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O adoecimento nas escolas em Macapá

Da estrutura física dos prédios ao método de ensino, nada funciona como deveria.

Por Rudja Santos


São 7h20 da manhã em Macapá quando o sinal da escolinha toca, e como que ensaiado, as crianças seguem em fila indiana para suas salas de aula, seguidos pelas suas respectivas professoras. São crianças entre 4 e 6 anos que cursam o ensino infantil da rede municipal. O que chama a atenção nessa cena, não é o fato de as crianças estarem enérgicas tão cedo, mas sim o semblante das professoras. O contraste é gritante. De um lado temos alunos cheios de energia, prontos para 4 horas de brincadeiras, estudos e muita bagunça, e do outro temos professoras exaustas, desanimadas e visivelmente desmotivadas. A impressão que passam é de que a qualquer momento irão desfalecer ou surtar. E isso de fato acontece em alguns casos. Uma pesquisa online realizada pela Associação Nova Escola com mais de cinco mil educadores em 2018, identificou que 66% dos professores já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde. O estudo também aponta que 87% acreditam que o seu problema é ocasionado ou intensificado pelo trabalho.

O que no Brasil, não surpreende, já que a árdua jornada dos professores é velha conhecida da população. Em Macapá, raramente são oferecidas condições adequadas de trabalho para o desempenho da profissão. Escola sucateadas e problema sociais fazem com que os professores precisem de muito jogo de cintura para conseguir fazer o seu trabalho com qualidade e garantir que o aluno saia da sala de aula com algum ensinamento.

Segundo professora do ensino especial do município, a estrutura das escolas é bem precária, algumas muito antigas sofrem com a ação do tempo e as mais novas parece que são feitas com materiais de baixa qualidade e se deterioram mais rápido. Uma das maiores reclamação dos professores é a falta de estrutura das escolas, que passam anos sem receber reforma ou equipamentos novos. Algumas escolas ainda funcionam com ventiladores ou até mesmo sem nenhum tipo de ventilação.

No muro da escola a rachadura é antiga e ameaça a integridade de quem passa por ali. Foto: Rudja Santos

Falta de espaço, falta de cadeiras e mesas, falta de merenda escolar, depredação do prédio, falta de investimento em projetos educacionais, são alguns dos problemas que segundo outra professora, de uma escola municipal do centro da cidade, são consequências de problemas de gestão e estrutura. “Muitas vezes os gestores são cargos e pouco se importam com a instituição. Tem muito roubo: tanto da parte de quem administra como de quem trabalha em outras funções dentro da escola, mas o pior mesmo é falta de estrutura física”, afirma a educadora. Essa reclamação não é unilateral, os pais de alunos também se queixam o cobram melhorias.

A administradora Driele Miranda, 32 anos, conta que a primeira impressão que teve ao levar o filho para o primeiro dia de aula em uma escola pública municipal, não foi das melhores, mas que o ensino compensou. Segundo ela, “o ensino é muito bom, os professores apesar de pouco auxílio por parte dos governantes e gestores escolares desenvolvem muito bem seu papel de educador”. Para Soraia Picanço 40 anos, também mãe de aluno da escola pública municipal, o que dificulta o aprendizado é a falta de diálogo entre pais e corpo técnico da escola. Segundo ela, existe também uma falta de respeito mútua entre professores e alunos e nenhuma providência é tomada, dificultando toda a rede de transmissão de conhecimento.

Viga visivelmente desgastada que sustenta o teto da escola. Foto: Enviada por uma professora que não quis ser identificada

Contornar problemas estruturais e físicos junto a questão de relacionamento, acaba se tornando parte da tarefa do educador no Brasil. Assim como lidar com problemas sociais das comunidades carentes que geralmente cercam as escolas públicas e afetam a criança que frequenta aquela escola.

