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No Amapá, a nobre arte do boxe respira com dificuldades

Atualizado: 12 de Mai de 2019

A combinação de Projeto social e desenvolvimento de atletas possibilita ao esporte uma chance de protagonismo.


Por Leandro Bezerra


Academia Nelson dos Anjos - Foto Leandro Bezerra

O Boxe brasileiro já viveu tempos melhores, áureos até, sendo sucesso de crítica e público com nomes que ainda hoje são reverenciados. Éder Jofre, Luis Faustino Pires, Servílio de Oliveira, Adilson “Maguila” e Acelino Popó, são alguns dos responsáveis pela veneração dos brasileiros pelo esporte. Mas a forte paixão foi reduzida pouco a pouco e chegou a um sentimento mais próximo da simpatia, saudosismo e de pessimismo quanto ao futuro do esporte.



Alunos em Atividade na Academia - Foto Leandro Bezerra

Quando contextualizamos a situação do boxe em um estado como o Amapá, distante dos grandes centros, o cenário parece ser mais desanimador. Eliel Tenório Soares, presidente da federação amapaense de boxe há um ano e quatro meses, um dos responsáveis pela fundação da federação no estado, fala com certo tom de tristeza das dificuldades e da sua falta de esperança na evolução do esporte. “Pela experiência que eu tenho, em 26 de agosto eu vou fazer 49 anos lidando com esporte das artes marciais, não tenho expectativa nenhuma, não vejo melhora nenhuma, apesar da força de vontade que as pessoas têm, porque a gente sabe que cada vez fica mais difícil”, diz.


“Eu vou fazer 49 anos lidando com esporte das artes marciais, não tenho expectativa nenhuma, não vejo melhora nenhuma".

O forte depoimento de Tenório é corroborado por um certo ar de inércia existente na modalidade no estado. Não há eventos, apenas três academias disponibilizam a modalidade atualmente na capital Macapá e, principalmente, poucos profissionais estão dedicados ao ensino do boxe. Entretanto, ainda é possível perceber uma centelha, uma pequena chance para melhorar o esporte e restabelecer a relação entre público e o boxe. A chance que citamos está diretamente vinculada ao sucesso de projetos sociais, dos atletas e do desenvolvimento de talentos.


Um desses talentos citados por Tenório é Otávio Luz, amapaense de apenas 14 anos, bicampeão brasileiro da categoria cadete até 75 Kg e que, na sua última competição, defendeu a seleção brasileira no mais importante torneio juvenil da Europa, o Emil Jechev Memorial de boxe juvenil realizado em fevereiro deste ano na Bulgária. O Brasileiro acabou sendo eliminado pelo russo Victor Kashin, porém, foi uma boa oportunidade para o líder do ranking nacional em sua categoria mostrar seu valor em uma competição de grande porte.


Otávio é atleta do clube de boxe Nelson dos Anjos, onde outros tantos jovens lutadores estão na mesma peleja por um lugar ao sol no esporte e na vida em sociedade.

Nelson dos Anjos foi eleito em 2017 o melhor treinador do campeonato brasileiro. Na ocasião, com apenas quatro atletas, o Amapá ficou em terceiro lugar na classificação por equipes na categoria cadete.


Estrutura da academia Nelson dos Anjos - Foto Leandro Bezerra

A academia fundada por Nelson não cobra mensalidades e está localizada em um bairro considerado de alta vulnerabilidade social, o Congós na zona sul de Macapá, que passa por problemas relacionados a criminalidade e ao tráfico de drogas. Dados divulgados em 2015 pelo Tribunal de Justiça do Amapá, colocam o bairro como um dos mais violentos da cidade e neste ambiente, a academia acaba por ter que brigar em duas frentes, a primeira na ajuda às crianças a sair das drogas e do crime, e a segunda na formação de atletas.


A parte social do trabalho é desenvolvida pelo clube através do projeto “Formando Campeões” que, com a prática do boxe, possibilita a inclusão social destes jovens, dando disciplina, respeito e orientação para o convívio social.


Para este repórter, que em visita a academia teve a oportunidade de um convívio mínimo, de pouquíssimas horas com os alunos, o cumprimento firme e educado deles olhando nos olhos e o respeito que demonstram pelo seu Nelson e para com todos que os visitam, mostram o grau de sucesso desejado e alcançado pouco a pouco pelo projeto.


Seu Nelson destaca ser este resgate social o objetivo principal do projeto. “O objetivo do projeto é resgatar estes jovens e adolescentes, essa molecada da marginalidade e trazer pra cá pra dentro para que possa estar na sociedade. Este é o nosso objetivo: formar talento, formar campeão, você entendeu?”


Este é o nosso objetivo: formar talento, formar campeão, você entendeu?”


Bruno Almeida conduzindo o treino Foto Leandro Bezerra.jpg

Além do trabalho social, para alguns deles, a oportunidade se estende a uma possível carreira como atleta. Bruno Almeida de 20 anos, aluno do projeto há 11 anos, fala, com um sorriso solto, da sua relação com o projeto e com clube. “Se não fosse o projeto, provavelmente eu estaria morto ou estaria em outra vida, o projeto me livrou de muita coisa. Na verdade, este senhor (Nelson dos Anjos) já foi um grande pai para muita gente. Muitos atletas que passaram por aqui e que hoje em dia têm uma vida melhor, não necessariamente financeira, mas com um pensamento mais realista do mundo que a gente vive.”


Bruno complementa ainda falando do desejo de se tornar um atleta profissional: “tenho esse intuito, de ser profissional, sei que é bem difícil para as pessoas deste estado, mas a gente tenta. Provavelmente, no ano que vem eu entro, vou treinar bastante para o brasileiro deste ano e tentar uma vaga na seleção brasileira.”



Desafio do balança mas não cai

O clube fundado por Nelson dos Anjos vem enfrentando diversas dificuldades ao longo dos seus 20 anos de existência. Em 2015 o prédio sofreu com um incêndio e parte da estrutura foi destruída. Felizmente, algum tempo depois, os prejuízos foram minimizados através de doações. Segundo Nelson, o principal desafio é manter a academia, falta dinheiro para compra de suprimentos básicos, e para manutenção da estrutura. “Fico só pensando, preocupado, como vou pintar, trocar uma tábua, uma fechadura. Como vou manter essa academia?”, diz Nelson dos Anjos.


Equipamentos da academia-Foto Leandro Bezerra

Ainda segundo Nelson dos Anjos o projeto só está ativo porque, felizmente, conta com parceiros e eventuais doadores que, minimamente, dão condições para que a academia continue em funcionamento.


É preciso pensar que, como em qualquer esporte, o Boxe precisa de alguns elementos estruturantes para que possa voltar a ter sucesso de público em nível nacional. Um possível caminho teria como base as instituições que se propõem a ensinar a arte marcial e ainda resgatar talentos que, de outra forma, seriam simplesmente perdidos.


Avaliando o que foi dito pelos entrevistados, além do posicionamento das instituições e seguindo um pensamento lógico, podem-se agregar os seguintes fatores ao possível caminho de sucesso do Boxe, com o primeiro passo feito pelos clubes e projetos sociais:

Na prática, a receita não é tão simples. Diversas variáveis afetam o sucesso de cada etapa, entretanto, ao observar os resultados obtidos pelo pequeno clube Nelson dos Anjos, mesmo diante de tantas dificuldades, não é sonho demais acreditar na viabilidade do boxe como esporte nacional no futuro.



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