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Futebol feminino no Amapá: dos campos de várzea para o Brasil

Atualizado: 24 de Mai de 2019

Perspectiva de crescimento da modalidade no Brasil traz a esperança de uma maior valorização do esporte também no Estado.


Por Gabriel Dias e José Vasconcelos


Não é novidade que o futebol feminino sempre foi exemplo no assunto igualdade de gênero. Mas a questão vai muito além disso e existem diversos fatores limitantes ao desenvolvimento da modalidade no "país do futebol".


Jogadoras do Oratório aquecem antes do treino com bola

Países como Estados Unidos, Japão e Noruega não possuem fortes elencos em sua equipe masculina, mas proporcionam um show à parte quando se trata das meninas. A equipe estadunidense possui jogadoras tão ou mais conhecidas mundialmente que seus atletas homens. Alex Morgan, Hope Solo, Carli Lloyd e Abby Wambach são alguns exemplos.


O país sempre se destaca no desenvolvimento dos atletas e, especialmente, na popularização de seus nomes. Lá, são tratadas como celebridades e são fontes de inspiração para diversas jovens.


No Brasil, apenas agora a modalidade está recebendo uma maior atenção de clubes, confederações e imprensa. A partir deste ano, todos os 20 times da Série A do Brasileirão vão ter que manter times de futebol feminino, tanto na categoria de base como no profissional.


Esta determinação já constava no regulamento de clubes da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), que obriga aos clubes o licenciamento de equipes femininas para garantir a participação das equipes masculinas em competições como a Copa Libertadores da América e Copa Sul-Americana.


Quem descumprir o novo regulamento está sujeito a multa e também a ser excluído de torneios. A nova regra cria boas perspectivas para as equipes amapaenses, que também terão a oportunidade de representar o Estado em competições nacionais.


Antes praticado apenas por homens, o futebol se tornou hoje a escolha de várias mulheres que sonham seguir carreira no esporte e treinam com afinco para conseguir alcançar o sucesso. Apesar das dificuldades, muitas jogadoras enfrentaram as barreiras do preconceito e da falta de apoio para fazer do futebol feminino um motivo de orgulho para a nação.


Jogadoras amapaenses


Hoje, a principal referência do futebol feminino no Amapá é a ex-jogadora Alline Calandrini, de 31 anos, que defendeu as camisas do Santos, Corinthians e Seleção Brasileira. Se tornou um exemplo a ser seguido para as meninas que sonham em um dia brilhar na modalidade.

Amapaense, Alline Calandrini, defendeu a camisa da seleção brasileira. Foto: Divulgação CBF

A amapaense iniciou a carreira aos 17 anos após realizar um teste nas categorias de base da seleção brasileira, de onde foi indicada para clubes paulistas.


Em entrevista à revista Tajá, Calandrini contou sobre suas dificuldades no início do esporte. “Maior dificuldade na época era não saber da existência de clubes femininos no Brasil, porque viver disso no Amapá era impossível, então a grande dificuldade foi pôr esse meu sonho em prática exatamente por não ter esse conhecimento”, explicou.


No último ano, a amapaense se aposentou dos gramados para seguir a carreira de jornalista. A ex-atleta acredita que 2019 será um ano de grandes mudanças no cenário do futebol no Brasil e aconselha as jogadoras amapaenses a aproveitarem esse embalo: “Vão ter mais times e deverão surgir mais oportunidades para as meninas", disse.

As coisas são mais difíceis para quem é do Norte, isso é um fato, mas tem que persistir, tem que querer, tem que buscar e fazer os testes”, afirmou.

Outra futebolista amapaense que conseguiu alcançar destaque no cenário nacional foi a meio-campista Iandra Souza, de 19 anos, que defendeu o Vasco da Gama no Rio de Janeiro por três temporadas. A atleta começou a dar os primeiros passos no futebol com apenas 7 anos de idade, jogando junto com meninos em escolinhas de futebol no Amapá. Agora a jogadora se prepara para passar por um período de adaptação no Benfica, de Portugal, a partir do mês de julho.

