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Eleito em 2018, Bolsonaro ainda leva milhares às ruas

Atualizado: 17 de Jul de 2019

O Presidente enfrenta uma onda de protestos contra suas polêmicas medidas,

mas ainda encontra apoio em boa parte da população.


Por Rudja Santos

Em 2018 o Brasil foi as urnas para eleger seu novo Presidente e o país se viu dividido. O resultado foi a eleição do candidato pelo Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro. Depois de uma campanha polêmica, marcada por um atentado contra a sua vida, o candidato ganhou admiradores pelo Brasil e claro, também ganhou críticos. Seis meses após a posse, já é possível ver com maior clareza a que veio o Governo Bolsonaro. Dentro diversas medidas anunciadas, se destacam a reforma da previdência e o corte de 30% no orçamento das instituições federais de ensino superior, em todo país.

A reforma que prevê mudanças em aposentadorias, benefícios sociais e assistenciais que são concedidos aos cidadãos, é duramente criticada por, dentre outros motivos, aumentar a idade mínima necessária para solicitar a aposentadoria e reduzir o valor do benefício para quem o solicitar antes de alcançar a idade mínima. Assim como a reforma da previdência, o corte nas verbas para instituições federais gerou bastante desconforto. Diversas universidades e institutos federais já anunciaram corte de bolsas, fechamento de departamentos inteiros e até o cessamento das atividades por completo no segundo semestre de 2019. Diante desse cenário, surgiram manifestações em apoio e contrários aos atos do Governo Bolsonaro. No amapá, aliados e opositores fizeram questão de se manifestar em atos que mobilizaram milhares de pessoas, sendo que as manifestações contra o presidente aconteceram nos dias 14 e 30 de maio, e o ato a favor aconteceu dia 26 do mesmo mês. Estivemos nas manifestações do dia 30 e 26 de maio.


O apoio


Foto Rudja Santos: Manifestante pró Bolsonaro participa de culto evangélico em nome do Presidente

À alguns metros da praça do côco já era possível ouvir o culto evangélico que ressoava distante. O sol já tímido ainda emitia alguns raios , enquanto o Pastor Guaracy Jr pedia a Deus que guiasse o Presidente Jair Bolsonaro. O Culto-ato organizado pelo PSL-AP em maio, reuniu segundo a PM, 100 pessoas. Os organizadores contaram 1 mil. Do outro lado da orla da cidade, 5 mil pessoas, segundo a PM e os organizadores, se reuniram no Parque do Forte com o mesmo objetivo de demonstrar apoio ao Presidente. Um mini trio carregava uma dezena de pessoas que proferiam diversos elogios ao Presidente Jair Bolsonaro e tentavam explicar o motivo do apoio ao governo.


Foto Rudja Santos: Um mini trio foi usado para que os manifestantes pudessem demonstrar apoio a Bolsonaro

Um dos organizadores do evento no parque do Forte, o empresário Eduardo Siqueira, 52 anos, afirma que o ato teve o objetivo de demonstrar o apoio a questões como a reforma da previdência e pacote anticrime, que segundo ele, chegam ao conhecimento da população muito distorcidos. “O plano de governo é direcionado a classe mais carente, infelizmente as pessoas distorcem a real situação, como dizer que vai passar a ganhar 400 reais ao invés de 1 salário.

O governo quer apenas elevar a idade e dar apenas uma parte do dinheiro se a pessoa tiver a necessidade de receber um valor até completar a idade”, disse ele. Eduardo falou ainda sobre o corte nas verbas para a educação superior. Apesar de nunca ter frequentado uma Universidade Federal, o empresário acredita que os alunos são mal informados e induzidos por reitores e diretores a participarem de manifestações em protesto aos cortes. Para Eduardo, o que interessa para o aluno é um estudo de qualidade onde aprenda aquilo que quer e não o que os professores querem induzir. “A maioria dos professores quer botar a doutrina de Marx”, afirma ele, o que na sua opinião, é um absurdo. Eduardo afirma que o número de pessoas no ato pró-Bolsonaro foi menor do que na campanha eleitoral, por que o amapaense é muito acomodado e não vê necessidade de manifestações.


Foto Rudja Santos: Organização do evento e PM contabilizaram 5 mil participantes no ato

Apesar dos atos em apoio ao governo terem acontecido em todo o País, é possível encontrar quem não esteja tão satisfeito assim com a escolha feita nas urnas em 2018. Uma pesquisa divulgada em maio de 2019 pela consultoria Atlas Político, afirma que a desaprovação do Governo Bolsonaro superou pela primeira vez a aprovação: 32% dos entrevistados considera a gestão “ruim” ou “péssima”, contra 28,6 % que consideram “ótima” ou “boa”.


O governo também perdeu crédito no mercado financeiro e uma pesquisa feita pela XP investimento mostra que a percepção ótima ou boa do governo saiu de 86% em janeiro para 14% em maio. A sondagem ouviu 79 empresários, economistas e consultores. No Amapá, o advogado Joyson Monteiro, 29 anos, votou em Bolsonaro, segundo ele por falta de opção no segundo turno. Sobre o desempenho do governo, Joyson diz que, “Tem acertos e erros como qualquer governo, infelizmente ele não governa só, depende do congresso”, O advogado aponta como pontos positivos do governo, a proposição de reformas necessárias sendo ou não populares, e como ponto negativo, a atuação do próprio Bolsonaro nas redes sociais, falta de autocrítica e a “falta de pulso” com os filhos.

