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Fechamento de livrarias no Brasil? Precisamos conversar agora

Atualizado: 17 de Jul de 2019

Mercado editorial brasileiro vem sofrendo perdas de grandes redes de livraria nos últimos anos. Crise e novas tecnologias são algumas das explicações para o fechamento de livrarias.


Por Arleson Soares


Livraria Public que se encontra atualmente no Villa Nova Shopping. Foto: Arleson Soares

Não é novidade para ninguém que o consumo de livros físicos vem caindo com o tempo. Entre diversos fatores está entrada de novos meios de leitura no mercado como os e-books, que tornaram o comercio online bem mais rentável do que o físico por exemplo.


O custo dos e-books traz um preço acessível em relação aos livros tradicionais, o que torna a procura maior por esse tipo de serviço. Um livro digital é 27% mais barato que o papel impresso, sendo extremamente atrativo para os clientes. Porém mesmo como um dos fatores que está influenciando o fechamento das livrarias, os e-books não são o único fator, até porque eles estão entrando no mercado a passos lentos.


A crise como fator decisivo nos fechamentos


No Brasil, o Censo do Livro Digital - uma pesquisa realizada em conjunto pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) - mostrou que menos da metade das editoras entrevistadas está investindo no segmento, e que o livro impresso ainda é responsável por 98,91% das vendas no país. Enquanto o livro digital detém apenas 1,9% das vendas no país; os dados são referentes ao exercício de 2016.


Das mais de 21 mil lojas que fecharam as portas em 10 anos, metade delas encerraram as atividades de 2013 para cá. Somente em 5 anos, o número de papelarias e livrarias encolheu 22%.


Esses dados mostram como a crise econômica se tornou o fator principal no declínio das livrarias. Em entrevista a EXAME publicada em 2018, o presidente da Livraria Cultura, Sérgio Herz, afirmou que o setor encolheu 40% na crise econômica, o que levou ao fechamento de lojas e a atrasos nos pagamentos. Mesmo conquistando o público, os e-books não são capazes de derrubar o mercado editorial ainda, pois representa uma pequena parcela de venda se comparado aos livros físicos. Os elevados impostos que caem sobre os livros encarecem o valor final, o que faz o produto ficar pouco interessante para o consumidor, além dos custos que é manter a própria estrutura de uma livraria em um país em crise.



Fonte: CNC

E-book no Brasil


Mesmo caminhando a passos lentos os leitores já demonstram certa aceitação pela leitura digital, tanto pelo custo quanto pela comodidade. Os usuários não precisam mais sair de casa para comprar livros quando se tem uma biblioteca vasta a apenas alguns toques do dedo na tela do seu smartphone, tablet ou Kindle. Esse último, é um leitor de livro digital que vem sendo bastante utilizado assim como outros modelos de leitores nessa nova onda da tecnologia em relação aos livros impressos.


O livro digital não é uma tecnologia nova por aqui. Ele foi criado em 1971 quando o americano Michael Hart montou a primeira biblioteca digital do mundo, porém o formato digital chegou aqui no Brasil apenas em 2009, tendo suas vendas ampliadas por grandes corporações neste mercado como a Livraria Cultura e a Amazon.


Desde então o processo de inserção desse novo modelo de leitura foi passando por adaptações e momentos, mas ainda não alcançou o seu auge no mercado editorial.


Livrarias em Macapá


O dono da Livraria Public, Doriedson Ribeiro, 45 anos, falou sobre a sua experiência na área editorial. “O que acontece hoje em dia na nossa área é que ela expande, então você tem que ir até o cliente. Nós estamos aqui em Macapá porque nós temos pontos fixos, hoje em dia a gente está trabalhando muito com feira. A parte física é um ponto de referência, como a gente que tem exposições na faculdade, em fóruns. Esse é o motivo de nós estarmos crescendo aqui no Amapá”, disse.


Contou também os fatores podem estar influenciando nos fechamentos de livrarias no Brasil. “Na verdade, o livro físico deu uma queda devido aos e-books, assim como os impostos subiram no preço final do livro físico, a logística, tributos trabalhistas. O valor alto para conseguir manter o aluguel, sendo a porcentagem do livro pequena para cobrir esse custo”.


Doriedson Ribeiro acredita que a crise tem influência significativa nos fechamentos de livrarias. Quando questionado se acha que os e-books são um inimigo das livrarias a resposta de Doriedson foi “não”. Contou que inclusive o cliente chega na livraria porque leu algumas páginas do livro digital e acabou gostando da leitura, assim vindo atrás da versão física. Dessa maneira os e-books acabam incentivando o comércio do livro físico. Ao mesmo tempo o cliente pode ler o livro digital, não ficar satisfeito e deixar de comprar o livro físico.


Rentabilidade


“No momento, mesmo a partir da crise o financeiro da nossa livraria está caminhando. O que não pode é ficar atrás do balcão esperando o cliente vir até nós, por isso fazemos panfletagem, distribuímos marca-páginas nas faculdades, então estamos conseguindo manter a nossa empresa devido a isso”, falou Doriedson sobre a rentabilidade da Livraria Public.


Outra livraria que funciona em Macapá é a Livraria Paulinas. Michel Ferreira, Operador de Loja, contou que a Paulinas é uma livraria centenária, onde já tem 105 anos no mercado editorial, sendo a única no estado do Amapá. É uma livraria totalmente católica que atende a esse público, porém mantém um público diverso de clientes, o que mantem o rendimento.


Questão Cultural


O brasileiro em geral não lê livros com muita frequência, as vezes nunca nem sequer leu um livro por completo em toda sua vida e não há nenhuma novidade nisso. O que já torna o comércio e a manutenção de lucro das livrarias no Brasil um negócio arriscado. Como manter uma empresa rendendo em um país que 31% dos seus habitantes não leem livros? Essa é uma pergunta que ajuda a entender como grandes marcas estão fechando suas portas e deixando o mercado físico para focar no comércio online.

A maioria das pessoas ainda preferem livros físicos. Foto: Arleson Soares

A leitora Joyelen Guedes, 20 anos, nos contou que prefere comprar o impresso, porém não tendo dinheiro acaba por utilizar o livro digital. “Gosto da maneira como o livro se encaixa nas minhas mãos. Na versão digital eu forço minha vista e isso é prejudicial, por esse motivo prefiro o físico”, relata.


Pressão contra os descontos

Impostos encarecem o valor final dos livros no Brasil. Foto: Arleson Soares

Em reflexo das medidas adotadas pelas redes de livrarias, a Câmara Brasileira do Livro enviou em 26/10/18 um ofício a Eliseu Padilha, que foi o ministro da Casa Civil até aquele ano. A carta cobra um posicionamento a respeito da medida provisória que pretende instituir a Política Nacional de Regulação do Comércio de Livros. Segundo defende a entidade, a medida poderá ser uma resposta de apoio do governo à atual crise que afeta o setor livreiro no país. A medida determina que o livro deve ser comercializado pelo preço determinado pela editora durante um ano após seu lançamento, impedindo o oferecimento de grandes descontos, como os que são oferecidos por sites como a Amazon, nesse período.

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