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Cultivo orgânico na Fazendinha se torna opção para consumo consciente

Produção de alimentos orgânicos no Amapá resiste a falta de incentivo do estado e projeto de lei que beneficia empresas de agrotóxicos


Por Dellano Carvalho e Fabio Tomaz


Alimentos sem veneno, solo e água preservados, e qualidade de vida para os produtores e consumidores são alguns dos benefícios da agricultura orgânica que vem crescendo no Brasil. Esse tipo de cultivo mais natural ainda enfrenta grandes desafios, principalmente das empresas de agrotóxicos e da bancada ruralista que visam o próprio lucro e produção massiva de alimentos nada saudáveis.


Horta do Seu Domingos

Apesar do pouco incentivo, principalmente por parte do estado, de 2007 a 2013, o mercado de alimentos orgânicos passou de 118 milhões para 700 milhões. Mesmo assim, esse valor representa apenas 0,5% de toda a indústria alimentícia no Brasil. O número de produtores também cresceu, sendo 7.959 produtores em 2013, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) que, desde 2012, cadastra todos os produtores de alimentos do país.

O cultivo de orgânicos objetiva a produção de alimentos de forma mais natural possível, sem agredir a biodiversidade, utilizando lixo orgânico, energia renovável e técnicas de cuidado com o solo, além de, não usar agrotóxicos que afetam as plantas e que chegam ao prato de milhares de brasileiros.

A Engenheira ambiental Suellen Facundes

Segundo a Engenheira Ambiental, Suellen Facundes, no orgânico, “na proteção contra as pragas são utilizados fertilizantes naturais como a adubação através de leguminosas fixadoras de nitrogênio, adubo orgânico proveniente da compostagem, minhocultura, manejo de vegetação nativa, rotatividade de culturas. Esses processos são bastante importantes para a nutrição da terra”. Porém, tudo isso não gera tanto dinheiro como o agrotóxico que afeta a saúde não só quem ingere o alimento, mas quem manuseia inseticida, herbicida e pesticida diariamente.

E foi, depois de anos, pegando em veneno e com medo de morrer, que o produtor Domingos Gomes da Silva mudou (57), em 2007, da agricultura tradicional para vender alimentos orgânicos na Fazendinha, distrito de Macapá, capital do Amapá.

“Foi preciso mudar porque em uma época fui quase morrendo de tanto pegar em veneno. E hoje eu posso falar de veneno porque eu trabalhei com ele e hoje falo com propriedade que mata! ”

O contato dos produtores brasileiros com veneno é muito grande em relação à União Europeia, por exemplo. Segundo o dossiê ABRASCO, o uso de inseticida (Acefato) na soja é 3,3 vezes maior no Brasil do que na Europa, enquanto que o uso de inseticida (Malationa) no feijão brasileiro é 400 vezes. O veneno também é encontrado na água potável. A presença da herbicida também é 20 vezes maior no Brasil do que Europa.

Seu Domingos afirma que o mundo é capitalista e, para o Governo, o importante é o dinheiro vindo dos impostos das empresas de agrotóxicos e a produção rápida de alimentos, “ninguém mais tem paciência”.

“As pessoas acham caro. Elas não têm costume de conhecer o orgânico e acham que é tudo igual”. Seu Domingos.

Agrotóxicos no Brasil


Segundo o Atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” do Laboratório de Geografia da USP, o Centro-Oeste é a região que mais utiliza agrotóxicos no Brasil com 334.628 toneladas por ano. Em seguida vem o Sul com 224.911, o Sudeste com 188.512, o Nordeste com 101.460 e por último a região Norte com 2.871 toneladas por ano.

Neste mesmo quesito, Mato Grosso é o estado que mais usa agrotóxicos no país sendo 191.439 toneladas. Na outra ponta, o Amapá utiliza somente 80 toneladas por ano.

O ranking muda com relação aos estabelecimentos que mais usam agrotóxicos com destaque o Sul é a primeira região contabilizando 632.756 estabelecimentos. Já o Centro-Oeste ficou em último com um total de 63.932 estabelecimentos.

Com relação aos estados, no Rio Grande do Sul, 285.834 estabelecimentos vendem agrotóxicos. Esse número representa, aproximadamente, 67,01% do total de estabelecimentos do estado. Por fim, no Amapá, o agrotóxico é vendido em 297 estabelecimentos, representando 9,15% dos estabelecimentos comerciais.

