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Como cães e gatos: a relação entre os homens e seus “melhores amigos”

Atualizado: 6 de Ago de 2019

A atenção dada aos animais pelas pessoas da cidade ainda é escassa.


Por Letícia Amorim

Um ronronar longo, olhar assustado, um medo ensurdecedor que vinha de um serzinho tão pequeno e indefeso, que só queria dar carinho para receber de volta todo o afeto que merecia.


Parecia ser um dia difícil para o gatinho alaranjado que devia ter apenas uns 2 meses de vida encontrado pelo estudante de Redes de Computadores Eduardo Alencar,19. A forma como ele o encontrou não foi uma das melhores, narrou que o bichinho estava sendo literalmente jogado como um lixo para fora de casa numa manhã de sábado chuvosa. Vendo aquela situação inadmissível, o estudante mesmo atrasado para aula, avisou para a pessoa que rejeitava o filhote que iria ficar com ele e buscaria ao retornar da faculdade.


Quando voltou para casa, disse que encontrou novamente àquela pequena bolinha de pelos alaranjados, encolhido do frio, com fome, e miando muito no portão da casa que até então pensava ser sua também. “Estava perdido sem saber o que estava acontecendo. Recusou a ajuda, insistindo de que era ali que devia estar, como se estivesse esperando sua dona abrir o portão”, narrou Eduardo.


Infelizmente Eduardo não tinha como ficar com o pequeno Simba, como chamou. Foi quando tomou a decisão de anunciar em suas redes sociais a doação do gato resgatado. Solicitou inclusive que uma das ONGs da cidade (Gateiros Tucujus) ajudasse a divulgar a doação, meio que o levou até sua nova dona.



Eduardo com o gatinho Simba. Foto/Acervo Pessoal

Antes Eduardo cuidou do gato por 2 semanas, processo que permitiu estabelecer um vínculo forte entre os dois. “Eu ficaria com ele, mas não tinha como manter os dois gatinhos”, exclamou o rapaz ao lembrar-se da sua gatinha Lily, de 8 meses. Mesmo depois de ter doado, mantinha contato com a nova dona para saber se Simba estava bem, se estava dando trabalho, ou sendo apenas o chicletinho que não desgruda de jeito nenhum. Relatou que o gatinho está muito bem, e que agora é o bebezinho da casa nova.

Mas infelizmente essa não é a realidade da maioria dos animais vítimas de abandono e maus tratos na cidade.

Poucas pessoas têm conhecimento sobre os problemas causados a esses animais em decorrência da falta de atenção e cuidados.

Realidade das ONGs

A acadêmica de Jornalismo e Secretária Geral da ONG Gateiros Tucujus, Laura Machado de 21 anos, fala sobre a realidade das ONGs e evidencia que a dimensão do número de animais encontrados em situações de risco nas ruas é alarmante.


A Gatu, como é carinhosamente chamada, era um grupo que foi lançado recentemente como a primeira ONG de proteção aos gatos do Estado, embora também ajude cachorros. Possui atualmente 27 voluntários, e com isso Laura enfatiza que cada um possui grande importância, pois o grupo ainda não dispõe de um abrigo fixo. Os animais são resgatados e abrigados nas casas desses voluntários, de acordo com a disponibilidade de cada um já que todos estão super lotados. O que pode ser prejudicial tanto para os protetores quanto para o animal, que se sentirá estressado com a condição. Para primar pela ajuda dão toda atenção na hora de acolher um animal para que todos eles recebam os devidos cuidados.


“Pelo fato de estar na sua casa (do voluntário) é uma responsabilidade ainda maior, porque você tem que ter esse cuidado de estar atento a todos eles”, explicou Laura.

Todo suporte dado aos animais é feito de forma voluntária. “A ONG se mantem de doações”, e também com a ajuda dos voluntários que às vezes tiram do seu próprio bolso para comprar ração, medicamentos, para pagar consultas e afins. O trabalho em prol dos animais não é possível de ser realizado se não tiver colaboração das pessoas ajudando com qualquer intervenção que venha somar com os protetores envolvidos.


A estudante pontua que falta nas pessoas empatia para resgatar um animal, já que “é possível ajudar, vendendo um doce, fazendo uma rifa e entre outras formas de conseguir dinheiro para ajudar um animal”, exclamou.


As ONGs devem ser acionadas quando a pessoa não tem experiência ou não pode ajudar de nenhuma forma o animal resgatado, como oferecendo um lar temporário, prestando primeiros socorros, ou quando for vítima de um atropelamento que carece de ajuda especializada. Ela ainda lembra que a obrigação para resgatar todos os animais das ruas é do Estado. E chama atenção dizendo: “nós apenas entramos como uma forma de reforço”, afirma Laura.