Ainda assim, existem muitas pessoas que apoiam as decisões do presidente incondicionalmente como o contador Thyago Fonseca, 25 anos, que afirma ter votado em Bolsonaro por um país melhor, com mais educação e melhoria na saúde pública e contra a violência. Thyago culpa os governos anteriores, pelo que chama de “Um país quebrado”. Apesar de declarar total apoio ao governo, o contador diz que os pontos positivos ainda não são muitos, já que “são poucos meses de governo”.


A rejeição

Foto Rudja Santos: Jovens marcharam em protesto ao corte de verbas para as instituições federais

No final do mês de maio no coração da capital amapaense, pessoas começavam a chegar em grupos ou sozinhos, alguns carregavam faixas e cartazes com dizeres como “Lute como um estudante”, e começavam a encher a praça da Bandeira, mesmo debaixo de um sol cruel. Movimentos sociais e grupos de estudantes se reuniam para protestar principalmente contra o corte no orçamento da educação, anunciado pelo Governo Federal.


Um dos idealizadores da manifestação, o estudante de geografia na UNIFAP, Rafael Serra, 23 anos, afirma que a manifestação foi convocada por diversas frentes e teve como objetivo questionar medidas consideradas abusivas do Governo. A manifestação começou concentrada na praça da Bandeira e seguiu em caminhada até a orla da cidade, enquanto os manifestantes entoavam palavras de protesto direcionadas ao presidente Jair Bolsonaro. Quando a noite já caia, uma chuva violenta começou a castigar quem ainda participava do ato. A manifestação chamada pelos participantes de 30M, não teve uma contagem oficial dos presentes, porém segundo os organizadores, foi um sucesso.


Foto Rudja Santos: Cartazes com frases como “lute como um estudante” foram usados pelos manifestantes

Mesmo debaixo de chuva, a estudante de ciências ambientais da UNIFAP, Sabrina Isacksson, 31 anos, afirma que participa da manifestação por achar justo que esses cortes sejam questionados. “Jamais iria pra uma manifestação de pessoas que querem ir pra Disney”, disse ela. A estudante ainda afirma que educação é a forma de mudar a vidas das pessoas, e que mudou a sua vida quando ingressou na universidade em 2017. “Isso passou a ser a minha vida, ganhei uma profissão, uma coisa pra me inspirar e um objetivo de vida”. Sabrina conta ainda que vem sofrendo com crises de ansiedade por conta da incerteza do funcionamento futuro da universidade. “São crises de ansiedade, confusão mental e suores, adoecimentos incomuns e palpitação. Está sendo muito difícil conviver com isso, pois tudo que a gente sonha dentro da UNIFAP está ameaçado”.


Foto Rudja Santos: A estudante Sabrina Isackson participou da manifestação e afirma estar preocupada com a situação do país.

Essas manifestações expõem a divisão que existe hoje no País. Segundo o Jornalista e Especialista em Ciência Política, Silvio Sousa, 37 anos, o governo está perdido. Silvio acredita que uma parcela do povo amapaense está satisfeita com o governo, mas diz que é possível que a população uma hora canse dos tropeços de Bolsonaro. “Há quem diga que votou no presidente para que ele fizesse exatamente o que está fazendo: uma cruzada contra o comunismo, o petismo e o marxmismo. Mas acredito que uma hora isso vai cansar e as pessoas vão querer resultados. Segundo o IBGE, há pelo menos 14 milhões de pessoas cozinhando no fogão a lenha por não conseguirem comprar um botijão de gás, o dólar está acima dos 4 reais e tudo mais caro no supermercado. Uma hora as pessoas vão exigir que o presidente comece a resolver os problemas”, afirma Silvio. O Especialista vê pontos positivos no governo, como a reforma da previdência, mas questiona o estímulo ao uso de armas e a “indústria da morte”, e o ataque às universidades.

A respeito do voto amapaense, o Jornalista crê nos votos em Bolsonaro não pelas propostas, mas sim pelo sentimento anti-PT, além de uma identificação do discurso do candidato com o pensamento do eleitor. “O candidato disse aquilo que uma parcela do eleitorado sentia, mas não tinha coragem de dizer. Bolsonaro assumiu ser homofóbico com muito orgulho, elogiou a tortura no regime militar, entre outras coisas inimagináveis de se dizer até então. Ele teve seu mérito: Soube despertar o que havia de pior no brasileiro e transformou isso em voto.”

Apesar dos problemas, o especialista em ciência política acredita que Bolsonaro permanece na presidência até o final do seu mandato, mas com força reduzida pelo Congresso, com o presidente da câmara dos deputados Rodrigo Maia como chefe do governo de fato e Bolsonaro apenas um líder figurativo como a Rainha da Inglaterra.

Enquanto isso, resta à população Brasileira, apoiadores ou não do Governo, aguardar as consequências das medidas anunciadas pelo Governo Federal.

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