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Funcionários a serviço da CEA relatam agressões durante trabalhos de corte de energia

Atualizado: 17 de Jul de 2019

Eletricistas contam diversos casos de violências físicas e verbais durante o trabalho nas ruas.


Por Jamilly de Paula

Logomarca da CEA. Fonte: Imagem retirada da internet. Site: https://cea.portal.ap.gov.br

Parte da população sente dificuldade em pagar as contas do mês em dia, e quem não paga a conta de energia pode ter o fornecimento cortado. Mas para isso é necessário que profissionais a serviço da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) se dirijam até as residências para executar o trabalho, porém nem sempre os devedores recebem bem esses funcionários. Em relação à prestação de serviço, a suspenção de fornecimento de luz é a última ação realizada pela empresa. A partir disso surgem os problemas, já que os consumidores não entendem que os funcionários só estão cumprindo um dever. Ofensas e ameaças são relatadas constantemente pelos profissionais.


A violência contra os profissionais da empresa no exercício da função está no centro das preocupações dos trabalhadores. Segundo a eletricista terceirizada, que presta serviço para a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA), Priscila Sardinha Sales, 26, “a maioria dos consumidores não deixa a gente executar o nosso serviço, porque eles entendem que a CEA deve dar um prazo maior para que seja efetuado o desligamento deles. Muitas vezes somos tratados de forma rude e arrogante”, explana Priscila.


“Eu já sofri violência física, uma vez levei um tapa no rosto de uma cliente e reagi da forma que eu mesma não esperava, até porque foi no espanto. Eu fui cortar a energia e ela já havia falado que poderia ser cortada, mas simplesmente ela desferiu um tapa no meu rosto sem eu esperar e a minha reação foi revidar. E não me alegro em ter feito isso, nós acabamos brigando em frente à casa dela. E é algo assim que não esperamos que vai acontecer”, comenta a eletricista Priscila.


Para a servidora Priscila, a violência acontece quando menos se espera, porém quando ocorre os trabalhadores podem contar com o apoio do técnico de segurança e supervisor, pois estes garantem à assistência aos funcionários. Quando sofreu a agressão a companhia solicitou que Priscila prestasse um boletim de ocorrência contra a agressora. “A empresa me dispensou uma por parte da tarde, para que eu resolvesse todo o processo na delegacia”, explica Priscila Sales.


A história da Priscila é uma das muitas enfrentadas pelos eletricistas e as reclamações são diversas. A agressividade dos consumidores tem se tornado mais frequente no serviço de corte. De acordo com o eletricista Renan Castelo Rocha, 25, “podemos ver nos noticiários que são muitas as críticas em relação a CEA. E como somos prestadores de serviço, eles acabam de certa forma reclamando sobre a companhia”. O profissional também fala que parte dos consumidores costumam ser intolerantes. “Quando informamos ao consumidor que não podemos dar um tempo para ele ir pagar sua fatura, ele acaba perdendo a cabeça e então começa os insultos e xingamentos. Essas situações variam de acordo com a abordagem e a conversa com o inadimplente”, diz Renan.

Eletricista presta serviço a população à trabalho da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA). Foto: Jamilly de Paula

CEA oferece assistência aos funcionários agredidos fisicamente


Segundo a companhia, quando os funcionários recebem ameaças e comunicam a CEA não sofrem nenhum tipo de repreensão, já os agressores podem ser responsabilizados. Nesse caso a entidade encaminha para o departamento jurídico e um boletim de ocorrência é realizado para que o agressor responda dentro do que a lei exige. Este ano, dois funcionários foram agredidos fisicamente, ambos seguem com medidas judicias. “Está sendo tomada providência jurídica nos casos de agressão física”, afirma a chefa do atendimento da CEA, Jucelene Pelaes da Paixão, 35.


De acordo com a chefa do atendimento, nenhum dos funcionários chegaram a realizar denúncias em relação as agressões verbais, embora seja a realidade de muitos. “Assistência psicológica acredito que é dada, já nos casos de agressão verbal nenhuma providência costuma ser tomada, pois não costuma haver registros de denúncias da parte dos funcionários a empresa”, explana Jucilene.


A violência física e simbólica sofridas durante o trabalho pelos funcionários, tem suas consequências distintas, mas ambas afetam a vida da pessoa. Segundo o advogado Edson Reinado do Carmo Alves, 30. “Em relação a agressão física, pode ter desdobramentos, para um crime de agressão propriamente dito de lesão corporal. A pena pelo crime é reclusão de um a cinco anos. Já a simbólica, este é um conceito novo, está relacionado aos crimes contra a honra. Então não possuem o mesmo tipo penal, pois as agressões física e simbólica podem ter desdobramentos que não serão os mesmos. Então a pena e o regime inicial vão variar conforme o caso concreto”, explica o advogado.


A violência simbólica atinge aos servidores


De acordo com o sociólogo Wellyngton Cleiton da Silva Bezerra, 26, a violência simbólica, dependendo do bem-estar da pessoa, pode afetá-la de maneira imediata ou a longo prazo. Tem consequências no campo psicológico do trabalhador. “Piadinhas, memes e músicas que fazem referência para o trabalhador da CEA durante o exercício de sua função, causam constrangimento a ele. A partir do momento que o trabalhador é afetado, coloca em risco seu trabalho, pois ao reagir as provocações e agressões pode perder seu emprego, mesmo achando em está certo por reagir, pois ninguém gosta de ser agredido, sendo assim, acaba por perder parte dos seus direitos ou todos seus direitos perante a instância judicial”, explica o sociólogo.


