antigas que vão desaparecendo, que vão morrendo, que vão deixando de ser membros ativos de um tempo presente”, diz. Preservar pode levar a entender que é para manter sem modificar. Mas a cultura é um processo dinâmico, o marabaixo foi tombado como patrimônio histórico cultural, por exemplo, na tentativa de preservar mantendo a natureza da manifestação cultural. Francisco Oliveira (88), mais conhecido como Seu Chico, relembra dos batuques e o marabaixo de Santa Maria, no Curiaú.


Sentado em frente à sua casa com vizinhos, como de costume, ele conta, com saudades, que as festas no mês de maio eram animadas. “A gente brincava bem, tinha música, o chapéu era todo enfeitado, as calças eram fortes pra brincar no mato”, diz seu Chico. Os ladrões eram feitos na hora pelos homens. “Não sabiam ler, mas pra tirar uma cantiga de marabaixo era com eles”, ele brinca. Mais tradicional, seu Chico não aprova muito o “novo marabaixo”. Para ele, hoje “os velhos se acabaram, só está os novos, não sabem de nada”.


Os grupos de marabaixo ainda são muito tradicionais, Maria conta. Como já dito anteriormente, ela sentiu estranhamento por ter um estilo diferente, por ser de uma nova geração. “O marabaixo que se fazia há 50 anos ou talvez algumas boas décadas atrás não é o mesmo de hoje”, afirma Luciano. Em uma pesquisa que fez, entrevistou algumas pessoas no Curiaú e percebeu esse choque das gerações anteriores.


Seu Chico conta que antes se usava 2 caixas para batuque, hoje são quatro e “faz muito barulho”, ele diz. Luciano percebeu nos depoimentos que os mais velhos sentem hoje um marabaixo mais rápido, com tambores mais fortes e a danças e cantorias mais rápidas, diferente do que vivenciavam antes. Por isso estranham, não gostam ou dizem que o marabaixo se perdeu. Para o antropólogo, há sempre um movimento de influências sobre as práticas culturais, sobre os entendimentos e imaterialidades que aos pouquinhos se modificam. Não é que as práticas estejam imunes à mudança, mas pode-se tentar aos poucos preservar sem que essas referências se percam ou morram no tempo.


É um processo dinâmico de gerações mais antigas com gerações mais novas e os ciclos de marabaixo são um exemplo desse processo, é o encontro das gerações. “As gerações mais antigas ensinam e as mais novas levam adiante”, acrescenta. Para manter a memória viva há artifícios de registro como fotografias e audiovisual para construção de acervos de memória. Valdinete diz que a Seafro, há pouco tempo, produziu um vídeo com relato das vivências dos marabaixeiros e moradores do Laguinho e Curiaú, como ela chama: “os detentores do saber do marabaixo”.

A secretaria e o IPHAN fazem esse trabalho de conservação diário. Elísia pensa na preservação do marabaixo como algo imprescindível porque cresceu nesse meio e essa cultura vem de várias gerações de sua família. E no Raízes da Favela, através das festividades, faz o contato da cultura com o público, convidando a todos para prestigiar e dançar junto. Desse contato nasce uma ligação e a criação de memória, afeto e entendimento. Conhecer o marabaixo é uma forma de preservar e os ciclos vêm como um agente para que isso aconteça. E, para ela, é um grande orgulho ser Marabaixeira. “É como se eu tivesse encarnada na minha mãe”, afirma.

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