ONG Gateiros Tucujús em uma das feirinhas de doação na Praça do Forte, no centro de Macapá. Foto/Acervo Pessoal

Tássia Ferreira, Doutora em Saúde coletiva e responsável pelo setor financeiro da ONG Anjos Protetores, evidencia outra problemática que dificulta na atenção aos animais. Ela lembra que a princípio o abrigo se localizava em uma sede provisória cedida pela prefeitura, onde toda a estrutura disponível para amparar os animais resgatados era de forma improvisada. A ONG tinha o canil e gatil, mas as dificuldades começaram a aparecer devido a sua localização. Era no centro da cidade e com isso perderam o controle, “as pessoas iam até lá e abandonavam os animais lá”, descreveu. Um problema recorrente devido a falta de informação dos indivíduos a respeito do trabalho e responsabilidade que a organização possui.


“O que eu percebo aqui em Macapá é que elas acham que a gente é um depósito”, desabafou Tássia.

Tássia com cachorro resgatado pela Anjos Protetores. Foto/ Acervo pessoal

Tássia narra com gratidão a doação que possibilitou a mudança do abrigo para outro local, maior, também mais distante do centro e do problema que atrapalhou o progresso do até então grupo de protetores, sempre cautelosos pela segurança do abrigo e dos animais. As pessoas que colaboram com as atividades são poucas, porém de confiança para manter essa organização.


No abrigo o cuidado é para mais de 60 gatos além dos cães, entre eles feridos, doentes ou com infecções, num local que precisa diariamente de limpeza. Os voluntários são importantes para agilizar os serviços no qual apenas 8 pessoas fixas realizam. Mas no primeiro contato das pessoas que vão conhecer esta realidade para contribuir desistem. “Pegar um animal com vermes, um gato com sarna, ninguém quer pegar”, contou a protetora.


A ONG SALVAÇÃO (Solidária Assistência e Luta Voluntária em Ação), repudia qualquer descaso e sofrimento causados aos animais. Possui 20 voluntários, e apenas 4 efetivos. Segundo Adriano, Presidente da ONG abrigam 60 cães e 58 gatos atualmente num espaço provisório no terreno ao lado de sua casa. As proporções do local são pequenas, mas organizada de acordo com suas possiblidades, sendo exemplo de que para fazer o bem aos que precisam de atenção é possível, basta ter um começo mesmo diante das dificuldades.


“Resolvemos lançar mão e não só reclamar, mas fazer nossa parte”, discursou Adriano.

A adoção é o principal incentivo que as ONGs apontam. Todos os animais resgatados são abrigados, tratados, vacinados e mantem a alimentação em dia. Após os cuidados a adoção é divulgada mostrando que com atenção é possível salvar um gatinho e cãozinho indefeso. Adriano explica os procedimentos para adoção responsável: “Quem se interessa passa por uma entrevista onde já educamos sobre a posse responsável, onde também fazemos uma entrevista no lar, para verificar se está conforme nossas exigências para o animal ser adotado”.

Uma questão de saúde pública

Fábio Mourão, médico veterinário, mestre em ciência animal, doutor em biodiversidade tropical e Chefe do setor de zoonoses da Coordenadoria Municipal de Vigilância em Saúde de Macapá, enfatiza a atenção aos animais como questão de saúde pública.


Os cães e gatos abandonados estão expostos a inúmeras doenças. O controle para evitar transmissão e o tratamento das zoonoses existe, porém carece de recursos suficientes que atenda a grande demanda de animais em condições de abandono na cidade, pois o financeiro investido nesta ação é proveniente do Sistema Único de Saúde (SUS).


O setor de Controle da Zoonose – o canil municipal – é parte da estrutura da Secretaria Municipal de Saúde cuja principal função apontada pelo médico, diz respeito à saúde humana. Somam com a equipe 15 servidores, desses 3 veterinários e 1 biólogo. É uma das opções adotadas pela prefeitura para agir no controle das doenças como raiva, leishmanioses, etc, que podem ser transmitidas dos animais contaminados para as pessoas.


Quanto a atenção dada especialmente ao bem estar dos animais pela prefeitura municipal, o Chefe do Canil sugere o que seria mais adequado: “ a criação de um instrumento ou secretaria própria vinculada a Secretaria de Meio Ambiente com um projeto de aporte financeiro que não seja oriundo do SUS”, declarou Fábio.


No canil são oferecidos atendimentos de vacinação antirrábica de cães e gatos, inspeção zoosanitária, atendimento de denúncia de maus tratos a animais, investigação de casos suspeitos de zoonose (raiva, leishmanioses, leptospirose, entre outros) e bloqueio de casos confirmados de leptospirose. E o Centro também realiza desratização e anti-ratização de feiras municipais, escolas e Unidades básicas de saúde. Outro trabalho do setor de zoonose é a busca ativa no tratamento rábico humano realizado no hospital de emergência; investigação e correção para evitar animais peçonhentos no peridomicílio e palestras educativas sobre posse responsável de animais e zoonoses.

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