“Quando uma pessoa é colocada ao ridículo no mesmo instante seu psicológico é abalado, porque ninguém gosta de ter sua imagem sendo exposta em redes sociais sem o seu consentimento, ainda mais por motivo de piadas. Isso se espalha de uma forma muito rápida nos dias de hoje, e tem um alcance muito grande. A vida dessa pessoa em todos os aspectos acaba sendo afetada, pois a piada não ficará somente nas redes sociais, no rol de amigos será motivo de zoação, na família será motivo de conversas piadistas e na sua vizinhança passará pelos mesmos constrangimentos”, afirma o sociólogo Wellyngton Bezerra.

Wellyngton Cleiton da Silva Bezerra, 26 anos, formado pela Universidade Federal do Amapá. Foto: arquivo pessoal

Segundo o sociólogo, para os trabalhadores da CEA, a violência implica de maneira efetiva no desempenho dos profissionais, pois o medo e o receio de cortar a luz de uma pessoa ocorre constantemente, já que a qualquer momento o indivíduo que está tendo sua luz cortada pode aparecer para agredi-los. Para Wellyngton a cada dia que passa o mundo está mais violento e as pessoas por muitas vezes não entendem que aquele funcionário está apenas cumprindo ordens. “A violência física acaba por afetar de maneira imediata a vida do trabalhador, no aspecto físico e psicológico”, diz Wellyngton.


A psicóloga Érica Lobato Picanço, 35, afirma que toda e qualquer violência seja ela física ou até mesmo verbal, pode trazer consequências devastadoras ao psicológico da vítima. Dependendo do contexto, intensidade ou frequências dessas agressões. “Sob a luz da psicanálise, a violência é um sintoma tanto social quanto subjetivo, existe um mal-estar social vivido por essas pessoas que cometem tal ato caracterizada por um excesso ou função defensiva. Por outro lado, está o trabalhador que cumpre a sua função e está sob pressão por todos os lados, sem dúvida acarretará em um possível desiquilíbrio emocional, psicológico podendo progredir a um transtorno de fato”, explana Érica.

Érica Lobato Picanço, 35 anos, especializada em psicologia clínica. Foto: arquivo pessoal

Para Érica a cultura contemporânea trouxe para a história uma nova modalidade de crime, e assim novos criminosos, mas um tipo específico de sofrimento infligindo ao outo é a destruição da moral, que traz aspectos da ordem do excesso denominada de maldade gratuita. De acordo com a psicóloga, nela ela existe um perfil indestrutível do opressor que pode ser analisado de duas formas, “como pensa o autor dessas postagens dentro de um cenário propiciador de prazer e como esse opressor atua com total indiferença sem se importar com as consequências de seus atos”, explica a psicóloga.


Segundo a profissional, toda e qualquer exposição ao ridículo traz consequências penosas em relação a vítima, pois ataca sua moral sua ética e sua privacidade. Foi o que aconteceu com o funcionário público Elielson Silva Almeida, 39. “Fui vítima infelizmente de um meme em redes sociais, o qual me causou alguns transtornos psicológicos, por conta de uma pessoa que agiu de má fé. Tendo em vista que o transtorno maior veio em meio à comentários maldosos que foram direcionados a empresa, mas que repercutiram diretamente em mim, e isso me deixou meio depressivo por um mês”, conta o funcionário Elielson Silva Almeida, 39 anos da CEA.


“Algumas pessoas já estão alteradas devido a situação da CEA, pelo serviço prestado para a população, e acham que quem está trabalhando em campo tem algo a ver com isso, o que nos faz tornarmos vítimas de tal situação ou seja o para-choque da empresa”, comenta o funcionário Elielson Silva Almeida, 39 anos.


Mesmo diante disso, o funcionário público Elielson considera a empresa preparada para dar a assistência necessária aos seus colaboradores. “A CEA dá todo o suporte que precisamos, acompanhamento médico, que está acoplado em nosso plano de saúde, pois existe um acordo coletivo que nos ampara em meio a estes e outros casos de violência e até mesmo morte, caso venha acontecer conosco”, afirma Elielson.


“Toda e qualquer exposição ao ridículo traz consequências penosas em relação a vítima, pois ataca sua moral, sua ética e sua privacidade. Se faz necessário estar juntos aos profissionais e compreender todo o cenário que estão expostos trazendo soluções para amenizar um possível sofrimento, ouvi-los dar lugar de fala a eles e suporte psicológico e no caso jurídico também se faz necessário”, comenta a psicóloga.


De acordo com a psicóloga Érica, se o indivíduo não tiver apoio psicológico em seu ambiente de trabalho, o transtorno mais comum apresentado por ele é o estresse pós-traumático que compromete de forma profunda e complexa a vida social da pessoa. Para a profissional, o sujeito que passa por esses conflitos internos e sociais, precisa de um cuidado indispensável. “Seus aspectos psicológicos e socias não podem ser negligenciados. Se caso não houver esse suporte, o rendimento do trabalhador de fato cairá consideravelmente e consequentemente a empresa ou o órgão a ele vinculado sofrerá perdas também, seja ela pessoal ou financeira”, diz Érica.


Não há medidas e projetos educativos para evitar as agressões, e até mesmo produções de conteúdo midiáticos, que também são formas de educar e esclarecer a população, afim de coibir essas ações. “Infelizmente a empresa não tem realizado medidas preventivas como companhas de conscientização. Desconheço qualquer medida educativa por parte da empresa”, afirma a chefa ao atendimento da CEA Jucelene Pelaes da Paixão, 35 anos.

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