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Histórias que inspiram: Um sonho em movimento

Atualizado: 12 de Abr de 2019

Professora se dedica a ensinar a arte da dança para alunas de projeto social em Macapá


Por Monica Peixoto e Diego Balieiro


A ideia de um projeto social é proporcionar melhor qualidade de vida a pessoas e comunidades por meio do desenvolvimento de ações sociais, sem fins lucrativos. As pessoas que trabalham nesses projetos praticam diariamente exercícios de cidadania, empatia e amor ao próximo, saindo de sua zona de conforto e deixando para trás pré-conceitos e ideologias pré-estabelecidas a fim de beneficiar outras pessoas.


Existem inúmeros projetos com diversas causas nobres, desde grandes organizações internacionais a modestas ações em pequenas comunidades, que variam de construção de lares para famílias desabrigadas ao ensino de uma determinada arte a crianças de baixa renda. Independentemente da abrangência de cada causa, todas praticam um ato solene: ajudar o “outro”.

Foto: Diego Balieiro

O protagonista desta matéria, o projeto social de dança Coaracy Nunes, é um bom exemplo de que para modificar uma realidade não é preciso grandes passos. O projeto foi idealizado – e é dirigido – pela professora Lilian Monteiro, formada em Educação Física e com doutorado em dança, e iniciou algum tempo depois da entrada dela na Escola Estadual Doutor Coaracy Nunes, em 12 de agosto de 1989.


Para Lilian, sempre foi um sonho trabalhar com dança e principalmente abrir oportunidades para pessoas que não possuem condições financeiras de pagar por aulas. Baseada então na sua própria história, Lilian decidiu criar um projeto que beneficie as crianças e jovens que estudam na Escola Estadual Coaracy Nunes, em Macapá, e outras comunidades de baixa renda.


Lilian relata que inicialmente o projeto atenderia apenas as alunas da própria escola, mas houve tanta procura que ela decidiu abrir para que algumas pessoas de fora também pudessem ter a chance de participar. “Aqui eu não faço seleção, as meninas é que procuram e vêm se inscrever. As meninas que têm vontade, aí eu digo que a prioridade são as alunas da escola, mas tem meninas de fora que pedem ‘professora eu quero vaga”, disse a professora.


A ideia é proporcionar aulas de dança para as crianças e jovens e tirá-las do ócio que passam fora do horário escolar. Todos os anos são abertas 100 vagas, sendo 40 para a turma iniciante, para novas bailarinas a partir dos sete anos de idade. As alunas remanescentes que ainda desejam continuar no projeto vão avançando a turma de acordo com idade e nível técnico. Atualmente a Companhia Coaracy Nunes, formada por alunas de nível técnico mais avançado, conta com treze meninas.


Os estilos de dança trabalhados no projeto são variados, e as aulas englobam ritmos como o ballet clássico, jazz, dança moderna e contemporânea. Entretanto, o projeto vai muito além de apenas ensinar dança, de acordo com Lilian é algo mais profundo. “Aqui a gente trabalha com autoestima e linguagem corporal [...] a ideia é que todas as bailarinas que passam por esse projeto vejam que um projeto de dança pode mudar a vida delas”. O intuito é valorizar talentos, oferecer um hobbie, atividades extras, mas também traçar planos e guiar alunos que queiram seguir a área da dança como segmento de profissão.

Foto: Diego Balieiro

A sala da escola, utilizada para aulas de dança, é mantida através do que é arrecadado em espetáculos produzidos pela companhia de dança, visto que o projeto não recebe apoio financeiro de fora, segundo a coordenadora. “Aqui (na sala da escola) a gente não paga nada, é ‘0800’, mas, assim, pra manter essa sala é a gente, é festival no final do ano, tudo o que a gente tiver, investimos aqui. Temos um vestiário velho, que era um depósito, e ajeitamos para as meninas se arrumarem assim que nós fomos crescendo, porque apoio de fora nós nunca tivemos.”


Lilian conta com a ajuda de mães e pais na hora da confecção de figurinos. As próprias alunas também realizam vendas de doces, salgados, entre outras coisas para ajudar a custear espetáculos e viagens que o grupo participa. Além disso, ela mesma costura e reutiliza figurinos, próprios ou doados, para diversas apresentações.

Apesar de algumas dificuldades enfrentadas, a professora afirma que tudo vale a pena, “é um trabalho muito gratificante, eu agradeço todos os dias a Deus, porque eu trabalho com o que amo”. Os bons frutos, são colhidos ao ver os rumos que as bailarinas tomam a partir de sua participação no projeto, dos agradecimentos dos pais e a felicidade das alunas a cada nova realização. De acordo com Lilian, todos os finais de ano, ela chora por conseguir realizar sonhos. E os pais também se emocionam.

Foto: Diego Balieiro

Falando em sonhos, um espetáculo inspirado no clássico “Cinderela” foi marcante para o projeto. A ideia surgiu porque várias meninas não conseguiram ter suas festas de 15 anos e a tão esperada valsa de debutante. Sendo assim, a professora adaptou o ballet de repertório e proporcionou uma noite mágica tanto para as jovens quanto para as crianças, com belíssimos figurinos, maquiagem e coreografias, como a valsa na hora do baile.


As alunas sempre manifestam seu carinho, admiração e gratidão à professora, por todo o tempo e ensinamentos dedicados a elas, como afirma a bailarina Talita Beatriz, de 13 anos, que está há quatro no projeto de dança. “Desde pequena eu gostava muito de dança. Minha família também participa do meio artístico. Então desde que eu comecei a fazer ballet eu não quis mais parar. E ela (a professora) é uma inspiração pra mim. Ela está aqui todos os dias, tem várias turmas e sai daqui tarde da noite [...] tudo o que eu quero é chegar a ser um pouco do que ela é. Ela é uma mulher incrível. Às vezes, tem meninas que não têm condições de pagar roupas e ela mesma costura [...] ela é uma mulher muito batalhadora e eu admiro muito ela.”