No Brasil, três dos agrotóxicos mais usados em plantações são proibidos na Europa. Paraquate, atrazina e acefato estão presentes no arroz, feijão, café, maçã, banana, milho e soja. Estudos já confirmaram a relação desses agrotóxicos com doenças como depressão e o câncer, mesmo assim, uma lei em votação pode aumentar a venda deles no país.

Lei 6.299 ou Pacote do Veneno


A primeira lei que regulamentou o agrotóxico no Brasil foi de Nº 7.802, de 11 de julho de 1989. Posteriormente, foi propostas alterações através do Projeto de Lei de N° 6.299 de 2002, chamada pelos críticos de “Pacote do Veneno”, que flexibiliza a fiscalização e o uso dos agrotóxicos. O PL foi aprovado pela Comissão Especial da Câmara por 18 votos a 9, em junho de 2018, mas ainda será votada no plenário da Câmara.

Essa atualização da lei de 1989 foi proposta pelo então ministro da agricultura, Blairo Maggi, e é duramente criticada por órgãos do Meio Ambiente que temem maiores prejuízos com o uso do agrotóxico, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Entre as mudanças propostas está a substituição do uso do nome “Agrotóxico” para os termos "defensivos agrícolas" e "produtos fitossanitários". A mudança se adequa aos padrões internacionais de nomenclatura. Entretanto, opositores alertam para a mudança que mascara o perigo que são os agrotóxicos.

Outra mudança é o maior poder concedido ao Ministério da Agricultura para aprovar a liberação de novos produtos no país. Atualmente, para serem liberados, os agrotóxicos precisam passar pelo IBAMA e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Os agricultores também ganharam mais liberdade para usar alguns produtos na lavoura sem precisar prescrever o agrotóxico, como acontece hoje.

Quem perderá poder de fiscalização serão os Estados e o Distrito Federal que não poderão restringir a distribuição, comercialização e uso dos produtos liberados pelo Ministério da Agricultura. Atualmente, os Estados têm autonomia para fazer a própria fiscalização do uso.

Para os agricultores e os parlamentares a favor do Projeto de Lei, as novas medidas visam aumentar a produtividade de alimentos no país mantendo a redução de custos.


Consequências do uso


O agrotóxico tem efeitos devastadores tanto na saúde das pessoas que ingerem alimentos contaminados quanto no ecossistema de todo o planeta.

Os mais afetados pelo veneno são insetos importantes para a reprodução de plantas, como as abelhas. E o aumento da morte delas se torna cada vez mais preocupante.

Nos Estados Unidos e na Europa é observado casos de morte e sumiço desse inseto desde o início do século. No Brasil, em três meses, mais de 500 milhões de abelhas morreram em apenas quatro estados. Segundo estimativas da Associação de Apicultura, Secretarias de Agricultura e pesquisas realizadas por Universidades, o Rio Grande do Sul apresentou maior número de abelhas mortas sendo 400 milhões, seguido de Santa Catarina com 50 milhões e São Paulo com sete milhões.

A polinização realizada pelas abelhas é importante para a reprodução de diversas espécies de plantas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem da polinização.

O sapo-com-garras-africano também é um dos animais afetados pela Atrazina, este agrotóxico afeta o animal diminuindo o nível de testosterona, e a produção de esperma fica comprometida, transformando os machos em fêmeas.

Além do perigo para a natureza, os agrotóxicos provocam inúmeras doenças na população de países que ainda permitem o seu uso.

Segundo estudos realizados pelo Centro de Controle de Intoxicações em Marselha, na França, o Paraquate, provocou envenenamentos graves e fatais de forma direta e indireta. O agrotóxico foi ingerido por 34 pessoas como forma de cometer suicídio. Dessas pessoas, 10 morreram nas primeiras 24h, o restante ao longo do primeiro mês. Porém, o veneno também está associado ao desenvolvimento da depressão nessas pessoas, segundo a biomédica Karen Friedrich.

