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Caixa de Marabaixo: O instrumento que dá ritmo e vida para esse patrimônio histórico e cultural

Atualizado: 27 de Mai de 2019

Por Gabriela Vasconcelos

Aposto que você já ouviu falar ou já leu alguma matéria sobre a dança de Marabaixo. No entanto, aqui você irá conhecer sobre outro aspecto, o único instrumento musical que rege essa manifestação folclórica amazônica: a caixa de Marabaixo. Em entrevista, Pedro Bolão nos conta uma pouco mais sobre esse instrumento musical que alegra as rodas dessa grande manifestação cultural.


Instrumento Musical finalizado no ateliê de Pedro Bolão. Foto: Renato Atayde.

Pedro Bolão confecciona suas peças em seu ateliê, localizado no Curiaú. O artesão e também músico aprendeu o ofício aos 25 anos de idade, com seu pai, que já fabricava o instrumento, também na localidade do Curiaú. “Minha vida é essa, trabalho com caixa de Marabaixo, tenho caixa de Marabaixo expandida hoje para Alemanha, tenho caixa na França, Inglaterra e todos os estados brasileiros”, afirma Bolão.


Segundo o artesão, a fabricação de antigamente era bem mais complicada de ser realizada e levava muito tempo para o instrumento musical ficar pronto, em torno de três meses. “Meu pai sempre dizia que elas eram cavadas de troncos de árvores, que eram tombadas na vargem e eles traziam os troncos de macaqueiro para fazer as caixas de Marabaixo. Era ‘demais’ pesado na época”, conta.

Pedro Bolão e Gabriela Vasconcelos. Foto: Renato Atayde

Hoje em dia, Pedro Bolão trabalha de uma maneira diferente e muito mais simples, sobretudo porque ensina crianças a confeccionar o instrumento musical, que é de máxima importância para esse movimento artístico e histórico de nosso Estado.


Atualmente, 80% dos materiais usados na confecção da caixa são recicláveis, como caixotes de feira, sobras de madeira de macacaúba das movelarias e tambores de óleo. Os outros 20% necessários para a fabricação são: couro animal, madeira de Ipê, que ainda é retirada rusticamente da natureza, serragem de madeira, lixas, cola, cordas, verniz entre outros.


Segundo ele, com seu novo jeito de fazer o instrumento, o tempo que se leva para construção da caixa caiu consideravelmente, se comparado com antigamente, que eram necessários três meses de trabalho: “o tempo que eu levo para fazer uma caixa de Marabaixo é de três a quatro dias”. A forma de montagem continua rústica e manual.


PROCESSO DE FABRICAÇÃO


Primeiramente, o couro de cabra é limpo e colocado bem esticado para secar em um varal. Enquanto se espera a secagem do couro, vão sendo produzidas outras peças para fazer a caixa de Marabaixo que tem um formato cilíndrico. As primeiras peças são chamadas de réguas, que são tiras de madeira de Ipê. A régua é utilizada para compor a base cilíndrica do instrumento, o aro, e serve para dar sustentação na base estrutural.


A régua é moldada e uma base circular de compensado, com o tamanho exato da caixa, para que a mesma ganhe a forma arredondada que conhecemos. São confeccionados dois aros de mesmo tamanho e em seguida são colocadas três réguas na vertical para dar suporte e sustentação. E finalmente está pronto o esqueleto da caixa.


Com o material reciclável são feitas ripas, peças de madeira de mesmo tamanho e largura, e elas são pregadas em toda a base. Logo depois é feito o isolamento acústico. É produzida uma mistura de cola com “muinha” (serragem de madeira bem fina) para reparar qualquer espaço que tenha ficado entre as peças laterais da caixa. A aplicação dessa mistura é feita na parte de dentro e de fora da caixa, formando uma camada grossa a qual impede que o som do instrumento se perca. É dado um tempo de descanso para a secagem da peça e posteriormente ela é lixada e envernizada.


A próxima etapa é colocar o couro. Com outra régua bem fina é feito uma aro que encaixe perfeitamente nas extremidades da caixa de marabaixo. Depois o couro é molhado novamente para que fique mais maleável e fácil de trabalhar. Logo, é envolvido no aro, fixado com tachas e ajustado para que fique bem esticado e, em seguida, é colocado na caixa.

Instrumentos em miniatura produzidos com PVC pelo artesão em seu ateliê. Foto: Renato Atayde

Chegando à parte final do processo de confecção, é produzido o arco onde é feito o encordoamento para a afinação do instrumento musical. São feitos seis pequenos furos no arco por onde vai passar a corda para fazer o afinamento da caixa de Marabaixo. É feito um nó chamado “orelha”, que ajuda afinar o instrumento, e com pequenos puxões na corda é ajustado e afinado.



O artesão afirma que Inácio Tabacaba foi quem trouxe o Marabaixo para o Curiaú.


– Mamãe contava sempre que quem trouxe o Marabaixo pra cá pro Curiaú foi Inácio Tabacaba, alguém pouco valorizado, pois os únicos que falam sobre a história dele é quem viveu aqui, e ele fazia um Marabaixo com quatro cachorros amarrados na cintura. Chegava da roça, tomava banho, pegava a caixa de Marabaixo e “metia o bicho” [...] fazia Marabaixo só ele e os cachorros – conta Pedro Bolão.


Pedro Bolão, que também é músico, já tocou no grupo musical Senzalas, e com vários músicos no decorrer de sua carreira, como por exemplo Zé Miguel, Devid Baleiro, Patrícia Bastos, entre muitos outros. Hoje tem seu grupo musical, o Grupo do Bolão. Conforme ele, o ritmo da caixa varia bastante: “o toque de Marabaixo que aprendi é o toque de lamento, é o Marabaixo cadenciado, tem várias pessoas que tocam de um tipo diferente do nosso. O que eu toco sempre é nosso Marabaixo tradicional, que os ladrões são lentos”. Segundo Bolão, antigamente o Marabaixo não era dançado, pois não havia como dançar, já que as pessoas viviam sempre acorrentadas.

O músico Pedro Bolão tocando em seu ateliê na localidade do Curiaú Foto: Renato Atayde

O ritmo de quem toca a caixa de Marabaixo sempre segue a cadência do toque do puxador e dos versos. Para seguir corretamente sem perder o ritmo. A baqueta de umas das mãos é invertida para facilitar a marcação do som. Os versos e rimas puxados ou roubados de um cantor para outro são chamados de “ladrões”.


De acordo com Viviane Monteiro, frequentadora de várias rodas de Marabaixo pela cidade, o som é envolvente e chama o corpo para dançar: “eu sinto como se o som estivesse fluindo pelo meu corpo e me conduzindo. É uma alegria contagiante, uma vontade de sair rodando a saia e cantar os ladrões”. Os trajes para entrar em uma roda de Marabaixo são saia longa ou vestido longo, então fica a dica para você que tem vontade de conhecer uma roda de Marabaixo e sentir o som desse instrumento maravilhoso invadir seu corpo e alma.

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