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Cortes na Educação! Um retorno a Escola dos Escribas!

Por Renato Atayde


Para muitos, a primeira universidade foi a escola dos escribas sumérios, surgida por volta de 3500 a.C, mas ensinava apenas matemática e uma escrita muito primitiva feita pelos próprios sumérios através de pictogramas escritos em tabuletas feitas de argila, que podiam ser torradas em fogo para durar mais. Eram escritos com uma espécie de estilete, feito com cana para facilitar a escrita.


Platão foi quem criou um conceito mais moderno - academia - em 387 a.C. Ali se ensinava matemática, ginástica e sobretudo, a filosofia. Mas cada filósofo, criava sua escola para ensinar seus conhecimentos e não para debater o conjunto de pensamentos filosóficos, criados até então.


O conceito mais próximo do que hoje conhecemos por universidade, foi a Universidade de Nalanda, que surgiu na Índia no século V, e chegou a contar com 10 mil alunos e cerca de 1500 professores, que ensinavam astrologia, filosofia, alquimia, matemática e até anatomia. Os filósofos budistas promoviam debates com os mais diversos temas.


No Brasil, historiadores afirmam que as primeiras Escolas de Ensino Superior surgem em 1808, com a Escola de Direito em Olinda-PE, a de Medicina na Bahia, e a de engenharia no Rio de Janeiro, que apresentavam currículos no modelo francês. Somente em 1900 surgem as primeiras faculdades de Filosofia, que preparavam os professores para a escola secundária.


Vemos assim, que a história da produção científica e de conhecimento no Brasil não é recente. Houve um longo caminho percorrido, com muito investimento financeiro e intelectual, para se chegar onde estamos. E foi exatamente este motivo que assustou a comunidade acadêmica quando o Ministro da Educação Abraham Weintraub anunciou que iria fazer “contingenciamento” nas verbas discricionárias das universidades, um alerta vermelho foi disparado em todos os campus universitários. Sindicatos de professores e movimentos estudantis organizaram-se e chegaram a realizar atos contra o que chamam de “corte” de verbas. Milhares de estudantes no Amapá e milhões por todo o Brasil, ocuparam ruas e praças, mostrando insatisfação com a medida do ministro, apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro.


No dia 14 de maio, a administração da UNIFAP reuniu-se com o Conselho Universitário onde proveu informações sobre o conjunto dos agentes universitários do impacto dos cortes no funcionamento da instituição. Alderi Mendonça, Diretora de Gestão Orçamentária da UNIFAP, informou a Tajá que no dia 30 de abril, foi realizado um bloqueio em relação ao custeio de 34% e em relação ao investimento, de pouco mais de 27%. “O custeio é o que garante o funcionamento da universidade, com as despesas de água, luz, telefone, vigilância, limpeza”, informou a gestora, e continuou “é o que garante a manutenção e o funcionamento da universidade”. Em valores, o corte no custeio ficou em mais de R$ 9 milhões e em investimentos mais de R$ 32 milhões, informou Mendonça, que deste último valor, 99% é fruto de emendas parlamentares.


Final do mês de Junho, é o prazo máximo, segundo a Diretora de Gestão, para o funcionamento de todas as atividades da UNIFAP, caso não seja revertido o corte no orçamento. Loiana Santana, coordenadora geral do Diretório Central do Estudantes, informou que o movimento estudantil ficou atento, quando os primeiros cortes foram feitos nos cursos de Filosofia e Sociologia, e chamaram rapidamente os estudantes para debater. Loiana ainda afirma que estão sendo adotadas as medidas legais contra o corte, mas que os estudantes vão continuar se mobilizando para que a universidade continue produzindo ciência.


Com dados de 2015, um levantamento feito pela Organização para a Cooperação de Desenvolvimento Econômico – OCDE, mostrou que o Brasil é o país que menos investe em educação entre as 39 economias avaliadas, segundo informou o jornalista Jamil Chade no portal de notícias UOL. Segundo Chade, o Brasil gasta 3,7 mil dólares por estudante universitário, enquanto nosso país vizinho, o chile, gasta 8,4 mil dólares ao ano.


O Globo, em 06/07/18, divulgou o relatório da Secretaria do Tesouro Nacional, intitulado “Aspectos fiscais da educação no Brasil”, o documento mostra que o país investe apenas 6% do Produto Interno Bruto (PIB), este índice segundo a OCDE, é superior a países Argentina (5,3%), Chile (4,8%) e dos Estado Unidos (5,4%). O que estes números mostram? Que estes valores, ao serem divididos pela quantidade de alunos no Brasil, não é suficiente. O que comprova que os cortes feitos pelo Ministério da Educação tendem a piorar os índices de produção acadêmica.


Preocupados também com isso os centros acadêmicos da UNIFAP realizaram exposição de trabalhos acadêmicos na Praça da Bandeira no dia 15 de maio em Macapá. Uniram-se também a professores, servidores públicos, estudantes do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Amapá - IFAP, da Universidade Estadual do Amapá - UEAP, e escolas públicas e privadas, além de trabalhadores de outras categorias, colocando mais de 25 mil pessoas nas ruas da capital, que gritavam contra os cortes. As manifestações do dia 15, reuniram milhões por todo país, e em Macapá, iniciou nos portões da Universidade Federal do Amapá.


A manifestação contra os cortes na educação se repetiu no dia 30 de Maio e tende a se repetir por outras datas. Para o presidente do Sindicato dos Professores da UNIFAP, Paulo Cambraia, “o que está em jogo é um projeto de destruição da universidade pública, e ao destruir a universidade pública instala-se definitivamente algo que já está dado em um processo de privatização da educação, que já está há algumas décadas em curso”, e justifica, “quando o presidente da república, fala em rede nacional, após visitar a Faculdade Mackenzie, que as universidades não produzem conhecimento, alguma coisa está fora da ordem!”


“Quando um ministro da educação, que não tem doutorado, e que sabidamente a produção científica e os desdobramentos desta produção se dá em cursos de doutorado, como que o sujeito que não tem doutorado e que não viveu efetivamente a vida acadêmica, da realidade da universidade pública brasileira, que produz 95% do conhecimento científico e social deste país, como é que que um cara desses tem condições mínimas de considerar que a balbúrdia é critério de corte de orçamento?”, finaliza.


Além disso, o próprio presidente Jair Bolsonaro chegou a chamar os estudantes que protestavam no dia 15/05, de “idiotas úteis” e “imbecis”, o que gerou ainda mais revolta.


O mais provável é que os cortes sejam realmente mantidos, e que nem Weintraub e nem Bolsonaro ouçam as vozes que ecoam nas ruas e universidades brasileiras, o que pode gerar não só mais protestos, mas também a radicalização dos movimentos sociais.


A universidade de Nalanda, quando foi invadida e destruída por mulçumanos, também foi saqueada, este é um dos motivos para muitos historiadores do desaparecimento de boa parte do antigo pensamento científico indiano. É provável, que a medida adotada pelo atual governo, não cause, pelo menos a curto ou médio prazo, um efeito de perdas do que já foi produzido nas universidades brasileiras, mas com toda certeza vai comprometer um processo em curso do que está sendo produzido. Se o ritmo de sucateamento se acelerar, a temeridade da comunidade acadêmica é que avançaremos a um futuro em que a produção científica no Brasil passe a ser registrada em tabuletas feitas de argila, como nossos antepassados sumérios.

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