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“Cantar e cantar e cantar...”

Atualizado: 10 de Jun de 2019

De covers a autorais, artistas amapaenses tentam ganhar espaço e reconhecimento no Estado.


Por Felipe Lima


Talvez o pequeno trecho da manchete te faça lembrar aquelas músicas do passado que você adora cantar no chuveiro, não é? Mas acredite, não é só você quem faz isso. A música é assim, e grandes artistas compõem suas músicas justamente para ganhar o seu público. Agora, música e gente famosa é fácil de ouvir, mas já tentou conhecer aqueles artistas da sua terra que trabalham arduamente para alcançar o tão sonhado sucesso?


O cenário musical do Amapá, para muitos, pode ser considerado pequeno e sem muito investimento. De fato, a questão orçamentária nessa área não é tão grande como parte dos artistas locais gostariam que fosse. Quanto ao “pequeno”, nem tanto. Há uma boa quantidade de cantores – incluindo aqueles “anônimos” – querendo ganhar espaço, querendo ganhar voz. Aos olhos de quem está de fora, é até corriqueiro pensar que cantar é uma profissão fácil e que não é necessário tanto esforço. Mas para haver aquela música que você tanto escuta no dia a dia, uma quantidade gigante de profissionais trabalham dia e noite, seja na gravação de estúdio, nos ensaios, na edição ou em outros processos. Tudo é pensado para que o entreter do público esteja garantido.


Embora a falta de investimento esteja atrelada às poucas produções no Estado, alguns artistas locais procuram fazer e custear suas músicas. Um desses artistas é Felipe Sena, jovem cantor de 22 anos que iniciou sua carreira logo cedo, quando tinha 6 anos de idade, fazendo shows dentro de casa para seus familiares. Hoje em dia, com trabalhos autorais e também fazendo covers, é adepto da música pop, funk e reggaeton. Ele conta que desde pequeno teve o sonho de ser cantor. “As pessoas me perguntavam: o que você vai ser quando crescer? E eu respondia: eu vou ser cantor famoso”, relembra.


Cantor Felipe Sena

Felipe, mesmo com dificuldades para expandir sua música no Amapá, nunca pensou em desistir, mas ressalta que o público e contratantes precisam valorizar seus artistas locais. Além disso, destaca que no mundo musical do estado, existe a “prostituição da profissão”, que para ser contratado, o profissional precisa vender seu trabalho num valor muito abaixo do que seria o ideal. “É um trabalho árduo como qualquer outro, é difícil. Não é só subir no palco e cantar, tem uma preparação antes”, enfatiza.


Outro cantor da região é Jhimmy Feiches, 26 anos, iniciou a carreira no teatro após seu professor perceber que aquele menino tímido de 14 anos tinha potencial. Logo em seguida, começou a cantar nas peças teatrais dirigidas pelo docente. Ele diz que atualmente canta por uma realização pessoal, para fazer justiça aos seus sonhos de infância, já que não tem um retorno financeiro. O jovem ainda acrescenta que já pensou em desistir várias vezes pela falta de incentivo não só do poder público, mas também da população local. “Precisa de um apoio cultural maior por parte do Estado, dos contratantes, que muitas vezes cantamos de graça, e esses são alguns pontos que também me fazem pensar em desistir”, relata.


Cantor Jhimmy Feiches

O cantor, que tem como inspiração nomes internacionais como Michael Jackson e Aurora, diz que a maioria de suas composições vêm do cotidiano das pessoas e também das experiências que elas vivenciam. Apesar das dificuldades financeiras para lançar um álbum, depois de três anos Jhimmy vem com seu primeiro trabalho autoral que será um EP (Extended Play). A produção ganhará as plataformas digitais e também cópias de disco, no segundo semestre de 2019. Ele conta que o trabalho já está em processo de finalização e que teve a ajuda, principalmente, de seus amigos. “Com a falta de dinheiro, acabo não fazendo tudo que preciso fazer musicalmente. Graças a minha produtora e aos meus amigos, estou conseguindo dar continuidade a esse projeto”, afirma.


João Amorim, 34 anos, também é outro nome presente no Estado. Sua carreira musical já dura cerca de 19 anos e a maioria de suas composições fazem parte da Música Popular Brasileira (MPB) e da música latino amazônica. Em 2018, ele compôs o hino da Escola Estadual Modelo Guanabara, e também lançou seu clipe “passa, tchonga” na plataforma YouTube, que já ultrapassa o número de 26 mil visualizações. Embora esses projetos estejam indo para frente, ele também ressalta a dificuldade de ser artista no Estado. “O Amapá possui uma lei de incentivo estadual, mas não têm políticas públicas culturais, somente agendas de festas que os artistas precisam ficar atrás para poder participar”, reitera.


Cantor João Amorim

Em contrapartida, Amadeu Cavalcante, cantor da região com quase 40 anos de carreira, atualmente também trabalha como coordenador de desenvolvimento cultural do Amapá, ele diz que a Secretaria de Cultura do Estado está com vários projetos que tem como intuito promover o desenvolvimento cultural na região, e quanto à Lei de incentivo, ele afirma que realmente existe, mas tem dificuldades para realizar todos os projetos devido a falta de recursos do governo e de entidades privadas, e acrescenta que o projeto estava sob coordenação de um sistema do estado que não tinha um conhecimento profundo da lei, dificultando a captação de recursos. “A Lei está parada, mas o conselho de cultura está estudando mecanismos para que a Lei volte a funcionar, dessa vez, com eficácia”, afirma.


O cantor e coordenador ainda complementa falando da abertura de chamada pública, através do portal do governo, para o credenciamento de grupos e artistas do estado que queiram participar das programações culturais de 2019. Os interessados devem acessar o site www.portal.ap.gov.br, baixar o edital e ler com atenção as regras. O período de inscrição abriu dia 17 de maio e vai até 7 de junho.


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