“Vou te dar uma facada, corre pra dentro, vou rasgar teu bucho’ muitos palavrões e muitos são agressivos. Lembrando que meus alunos são crianças de 5 anos”

Uma professora de uma pequena escola na zona sul, conta que no seu primeiro contato com uma sala de aula, achou que nada ali fazia sentido. A sala era muito pequena para aquela quantidade de estudantes e havia pouco ou nenhuma estrutura para crianças com algum tipo de deficiência. Ela conta que além do problema físico, a escola também sofre com problemas sociais. “Alunos com famílias desestruturadas, chegam em sala sem condições psicológicas de estudar”, diz ela. Sobre o dia a dia com as crianças, ela ainda conta: “Alunos carentes de afeto se apegam muito ao professor. E os relatos diários das vidas deles na maioria das vezes chocam, como agressão física e pais que vão presos. A maneira como ele falam entre eles também me surpreende de forma negativa como ‘vou te dar uma facada’, ‘corre pra dentro’, ‘vou rasgar teu bucho’. Muitos palavrões e muitos são agressivos. Lembrando que meus alunos são crianças de 5 anos”.

A diretora da escola municipal que fica no bairro Santa Rita não permitiu a nossa entrada no prédio, porém de fora mesmo conseguimos ver a estrutura precária. Foto: Rudja Santos

A violência contra os professores

O Brasil é número 1 no ranking da violência contra professores. Baseados em dados de 2013, uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entrevistou mais de 100 mil professores e diretores de escolas do ensino fundamental e médio e revelou dados que colocam o Brasil como o país onde mais se agride professores. Segundo o instituto, novos dados estão para ser divulgados ainda em 2019.

O que mais preocupa é saber que os estudiosos da área ainda não conseguem identificar a origem dessa violência. Ainda existem mais perguntas do que respostas. Para a especialista em violência nas escolas e juventudes Miriam Abramovay, o assunto não aparenta ser prioridade no país e não foi feita nenhuma pesquisa relevante sobre o tema.

Trabalhar como professor hoje no País é exaustivo e desestimulante.

Em Macapá vemos relatos todos os dias, principalmente em escolas de periferias onde as crianças já saem de casa sob influência de uma família desestruturada e cercada pela violência e pelo crime. Uma jovem professora recém-formada conta que na sua primeira semana de trabalho foi agredida por uma criança de 5 anos. Entre gritos e xingamentos a criança mordeu a educadora, que logo convocou os pais a escola, que por sua vez foram tão agressivos quanto a criança. “Quando fui conversar com a mãe da criança, ela não acreditou em mim e ainda defendeu o filho com um tom de ameaça. Eu fiquei com medo de o repreender novamente”, conta a professora com um visível medo no olhar.

Existe um grande questionamento a ser feito por todo o sistema educacional macapaense: Como melhorar a educação? Vale ressaltar que neste cenário não existe vítima e vilão. Enquanto os professores passam por situações difíceis em sala de aula, os alunos e seus pais também sofrem com a falta de estrutura tanto das escolas quanto da sociedade como um todo. Não podemos nos opor, pois todos somos vítimas sim, mas de um sistema cheio de falhas.

Apesar de todos os problemas, os professores são o que mantém a chama acessa. “Trabalhar como professor hoje no País é exaustivo e desestimulante, mas me orgulho por saber que mesmo diante de todas as dificuldades que elenquei ainda existem pessoas que tem potencial para mudarem a nossa realidade e eu sou uma mediadora entre essas criaturas e o conhecimento”, diz uma professora do ensino infantil. “A sala de aula, principalmente as de educação infantil, é uma terapia. Você divide a sua vida com mais de 25 crianças por um ano e no final tem que deixar eles irem embora. Em 2015 lecionar foi a minha terapia e me tirou de uma tristeza horrível. O inusitado no caso foi eu ter esperado ansiosa pra semana começar de novo pra eu reencontrar meus alunos. Era cansativo mas valia cada sacrifício”, são palavras de mais uma educadora do ensino infantil, que nos dão um fio de esperança.

Todas as professoras entrevistadas para essa matéria pediram para não serem identificadas, por medo de represálias.


*Os professores entrevistados para esta matéria não quiserem ser identificados.

*Não fomos autorizados a entrar nas escolas para apurar as denúncias e as diretoras não quiseram dar entrevista.

*A secretaria de educação não retornou as nossas chamadas, e-mails e mensagens até o fechamento da matéria.

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