Os pais também são bastante presentes e se sentem felizes por verem suas filhas fazendo o que gostam. Karen Maciel, mãe de Maria Eloisa, que conheceu o projeto através de sua prima, elogia o trabalho da professora. “Minha filha se identificou muito com ela. A professora tem um jeito muito peculiar de ensinar, é uma forma carinhosa, delicada mas que ensina de forma correta. É tudo muito caro e a professora dá a oportunidade da gente usufruir disso. Assim nos ajuda, como pai e mãe, porque nós queremos realizar um sonho dos filhos, mas sabe que o custo é alto. Então a professora nos ajuda muito, ela é muito boa, só que infelizmente tem pouca ajuda. Mas eu sou muito feliz por estar aqui, adoro o projeto, adoro a professora, adoro as crianças e eu ajudo como eu posso.”

Foto: Diego Balieiro

Alçando longos voos


A Bailarina Stephanie Cristal dos Santos, de 14 anos, foi uma aluna destaque. Ela conseguiu uma bolsa para um curso de verão em 2017 da American Academy of Ballet, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. A aluna do projeto social foi escolhida por meio de seleção que ocorreu em um festival de dança no Pará.

As outras alunas e a professora Lilian Monteiro se empenharam em ajudar a aluna a custear a viagem. Para isso, fizeram dois espetáculos de dança no teatro das Bacabeiras, realizaram um bazar e fizeram vendas de lanches para arrecadar dinheiro. O curso teve duração de 40 dias.


Lilian foi a acompanhante de Stephanie durante a viagem, e em Nova Iorque elas contaram com a ajuda de uma brasileira que reside no local. “Ela é muito talentosa. Participou de quatro coreografias e foi muito bem. Ela teve aula com alguns dos melhores professores do mundo [...] a experiência foi muito boa”, disse a professora.



Protagonista de um sonho


Lilian Alvares Costa Monteiro tem 61 anos e nasceu no interior do Amapá, no município de Calçoene. De família humilde, desde criança nutria o sonho de ser bailarina. Sua história na dança começou quando era muito nova. Lilian olhava fotos de livros de dança e colocava as posições em prática, já que era seu único contato inicial com a arte. Assim ela se estimulou a ser professora de ballet, participando de concursos em sua cidade, mas segundo a própria, era tudo bem “rústico”. Aos 14 anos, foi à Macapá. “Eu tentava entrar na dança, não tínhamos condições e meus pais eram muito pobres, por isso temos um projeto social”, afirma.


Lilian terminou o segundo grau e logo em seguida tentou ingressar na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) na área de educação, mas não teve êxito. Nesse mesmo período, tentou o vestibular da Universidade Estadual do Pará (UEPA) e alcançou aprovação com a nota máxima em Licenciatura em Educação Física. Também foi aprovada no teste de aptidão, que eram 100 vagas, em duas turmas de 50. Se formou em 2 anos.


No dia 12 de agosto de 1989, Lilian entrou na Escola Estadual Doutor Coaracy Nunes, onde trabalha até hoje. Dois anos depois, fez sua primeira especialização no Rio de Janeiro, que a levou a trabalhar com crianças. Participou do Festival Internacional de Dança da Amazônia (FIDA), em 23 dos 25 anos de edição. Também foi para Joinville, onde fez especializações em técnica masculina, tudo relacionado ao ballet.

Foto: Diego Balieiro

Lilian então decidiu ingressar no mestrado em Ciências da Motricidade Humana pela Universidade Castelo Branco. “Fizemos o mestrado aqui mas tínhamos que ir ao Rio de Janeiro cursar várias disciplinas”, completou. Logo após o mestrado, cursou doutorado em Portugal, na Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro. A professora relata sua experiência. “Passei 5 anos indo a Portugal fazer doutorado, a minha área de estudo sempre foi a dança, quem pratica dança e quem não pratica, peguei relatos e tem até artigos meus sobre.” E completou: “eu fui continuando no Coaracy Nunes, nunca fui dispensada da sala de aula mesmo fazendo doutorado, quando eu fui pra lá eu deixei monitoras aqui”. Lilian conta que teve dificuldades, pois seu orientador em Portugal não aceitou seu projeto, já que havia sido feito no Brasil. Contudo, depois de muita luta e trabalho, conseguiu fazer um novo projeto e concluir seu doutorado.


Lilian possui 34 anos de sala de aula. Atualmente segue como professora de dança, expressão corporal e ritmos no Projeto Social Coaracy Nunes. Para ela o projeto é um sonho realizado. Possui experiência na área de Educação Física, com ênfase em Dança, atuando principalmente com adolescentes, acadêmicos, crianças e comunidade, com ênfase em Educação Física, Ambiente Escolar, Movimento e Expressão Artística. Os eixos temáticos de suas pesquisas são Autoestima, Dança, Imagem Corporal e Necessidades Psicológicas Básicas.


Além disso, Lilian faz parte do projeto UNIDANÇA, junto com vários outros nomes da dança amapaense, que convidam grupos e escolas a unificar-se e se apoiar-se. Lilian fala com alegria no rosto que está sempre de braços abertos para quem precisar, tanto alunos como acadêmicos que querem estagiar. O estado do Amapá pode dizer que tem o privilégio de ter uma pessoa como ela aqui ensinando e deixando sua marca na história da dança.


Foto: Diego Balieiro

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