Aqui no Brasil, a ANVISA classificou o Paraquate como extremamente tóxico e já proibiu o uso do agrotóxico, que deve ser banido definitivamente até 2020. Entretanto, a fabricante suíça Syngenta, tenta reverter a proibição do produto através políticos como a atual ministra do Meio Ambiente e da Agricultura Tereza Cristina (DEM/MS), além de outros integrantes da bancada ruralista.

Outro agrotóxico é o Acefato, quarto agrotóxico mais usado no Brasil, com 27 mil toneladas somente em 2017, e que pode afetar o desenvolvimento dos genes, estando associado a casos de câncer, e podendo passar de pai para filho, segundo um artigo publicado pela Escola de Medicina da Universidade de Louisville, nos EUA.

Conhecimento compartilhado


Após anos em contato com agrotóxicos, Seu Domingos além de plantar alimentos orgânicos também ensina para quem quer aprender como reutilizar o lixo orgânico de casa como adubo e a melhor forma de tratar o solo sem agredi-lo.

“Pode vim na hora que quiser que tenho o maior prazer em ensinar, porque já botei na cabeça que se alguém me ensinou, quero ensinar para alguém”.

Seu Domingos aprendeu através de uma capacitação de empreendedorismo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e de projetos com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Hoje, ele é um grande incentivador da educação ambiental. Sempre que pode, ele busca ensinar as pessoas e orienta a preservação do meio ambiente pessoal ou através de palestras.

“O meio ambiente está sendo contaminado diariamente e nós temos que conscientizar começando pela escola”. Seu Domingos.

Seu Domingos é agricultor há 18 anos, porém somente em 2007 aprendeu a fazer o orgânico.

“É muito importante falar do meio ambiente e também cuidar dele. Aqui em Macapá, 30 toneladas de lixo são jogados no canal? Isso é uma irresponsabilidade muito grande da população. Cada um tem que se conscientizar que estão fazendo mal pra água, pro peixe, pro homem e pro meio ambiente. Então, nós que somos responsáveis pelo meio ambiente”.

Seu Domingos possui uma página no Facebook chamada “Mundo das Plantas - Fazendinha” onde também compartilha conhecimento sobre meio ambiente. Por lá, pessoas de outros países, como Angola e Madagascar, já entraram em contato com o produtor para saber sobre plantação orgânica e cuidados com o meio.

“As pessoas assistem meus vídeos pelo Facebook, então não é só na Fazendinha que contribuo não, mas em vários lugares do Brasil e do mundo. Eu não tenho conhecimento pra esconder, tenho pra passar”.

Os produtos orgânicos

Em sua horta, Seu Domingos cultiva diversos tipos de plantas como Babosa, Menta Hortelã e Mira. Uma de suas compradoras é a dona de casa, Alessandra Santos (28), que há cinco anos consome produtos orgânicos. Para ela é importante manter a qualidade de vida eliminado produtos que são tratados com agrotóxicos. “Evitando o consumo excessivo desses alimentos, nos garante uma melhor disponibilidade de saúde e garantindo uma vida mais saudável”.

Segundo o site Planeta Orgânico, o consumo de orgânicos vem aumentando cada vez mais e as mulheres são as responsáveis por 70% na hora de decidir sobre a qualidade dos produtos, já que a saúde de seus filhos é prioridade. Com isso, a opção por produtos que não contêm agrotóxicos tem elevado a busca pelas produções orgânicas.

O perfil dos consumidores de produtos orgânicos é bem variado, porém, buscam um só objetivo, mais qualidade de vida e, embora sentindo a pressão de grandes indústrias de agrotóxicos e de políticos, os produtores vêm se mantendo no mercado e ganhando novos consumidores.

Uma das principais dificuldades que produtores orgânicos enfrentam é a falta do Selo de Produção Orgânica concedido pelo Governo Federal. O selo permite maior comercialização dos produtos para terceiros, como restaurantes e supermercados. Atualmente, sem o selo, seu Domingos só pode vender diretamente para o consumidor nas feiras.

Seu Domingos sonha com a maior conscientização do homem com o meio ambiente. “O meio ambiente começa da nossa casa”. Mas que se depender dele, todos terão conhecimento sobre o cuidado com a coisa que é mais importante, a natureza. “Eu vou morrer falando do meio ambiente. Eu sou um pingo d'água, mas um pingo também molha, quem sabe minha voz também é ouvida, né?” finaliza Seu Domingos.



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