Iandra Souza vai treinar no Benfica, em Portugal. Foto: Marcelo Loureiro

De acordo com a atleta, apesar da pouca visibilidade, a modalidade está crescendo aos poucos no Amapá. “Mesmo sendo um processo lento, o cenário do futebol feminino no Amapá já está avançando aos poucos com a realização de campeonatos da categoria que antes não tinham, o que com certeza é bom para o surgimento de novas jogadoras”, frisou.


Iandra espera servir de inspiração para outras meninas que também sonham em um dia representar o Estado em um grande clube. “Espero poder representar bem o nosso Estado no exterior, para que o Amapá seja reconhecido não só por mim, mas por outras atletas, que sirva de incentivo”, comentou.


Oratório

O Oratório é atualmente o maior vencedor do Campeonato Amapaense de Futebol Feminino com seis títulos (2009, 2010, 2011, 2015, 2016 e 2018). Por ser a atual campeã do Amapazão, a equipe bicolor ganhou o direito de ser o único representante do Amapá na Série A2 do Campeonato Brasileiro Feminino de Futebol, segunda divisão do torneio nacional.

Jogadoras do Oratório em treino com bola

Neste ano a competição conta com a participação ilustre de equipes tradicionais como São Paulo, Cruzeiro, Atlético-MG, Bahia, Palmeiras, Fluminense, Botafogo, Grêmio e Vasco.


Mesmo com a responsabilidade de representar o Amapá no cenário nacional, a equipe enfrenta dificuldades na preparação das atletas para o torneio. Atualmente o time reveza os treinos entre o Estádio Olímpico Zerão e um campo de várzea no conjunto Laurindo Banha, na região periférica de Macapá.


À frente da equipe há cerca de 12 anos, a treinadora Sônia Soares considera que o principal fator que dificulta o crescimento da modalidade no Amapá é a falta de divulgação, o que acaba evitando a realização de maiores investimentos nas equipes. “Quando o empresário quer apoiar, ele também quer ter um retorno, e a gente não tem essa visibilidade pela falta de cobertura. Diferente do Pará, por exemplo, onde a imprensa divulga e a própria federação já possui um canal para transmissão dos jogos”, lembra.

Sônia Soares orienta jogadoras em treino físico

Apesar disso, a treinadora tem esperança na evolução da modalidade nos próximos anos. “Apesar de ter sido tarde, o Brasil deu o pontapé inicial este ano, e a gente espera que essas novas regras e esses novos torneios a categoria possa crescer nos próximos anos em todo o Brasil com surgimento de novos times e principalmente categorias de base para o surgimento de novas atletas”, ressaltou.


O estado do Pará vem sendo um dos principais destinos para as atletas amapaenses que desejam alavancar a carreira à nível nacional. Destaque no Oratório em 2018, a amapaense Luana Makolly, de 22 anos, foi contratada para defender as cores do Pinheirense, uma das principais equipes da modalidade no estado vizinho.

Pinheirense (PA) contratou a amapaense Luana Makolly. Foto: Arquivo Pessoal

A atleta iniciou no futebol aos 13 anos no time da Ilha de Santana, e teve uma passagem pela equipe Team Chicago Brasil, filial brasileira do Team Chicago Soccer Club, dos Estados Unidos.


Para Luana, mesmo com todas as dificuldades e preconceitos, o Amapá possui muitas atletas com um futuro de sucesso na modalidade.

“As oportunidades deverão surgir naturalmente, mas somente para aquelas que estiverem preparadas e tiverem vontade de vencer todos os dias, e hoje há vários métodos para que essas meninas possam ser vistas por clubes grandes, uma delas é através de vídeos, mais comum e mais pedidas por clubes do Brasil e até de outros países”, evidenciou.

A questão mercadológica e o futebol feminino


Outro fator que retarda o crescimento do futebol feminino no Brasil é o de mercado. Em 2017, as empresas Banco Itaú, Brahma, Chevrolet, Johnson & Johnson, Ricardo Eletro e Vivo desembolsaram, cada uma, R$ 283 milhões para patrocinar o Campeonato Brasileiro masculino. Já o das mulheres tem como único patrocinador a Caixa Econômica, que paga R$ 10 milhões por ano.


