• Tajá

Crônica da Democracia Tucuju

Por Renato Atayde


Quando a humanidade surgiu, com ela surgiu também a necessidade de poder. Sim, aquele por qual muitos suspiram, sonham, e até dedicam a vida. Claro que com o poder, vem as benesses, a riqueza e a fama. Ao longo da história, esta tal “humanidade” sempre foi bem desumana. E coube ao malvadões, os bárbaros, a tarefa de mostrar ao mundo, que para se chegar ao poder, podia se utilizar de um pouquinho de violência, e destes sem dúvida que Átila o huno, foi o mais famoso, justamente pela escalada de violência que utilizou para conquistar as terras.


Os gregos, cansados – pelo menos eu acho – de tanta violência, e tanto derramamento de sangue, mais especificamente os atenienses, decidiram criar um novo modo de disputar o poder, e então surgiu a democracia. Mas o que eles não sabiam, era que aquele sistema de governo, que permitia a participação de muitos, seria responsável por um dos fatos mais notórios da democracia moderna das terras tucujus, o retorno das batalhas campais, no melhor estilo bárbaro, e assim a democracia deu origem aos sopapos pela presidência da Câmara Municipal de Macapá - CMM.


Em Atenas, logicamente que falo do século VI a.c. o poder ficava nas mãos dos eupátridas, uma elite econômica detentora de terras e escravos. Coube a uma série de políticos como Clistenes, Solon, Eflaltes e Pericles, a transferência gradual do poder, retirando dos Areópagos, nome dado as assembleias dos eupátridas, para a assembleia do povo, chamada de Eclésia. Claro que a CMM, pode ser um misto destes dois polos, digo, seria uma espécie de Eclésia ocupada por eupátridas.


Com a criação das Eclésias, os políticos foram obrigados a se tornarem persuasivos nos debates, surgindo assim os sofistas, profissionais na arte da retórica e persuasão, que certamente, em nada influenciou os “nobres” vereadores de Macapá. Estes eram criticados por Platão e Sócrates, os sofistas e não os nossos nobres vereadores, pelo fato de que em suas argumentações valia de tudo para convencer, inclusive mentir. Somente neste último, é que sofistas e vereadores são semelhantes.


Já os romanos, herdeiros do pensamento político grego, criaram um sistema misto, que misturaram elementos democráticos com oligárquicos, e claro, iniciaram um processo que viria a ser aprimorado pela democracia brasileira, o chamado conchavo, ou acordo de bastidores, ou mesmo e mais famoso, toma-lá-dá-cá.

Sim, obviamente que cada povo, deu sua pitada de contribuição para que a democracia pudesse se tornar o que é hoje, inclusive nós, esse povo alvissareiro, não se furtou desta tarefa histórica, e com sua ginga de capoeira e seu samba no pé, introduziu na democracia, o jeitinho brasileiro.


Mesmo sendo uma importante contribuição, o Brasil, ao que parece, decidiu ampliar sua importância histórica para a humanidade e para a democracia, e colocou sobre os ombros dos mais de 400 mil macapaenses a responsabilidade de aprofundar experiências democráticas, só que destes, apenas 23 iluminados, herdeiros dos antigos pensadores e filósofos, foram “obrigados” pelo povo a usar todos os métodos possíveis, para enriquecer ainda mais, esta obra prima grega.


Pois bem, sendo assim, se os romanos através de Octaviano, que posteriormente se transformou em Cezar Augustus, democratizaram o poder, passando decisões importantes para os governadores, em Macapá, no Senado Romano Tucuju, os nobres Yurius Pelaris e Caetanus Bentius, introduziram um elemento que se aplicado como regra, pode revolucionar as casas de leis por todo o mundo.


Obviamente que não é algo novo, mas o sopapo, também conhecido por monhecaço, safanão, tabefe, entre tantos outros nomes, agora é um objeto de aprofundamento democrático. Sério gente, pois vejam, antes a eleição da Presidência da Mesa Diretora da Câmara de Vereadores, era feita estritamente pelos vereadores. Mas desta vez, o “sopapo democrático” permitiu que dezenas de pessoas ajudassem na eleição, em uma distribuição, democrática, de tapas, tabefes, chutes, mordidas e dedos nos olhos, que deixariam Átila o Huno, envergonhado por usar de tão pouca violência, para chegar ao poder.


Claro que em meio a tudo isso, o que mais chamou atenção, foi o voo realizado pelo nobre Alciney Macielius, que desesperado, saltou sobre a mesa, para participar da grande “festa democrática”, a ele, somaram-se tantos outros nobres vereadores, menos um. Aquele que aplicou técnicas romanas de democracia, e enquanto a pancadaria rolava solta, o vereador Marcelus Dias, conchavava, e ao término da troca dos catiripapos, se elegeu presidente. Um mestre na arte da democracia conchavista romano tucuju.


Charge Renato Atayde

Por fim, foram lindas as cenas transmitidas ao mundo, via redes sociais, pelos telejornais, com direito a vídeos que analisavam até os golpes utilizados por nossos pugilistas, digo, vereadores. Sem dúvidas, que nenhum dos grandes pensadores e filósofos, conseguiriam imaginar, que seria plenamente possível a mesclagem da democracia de Platão, Sócrates e Aristóteles, com a violência física e a ignorância de Átila, dando uma pequena pitada das tramoias romanas com a malandragem brasileira, serviriam para o surgimento deste novo modelo de democracia, que leva a conquista do poder mais rapidamente. Só nos resta agradecer a estes nobres democratas.

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