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Estudantes produzem biojoias a partir de resíduos de peixe

Atualizado: 27 de Mai de 2019

A produção visa amenizar impactos ambientais e contribuir para a renda local.


Por Benedita Monte

Produção sustentável é o que move estudantes do Instituto Federal do Amapá- IFAP, que confeccionam peças de cerâmica usando resíduos de peixe. Beatriz Melo, Luany Amanajás, Anna Maria Vilhena e Carine Correia são alunas do curso de Técnico em Mineração e descobriram um composto retirado do espinhaço do animal que, misturado ao caulim e argila forma uma massa para a produção de artesanato.

Aluna mostra com orgulho a peça confeccionada foto:/Benedita Monte

O Amapá é um forte consumidor de peixe. O estado possui uma ampla variedade de espécies, o clima da região e os recursos hídricos propiciam a reprodução dos animais. Atualmente, segundo dados da Agência de Pesca do Amapá- PESCAP, há cerca de 200 pisciculturas distribuídas em Macapá que produzem de 2 a 3 milhões toneladas de peixe por ano.


O mercado do peixe se intensifica principalmente na época da Semana Santa com o projeto Peixe Popular. Segundo José Raimundo, estatística da PESCAP, “o Estado investe cerca de R$ 200 mil reais por ação do Peixe Popular e traz de retorno com a produção R$ 1 milhão de reais”.


Mas o grande problema da produção desse alimento é o descarte, cerca de 40% do peixe não é consumido. As sobras do alimento como as vísceras, espinhaço e cabeça são, na maioria dos casos, jogadas em lixões. De acordo com as pesquisadoras Juliana Mota, Marilu Amaral e Greyce Kelly Aparício, o Lixão Municipal de Calçoene recebeu em 2015 por volta de 411.823,91 toneladas de resíduos de peixe. Isso causa um grave impacto ambiental e social, pois, apesar de serem resíduos orgânicos, as vísceras podem colaborar para a produção do chorume, um líquido poluente que afeta o lençol freático.


Pensando nessa causa, a professora do curso de mineração do Instituto Federal do Amapá- IFAP, Lidia Dely, desenvolveu pesquisas sobre a reutilização das sobras do peixe. Segundo a professora não há um descarte ecologicamente correto e esse forte consumo afeta de maneira direta o meio ambiente. “Estudando os ossos verifiquei que podem ser utilizados como fonte de pesquisa na área de mineração porque produz o mineral Hidroxiapatita. Dessa forma a gente tem a diminuição de um impacto ambiental que o Estado possui, que são milhões de toneladas de resíduos de peixe”, declara Lidia.

Copos com a esmaltação no seu tom foto:/Benedita Monte

O projeto recebeu o nome “Ifish” e é composto pelas alunas do curso de mineração Beatriz Melo, Luany Amanajás, Anna Maria Vilhena e Carine Correia. O segmento escolhido pela professora e seu grupo foi a produção de biojoias e copos cerâmicos.

Após um ano de pesquisa, o grupo descobriu o mineral Hidroxiapatita que é muito rico em cálcio. Para a produção do artesanato, os ossos são colocados em alta temperatura para a calcinação e extração do mineral. A substância é adicionada à dois tipos de argila e ao caulim, para formar a massa cerâmica. Após isso ocorre a queima do material e a formação dos moldes, depois retorna para a queima e em seguida a etapa da esmaltação.


As alunas são responsáveis por modelar a massa, pintar e pelo designer dos desenhos nos objetos a inspiração para o artesanato é o meio ambiente. A cerâmica branca é usada para produções mais estruturais e permite a esmaltação, ou seja, a cor do esmalte permanece no seu tom.


As sobras do pescado são recolhidas nas feiras pelas alunas e professora, que passam um dia por semana recolhendo e guardando o material para a produção no laboratório de química aplicada à mineração no IFAP.


Essa preocupação em reaproveitar os ossos do peixe fez com que o grupo de pesquisadoras fosse ganhador de um prêmio do 12º Congresso Norte-Nordeste de Pesquisa e inovação- CONNEPI, que aconteceu na cidade de Recife, em Pernambuco, nos dias 27 a 30 de novembro. O grupo ganhou na categoria do Desafio de ideias, seu empreendedorismo sustentável fez com que elas fossem da 9º colocação até a 1º.


Na maioria das joias a pigmentação é amarela Foto:/Benedita Monte

Segundo Luany Amanajás, uma das alunas que faz parte do projeto, essa pesquisa é um grande passo não só para questões ambientais, como também econômicas. “A produção das biojoias pode movimentar também a economia, porque as pessoas podem começar a produzir e ter uma renda extra”, afirma Luany.


As pesquisadoras do projeto Ifish pretendem fazer oficinas de como modelar a cerâmica branca e oferecer aos consumidores a massa em forma de polpa, com um custo acessível. As biojoias ainda não entraram no mercado, pois as alunas e professora ainda estão desenvolvendo pesquisas de mercado, como custo e público alvo.


O projeto é voltado a uma causa frequente no Amapá, um Estado que é considerado um dos mais preservado do Brasil. A iniciativa do projeto é um novo direcionamento para os restos do peixe e mostra as mulheres na ciência, mulheres preocupadas em conservar um produto cedido pela Amazônia. Além disso, a pesquisa visa aproveitar a Hidroxiapatita que é um mineral rico em cálcio e que estava sendo desperdiçado. “A Hidroxiapatita é um produto muito rico e pode ser aplicada em outros seguimentos industriais”, afirma Lidia Dely, orientadora do projeto.


“Os resíduos têm uma ampla utilização, como em farinhas próprias para peixes e também outros seguimentos”, considera José Raimundo, estatística da PESCAP. Diversos profissionais ressaltam a riqueza dos restos do pescado e o quanto jogar esses resíduos em aterros é desperdiçar um produto que pode além de contribuir para a economia, amenizar impactos ambientais.


As biojoias são produzidas pelas alunas que compõem o projeto Ifish a partir da massa de cerâmica branca. A esmaltação é mais fácil nesse esse tipo de cerâmica, pois a cor do esmalte permanece no seu tom e com brilho muito forte. As cores mais usadas pelo grupo são rosa e amarelo por conta da pigmentação.

A arte é desenhada por todas as alunas do projeto, cada uma fica com uma quantidade de peças e usam do seu imaginário para criar o designer dos produtos. As pinturas são flores, plantas, animais e variados, como diamantes, balões e bicicletas. A inspiração que leva as alunas a desenvolverem os desenhos vem das redes sociais e da Amazônia.


As peças são em sua maioria pingentes, que possuem muitas formas, como a de corações, triangulares, quadradas e redondas. Os cordões contam os pingentes e algumas miçangas para adornar a joia. Os copos de cerâmica tem um bom acabamento e pintura de cor forte. O projeto ainda tem poucas peças devido à continuidade das pesquisas que visam aperfeiçoar a massa para a produção das biojoias.


Toda a produção acontece no Laboratório de Química aplicada a Mineração, no IFAP. Um espaço que fazem suas pesquisas, formam a massa e confeccionam as joias. Todo o processo é feito com a presença da professora Lidia Dely.


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