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Religiões de matrizes africanas no Brasil

Atualizado: 23 de Mai de 2019

Sincretismo, má interpretação e preconceito religioso.


Por Karla Gabriela e Mônica Peixoto


Origens e religiosidade no Brasil


Religiões de matrizes africanas são aquelas que possuem uma essência teológica e filosófica de religiões tradicionais do continente africano. As religiões afro-brasileiras se originam de diversos povos trazidos da África para o Brasil durante os séculos XVI a XIX, no período da escravidão.


As religiões afro-brasileiras possuem forte influência de religiões trazidas da Europa, e de crenças indígenas, dos povos originários do Brasil. Grande parte das religiões no Brasil, atualmente, são adaptações e absorções de várias manifestações e esse sincretismo ocorreu devido à diversidade de pessoas que desembarcaram em terras tupiniquins no decorrer da história brasileira.


“E inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”, é o que diz o inciso VI do artigo 5° da Constituição Federal de 88, tornando cada ser humano livre para expressar sua individualidade religiosa e isso reflete em dados sobre as religiões mais praticadas em solo brasileiro.


Percentualmente, segundo dados do IBGE, os brasileiros são em sua maioria pertencentes a religiões cristãs (86,8%). Católicos representam (64,6%), seguidos dos Evangélicos (22,2%) e Espíritas (2%). Umbanda e Candomblé correspondem a 0,3%. O restante do percentual fica dividido entre pessoas que seguem o judaísmo, tradições indígenas, islamismo, hinduísmo ou nenhuma religião. No Brasil, existem diversas religiões originárias do continente africano, porém em proporção menor de praticantes. A umbanda e o candomblé são as religiões mais difundidas e, consequentemente, com mais praticantes.


Foto: Jomar Magalhães

Candomblé e Umbanda


A história do candomblé no Brasil é diretamente ligada ao catolicismo, havendo inclusive uma mistura das duas. Assim que desembarcaram no Brasil seus praticantes foram proibidos pela igreja de manter e manifestar sua religiosidade, recorrendo assim a figuras de santos católicos como uma maneira de mascarar seus orixás. Isso explica a associação feita entre alguns orixás e santos católicos, como Iemanjá e a virgem Maria, e Ogum a São Jorge. Essa representação é comum também em outra religião com essência africana, a Umbanda, porém de maneira mais intensa.


O candomblé, que é uma das religiões de origem africana com mais adeptos no mundo, cultua os orixás, que normalmente são reverenciados através de danças, cantos e oferendas. Os praticantes do candomblé acreditam que os orixás são antepassados africanos diretamente ligados a natureza, ou seja, são forças naturais. Em seus rituais, trabalham questões terrenas, como a busca da felicidade e do bem estar, além da preservação do meio de maneira geral.


Os orixás possuem suas próprias características, preferências, habilidades e representações, portanto, cada um tem suas exigências ritualísticas. É atribuído um dia na semana para cultuar cada um deles e esses rituais acontecem em locais comumente conhecidos como casas, roças ou terreiros. A celebração é liderada por uma mãe ou um pai de santo.


A segunda religião de origem africana mais popular no Brasil é a Umbanda. Ela mescla elementos de religiões africanas, do catolicismo, práticas indígenas e espiritismo. Surgiu no Brasil no século XX, fundada por Zélio Fernandino de Moraes, e é uma religião em permanente processo de sincretismo, ou seja, de absorção e conciliação de crenças e práticas de diversas outras manifestações religiosas e culturais, passando por reinterpretações de doutrinas religiosas e seus elementos. Em sua formação foi fortemente influenciada pela miscigenação no Brasil.


Assim como no candomblé, religião que influenciou fortemente a umbanda, os cultos são realizados em locais chamados casas, barracões ou terreiros. Porém, manifestações feitas ao ar livre e perto da natureza são extremamente frequentes. As cerimonias são presididas por um sacerdote, ou sacerdotisa que comandam a casa. A cerimônia é conhecida como “passe” e nela é feita uma reorganização do campo energético astral da pessoa.


A umbanda adora diversas representações de elementos de energia e da natureza, os Orixás. Para seus praticantes existe um Deus supremo, o “Olorum” ou “Oxalá”, e eles acreditam em reencarnação e na imortalidade da alma. Os orixás da Umbanda são: Xangô, Iemanjá, Ogum e Oxóssi, Oxum, Iansã, Omulú e Nanã. Também existem diversas entidades que se manifestam, os mais conhecidos são os caboclos, pretos velhos, baianos, marinheiros ou marujos, erês, Zé Pilintra e Maria Padilha. O maior preceito da religião é a caridade.

Foto : Jomar Magalhães

Os estigmas das religiões de matrizes africanas e o preconceito religioso


A diversidade sempre existiu no Brasil, porém, por diversas vezes, reprimida. Seja sexual, cultural ou religiosa. A diversidade religiosa existe no Brasil desde a chegada dos colonizadores e, posteriormente, de escravos. A mistura de povos deu origem a uma explosão de crenças diversificadas. Entretanto, muitas pessoas eram proibidas de manifestar suas crenças. Um grande exemplo são os escravos, que não podiam venerar suas próprias imagens e por isso recorreriam a santos católicos. Essa situação deu origem ao sincretismo no Brasil.


​Dados do Ministério dos Diretos Humanos apontam que as religiões de origem africana são os maiores alvos do preconceito religioso no Brasil, somando 39% das denúncias. Esse preconceito está diretamente ligado ao racismo e a falta de informação sobre o que compõe cada religião.


