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O futebol de rua é cultura, esporte e história

Atualizado: 17 de Jul de 2019

O jogo mais acessível do planeta não dispensa números e nem participantes.


Por José Vasconcelos


CONTEXTO HISTÓRICO


O futebol é o esporte mais praticado no mundo; de acordo com o site UOL, aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas são fãs da modalidade no planeta. Mas o que faz tantas pessoas se sentirem encantadas com algo aparentemente tão simples? Seria a plasticidade de um drible, a emoção do grito de gol, aquele desarme preciso ou o salto de um goleiro?


A bola já excedeu o limite das quatro linhas há um bom tempo. Hoje temos o futebol em celulares, computadores e consoles; sites de apostas; nas mesas de botão etc. Mas como chegou a esse ponto? Como a modalidade surgiu de fato?

Futebol de rua. Foto: José Vasconcelos

O futebol que surgiu na Inglaterra não demorou muito para atravessar os sete mares e se configurar nesse gigante fenômeno mundial. Em 1930, foi realizada a primeira Copa do Mundo, no Uruguai, e teve o país sede como campeão.


O esporte em questão não requer uma gama de equipamentos tão vasta para a sua prática e isso é o grande expoente para muitos praticarem. Basta uma lata de refrigerante amassada, um par de sandálias para a demarcação do gol e um grupo mínimo de pessoas para que a partida seja viabilizada.


Outro exemplo muito comum, especialmente observável nas estreitas vielas das periferias, é o futebol de rua. Como no livro húngaro mais famoso do mundo, “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár, que retrata jovens jogando uma ‘pelada’ em pleno século XIX na capital Budapeste.


Outro ‘Ferenc’ bastante conhecido na Hungria e no mundo é o ex-futebolista Ferenc Puskás. O país teve seus dias de glória no esporte bretão quando era estrelado pelo atleta, mas entrou em decadência por lá, após a trágica Copa de 1954. O prêmio de gol mais bonito do ano carrega, em homenagem, o nome do húngaro.


Quantas ‘peladas’ Puskás não jogou nas ruas de Budapeste? Esse é o primeiro passo de praticamente todo futebolista, seja ele mundialmente conhecido, ou não. Nas ruas brasileiras, é possível ver diariamente jogadas geniais de meninos humildes, lances que normalmente se esperariam de Neymar ou Ronaldinho Gaúcho.


Infelizmente, nem todos acabam tendo o mesmo sucesso profissional de Puskás, ou nem chegam a atuar profissionalmente. Muitos jovens brasileiros têm o futebol como uma válvula de escape à pobreza extrema.


O CAMPO DA FONTE NOVA


No Amapá, há diversos campos de várzea que dificilmente estão vazios. Um desses é o do bairro Fonte Nova, em Santana. Localizado na Avenida Santana, o campinho, que já existe há mais de 20 anos, é palco de inúmeros golaços, outros nem tão bonitos, de lances memoráveis para os peladeiros e de amizades para a vida toda.


Jamilson Gouveia joga no local há oito anos. O jovem tem 21 anos de idade e sempre morou no bairro. Ele afirma que as amizades que fez no futebol são as melhores de sua vida: “as amizades no mundo do futebol são as melhores, cara”. Ele também diz que as suas melhores recordações do local são as dos dias de sábado. Por volta das 16h, homens de todas as idades se reúnem para jogar um campeonato. Cada equipe dá uma quantia em dinheiro para a participação e os campeões levam toda a ‘bolada’.

“Na chuva, no sol, no que tiver; se tiver caindo meteoro a gente vai tá todo sábado” (Jamilson Gouveia)

Outro frequentador assíduo do local é Johnny Júnior. Ele joga futebol no campinho há cinco anos e chegou a atuar nas categorias de base do Santos-AP. Foi um dos destaques da equipe no Campeonato Amapaense sub-20 de 2018.


‘Juninho’, como é conhecido, define a sua experiência de forma bastante proveitosa: “proporcionou maturidade, amizades e valorizar as coisas, pois é um lugar que você conhece todos os tipos de gente”.

Meninos jogando no campo de várzea. Foto: José Vasconcelos

Claudivaldo Uchôa é outro personagem importante para o futebol de rua no bairro da Fonte Nova. Conhecido como “Dick”, é ex-jogador de futebol e foi campeão amapaense nos anos de 1995 e 1998, pelos clubes Independente e Aliança, respectivamente.


Dick jogara nas ruas quando criança, antes de ser observado é convidado para integrar a equipe mirim do Vitória Régia. Para ele, o futebol de rua foi fundamental para a sua profissionalização na modalidade: “ali as pessoas passavam e viam quem tinha mais habilidade e me convidaram para jogar na escolinha do Centro Social Urbano Vitória Régia”.


O ex-futebolista também fez uma grande contribuição para o futebol na Fonte Nova. Ele cedeu traves de ferro para que melhorasse a fluidez das partidas: “de vez em quando a trave caía, que era mal feita, de madeira. Aí eles vieram pedir e eu cedi para eles, as traves”. O equipamento já está lá há 15 anos, de acordo com Claudivaldo.


Outro ponto que ele levanta, é com relação à criminalidade e ao envolvimento com drogas ilícitas. Para ele o futebol é algo que evita esse comportamento: “com a experiência de jogar futebol, eles estão ajudando aquelas crianças a tomar o tempo dela ali... porque criança tem que tá fazendo alguma coisa, para que não venham a fazer coisas erradas”.


Dick é formado em educação física e já deu aula em escolinhas. No entanto, hoje dedica suas forças à avicultura e ao emprego na segurança portuária de Santana.

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