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Escola Barão do Rio Branco: 73 anos de história

Atualizado: 18 de Jun de 2019

A escola de alvenaria mais antiga de Macapá completou 73 anos no dia 20 de abril, e carrega em sua estrutura as marcas da história e do descaso do poder público.


Por Vithória Barreto - editora de Educação na Revista Digital Tajá


No Brasil, em 1946, o longo Estado Novo de Getúlio Vargas chegava ao seu fim no país. Mas neste mesmo ano, no Território Federal do Amapá, a história da educação dava seus primeiros passos. Por meio de um decreto do então governador Janary Gentil Nunes, surge o Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em 13 de setembro de 1946. Este, antes havia se chamado Grupo Escolar de Macapá e funcionou em vários pontos do centro da cidade antes de se estabelecer completamente no prédio na Avenida FAB.


Escola Barão do Rio Branco. Foto: Acervo do IBGE

O diplomata brasileiro que deu nome ao colégio foi José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, que também era advogado, historiador e jornalista. Teve papel decisivo na questão fronteiriça do Amapá com a Guiana Francesa.


Arquivo Pessoal: Doval Tomaz

Segundo o historiador e professor da escola Barão, Doval Tomaz de Brito (43), a construção da escola se inseriu no contexto de desenvolvimento urbano do governo de Janary Nunes, que tinha como lema: “Sanear, Educar e Povoar”, baseado na política de Vargas para os territórios federais que ele criara no país.


De acordo com o historiador, “o entorno da escola precisou ser adequado à proposta de modernização de Janary. Com isso, o centro histórico de Macapá perdeu completamente as características coloniais, passando a ter uma característica “janarista”. Hoje, os únicos lugares do período colonial que ainda existem são a Igreja São José e a Fortaleza de São José de Macapá”.

Sala do jardim de infância da Escola Barão, no anexo direito da escola.

Após a inauguração da escola, várias instituições públicas usaram partes do prédio como anexo, que comportou órgãos administrativos do governo territorial, também foi sede do Colégio Amapaense antes de ter seu prédio próprio na Av. Iracema Carvão Nunes, Biblioteca Pública Elcy Lacerda, e o Cine Teatro Territorial, que além de cinema, teatro, e palco para shows musicais, era auditório e trazia o público macapaense para assistir e participar dos programas que a Rádio Difusora organizava.


Prestígio e tragédia


De acordo com o professor Doval Tomaz, na época do Território do Amapá, o Grupo Escolar Barão do Rio Branco e as escolas construídas posteriormente no centro da cidade eram muito bem vistos e valorizados pelo governo, pois era onde os filhos dos trabalhadores e de pessoas do alto escalão do território estudavam. A instituição atendia crianças desde o jardim de infância e adolescentes, e posteriormente trabalhou na educação de jovens e adultos – EJA.

Estudantes brincam na frente do prédio.

Com o crescimento urbano e populacional de Macapá, a clientela das escolas foi aumentando e a banalização da violência cresceu na área central de Macapá. Por volta dos anos 90, a escola atendia nos três turnos. No final do ano 2000, a comunidade escolar foi surpreendida com o assassinato de um professor da escola por um aluno.


No episódio, o estudante teria sido reprovado na disciplina de matemática. Insatisfeito, exigiu que o professor tirasse a reprovação. Não havendo a resposta desejada, o aluno prometeu vingança e em certo momento, assassinou o professor de matemática Júlio Cardoso de Souza, desferindo várias facadas nas costas da vítima. Este caso foi decisivo para que a escola encerrasse as atividades no turno da noite, passando a dar aulas apenas pelos turnos da manhã e tarde.


Esquecimento


O prédio da escola Barão, nunca passou por reformas significativas, tendo apenas ampliações ao longo do tempo. Isto fez com que o local perdesse suas características históricas. Para o professor Doval Tomaz, isso dificulta o processo de tombamento da escola pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o (IPHAN).


– Todos os segmentos sociais consideram a escola Barão como patrimônio histórico, mas o governo não se preocupou em manter a qualidade da infraestrutura da escola. Portas e janelas quebradas, cupins e forros danificados. Então fizemos um grande movimento para exigir a reforma da escola com a parceria de vários órgãos públicos e da sociedade – ressaltou o professor.

A escola em funcionamento no prédio original, 2010.

Em 2013, o então governador do estado, Camilo Capiberibe acatou a exigência e deu início ao processo para a reforma da instituição. Todos os trabalhos foram remanejados para um prédio provisório situado na Av. Iracema Carvão Nunes, sendo o da avenida FAB interditado para uma reforma que não havia iniciado até o começo de 2019. Houve uma redução de mais de 50% na quantidade de alunos. No prédio original eram atendidos mais de 1.100 estudantes de ensino fundamental I e II. Com o remanejamento para o provisório, são pouco mais de 500 alunos matriculados.


Atualmente o prédio original está tomado pelo mato e lixo, desde a sua interdição tem sido abrigo para usuários de drogas. Teve muitas partes destruídas, como o busto de José Maria Paranhos da Silva Júnior, o Barão do Rio Branco, diplomata brasileiro de grande importância para o Amapá, que fica logo na entrada do prédio.

Gratidão


O engenheiro florestal André Tavares (26), começou a estudar na Escola Barão na metade de 1997, quando tinha apenas 4 anos de idade. 10 anos da sua vida foram na escola, que segundo o engenheiro, tanto tempo o fez criar laços afetivos com a instituição e seus servidores.


Arquivo pessoal: André Tavares

“Até hoje tenho muito apreço pelas pessoas que trabalhavam na época que estudei no Barão. Os serventes e professores, como o professor Doval Tomaz e o professor Francisco Santos, são pessoas que tenho grande admiração. Foi um período da minha vida muito importante, os amigos que levo até hoje estudaram lá comigo e tudo que eu sou hoje eu devo à instituição”, afirma André.


O engenheiro conta com orgulho que o esporte o influenciou a ser sempre persistente no que quer. André era do time de vôlei do Barão, e coleciona medalhas das diversas competições esportivas que participou: "Algo que aprendi jogando pela escola foi sempre lutar pelo que eu quero, através do esporte aprendemos isto. Nas competições a torcida do Barão era grande e lotava o Ginásio Avertino Ramos. Esse tempo marcou bastante, pois representávamos a escola que fazíamos parte e o time de vôlei era formado por alunos que estudavam há bastante tempo na escola", declara André. Em 2008, ano que André concluiu seus estudos no colégio, o time de vôlei do Barão do Rio Branco levou o título de campeão dos Jogos Escolares.

Atual prédio que abriga os alunos e as atividades da escola. Foto: Fabiana Figueiredo

O abandono do prédio original é motivo de indignação para André, que chama atenção para os ex-alunos da escola que hoje são políticos do estado e não se movimentaram pela manutenção da instituição: "Esta questão gera bastante revolta, pois estas pessoas de notoriedade no estado cresceram na instituição e não se importam com o prédio que é super importante para a nossa história”.

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