Marcos José Ribeiro dos Santos, sacerdote e praticamente do candomblé há 27 anos, afirma que o preconceito vem da interpretação errônea das religiões de origem africanas "muitas pessoas têm essa interpretação equivocada porque as igrejas advindas do cristianismo, de maneira geral, ajudam reforçando que entidades das religiões de origem africanas são más e demoníacas". Ele acredita que "assim como toda cultura africana, as religiões também sofrem com os estigmas construídos socialmente durante séculos... De que as religiões são diabólicas, satânicas e que fazem o mal e isso é muito forte no imaginário na sociedade".


Apesar de ser crime, não é incomum a depredação de locais religiosos ou de oferendas, além, é claro, de ofensas ou agressões físicas direcionadas aos praticantes dessas religiões. A incapacidade de compreender e respeitar a individualidade religiosa faz a cada ano dezenas de vítimas pelo país inteiro.


Desconstruindo estereótipos


A exposição “Os deuses africanos e os processos civilizatórios”, vem acontecendo desde o dia 12 de abril, no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), localizado no centro de Macapá. A exposição é uma parceira do MAE juntamente ao artista Valter de Ogum, e reúne obras e indumentárias que pertencem às religiões de matriz africana, arrumadas de jeito a parecer um terreiro.


Foto: Karla Gabriela e Mônica Peixoto

De acordo com o historiador e artista responsável pela exposição, Valter Vieira, o intuito é mostrar o cotidiano dos terreiros através das obras, levando conhecimento sobre essas religiões às pessoas e consequentemente evitar preconceitos. “Trago as indumentárias para mostrar o dia a dia nos terreiros e como forma de desconstrução dos estereótipos criados a respeito dessas religiões”, conta.


A ideia da exposição em Macapá surgiu durante a construção do 2º Encontro Científico de Religiosidades Afro-ameríndias na Amazônia Amapaense. Parceria do CEPRES ( Centro de Estudos Políticos e Sociedade) projeto de extensão ligado à Universidade Federal do Amapá e do GERMA (?) equipe da Universidade Federal do Pará, da qual o artista faz parte. A partir desse união, Valter Vieira decidiu inserir a exposição e homenagear os 34 anos do Candomblé no Amapá.


De acordo com o artista, a exposição tem o trabalho social de desconstruir o preconceito, levando a informação ao centro, como forma de criar acesso a quem não vai ao templo afro-religioso por preconceito, facilitando assim o acesso à informação e trazendo a sociedade para discussão. “Essa exposição tem uma importância no meio social, pelo fato de trazer à tona a discussão de uma coisa que vem acontecendo muito hoje: a intolerância religiosa”, explica.


O Museu de Arqueologia e Etnologia do Amapá recebeu a exposição de portas abertas e acredita no seu potencial elucidativo. Manoel Maria dos Santos, pesquisador e funcionário do museu, acredita que “o conhecimento é o remédio para se curar a ignorância”. Para ele, a ignorância tende a tornar as pessoas solitárias, visto que o não conhecimento de outras culturas gera o preconceito e torna a convivência mais difícil.


Para ele, o estudo e a divulgação do candomblé tem por objetivo facilitar a vida das pessoas, e diminuir a discriminação existente entre os praticantes das mais diversas religiões.

Os ancestrais africanos são divindades que conquistaram certo controle sobre a natureza e possuem características semelhantes as dos seres humanos. Vários Orixás foram apresentados, bem como suas características, entretanto, alguns foram evidenciados através das indumentárias.


Foto: Karla Gabriela e Mônica Peixoto

Xangô: Orixá da justiça, raios, trovão e fogo. Regente do reino de Oyó na região de Yorubá. Misericordioso, leal, guerreiro, conquistador e justo. Tradicionalmente ligado às cores vermelho, marrom e branco.


Nanã: considerada uma das Orixás mais velhas. É a raiz da existência, mãe dos mortos e dos ancestrais. Senhora da morte e responsável pelos portais de entrada (reencarnação) e saída (desencarne) das almas. Orixá dos mangues, pântanos, terra. Azul, branco e roxo são suas cores características.


Iemanjá: a rainha do mar. Muito cultuada e respeitada. Representatividade ligada à fecundidade. Regente da inteligência humana. Seus símbolos são peixe, estrela do mar, lua, onda, concha e sereia. Suas cores são azul, rosa claro, azul claro e branco.


Ogum: o guerreiro protetor. Tem caráter nômade e não reina em lugar nenhum, por isso não usa coroa. É o protetor dos agricultores, militares, dos motoristas e detentor dos caminhos e estradas de ferro. Símbolo de vanguarda e tecnologia. Suas cores são verde, azul-escuro e vermelho.


A exposição “Os deuses africanos e os processos civilizatórios” visa divulgar cada vez mais as culturas de origens africanas, levando conhecimento as pessoas e consequentemente diminuindo os conceitos errôneos atribuídos a elas. O conhecimento é a chave para que as pessoas possam viver respeitando a religião e a prática de cada um.


Foto: Karla Gabriela e Mônica Peixoto

A exposição acontece no Museu de Arqueologia e Etnologia do Amapá, localizado na Rua São José, em frente à praça Barão do Rio Branco, no centro de Macapá. Possui entrada gratuita e estará disponível até o dia 17 de maio, das 8h às 12h e das 14h às 17h.

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