Em entrevista à Revista Tajá, Jefferson Saar, professor doutor especialista em jornalismo esportivo, relata que falta as empresas terem a mesma visão mercadológica ao futebol feminino. “Precisa-se que empresas ou que pessoas se interessem pelo futebol feminino, tanto quanto se interessam com o futebol masculino e o vejam como negócio”, explicou.

Isso, para ele, também se justifica pela grande disparidade de audiência entre os dois, um fator cultural do país. “A principal diferença entre o futebol feminino e o masculino, ainda hoje, é negócio, é mercado, é audiência”, afirmou.


Além disso, Jefferson também relata que não há necessidade de possuir uma grande marca para ter sucesso no futebol feminino, o que impulsionaria o desenvolvimento da modalidade no Amapá. Ele cita a equipe amazonense Iranduba como exemplo. “(O Iranduba) é uma potência do futebol feminino, assim como é o Santos. Então, existem lugares que não precisam de uma grande pra ter um clube. Aqui, por exemplo, não precisaria de um Corinthians, de um Palmeiras pra ter um clube”, opinou o especialista.


Calendário


O calendário do futebol feminino brasileiro está cheio de novidades. Para 2019, a Confederação Brasileira de Futebol anunciou a criação de três novas competições, além de mudanças nos formatos de algumas das competições, aumentando o número de partidas disputadas no ano.

Jogadoras em aquecimento no treino

Ao todo, a bola deverá rolar 344 vezes para partidas de futebol feminino em 2019 no Brasil. São três competições organizadas diretamente pela CBF: o Brasileirão Feminino A-1, o Brasileirão Feminino A-2 e o Brasileirão Sub-18. Além dos torneios de base e os campeonatos regionais.


Abrir o leque de competições femininas é uma medida para proporcionar uma chance de atendimento à demanda gerada pelo aumento de times na modalidade, reflexo do licenciamento de clubes da CBF e da Conmebol. 


Em âmbito nacional o Amapá está sendo representado pelo Oratório que disputa o Brasileirão Feminino A-2. O time está no grupo 1 junto com o Ceará (CE), Tiradentes (PI), Esmac (PA), Santa Quitéria (MA) e São Valério (TO).


Despesas com viagens e hospedagens ficarão a cargo da CBF. No entanto, a entidade não pretende bancar a competição para sempre. A intenção é fazer com que o negócio vingue e ande sozinho. A meta de toda competição da CBF é fazer sentido mercadológico e financeiro para TV, torcedores e imprensa. 


Já o Campeonato Amapaense Feminino está previsto para acontecer entre 20 de setembro e 30 de outubro. Apenas a atual campeã já confirmou participação na disputa para defender o título.


Copa do Mundo


É natural que se veja diversos meninos que sonham em fazer um gol na final do torneio futebolístico mais importante do mundo; levar a tão almejada taça para casa se torna motivo de alegria nacional e manchete de centenas de jornais.


No entanto, muitas meninas também possuem esse mesmo sonho. Contudo a parte da alegria nacional e das manchetes... Bem, isso já fica um pouco mais difícil quando se trata do futebol feminino.


A Copa do Mundo de Futebol Feminino é disputada desde 1991. Também ocorre de quatro em quatro anos e suas edições variam de país sede. A última foi realizada em 2015, no Canadá.


Um fato curioso é o de que a maior artilheira da história da competição é a brasileira Marta, com os mesmos 15 gols do ex-maior artilheiro da história das copas, Ronaldo Fenêmeno. Em contrapartida, nem a jogadora, muito menos a seleção feminina foram campeãs da Copa do Mundo contra dois títulos do jogador em questão: os únicos da seleção masculina desde 1991.


Em 2019, ocorre a oitava edição do torneio. Desta vez, realizado na França e recebe uma transmissão de maneira inédita na televisão brasileira: o Grupo Globo transmite os jogos da Canarinho na televisão aberta e no site do globoesporte.com e todas (sim, todas) as outras partidas nos canais SporTV.


Jogadoras do Oratório treinando em campo de várzea


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