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Bailique: As peculiaridades do povo vizinho ao rio Amazonas

Atualizado: 6 de Jul de 2019

Às margens do Rio Amazonas, pequenas casas de madeira dividem o cenário com a densa floresta amazônica que serve de quintal para os moradores das 55 pequenas comunidades que compõem o arquipélago do Bailique (AP).


Por Delano Carvalho

Na beira das ilhas, pequenos barcos, rabetas e voadeiras, estão prontos para rasgar o rio de água doce e barrenta, transportando os moradores que habitam o entorno das matas verdes, os ribeirinhos. Porém, a vida desse povo está muito longe da romantização criada a partir da vastidão de verde e água que enchem os olhos do povo urbano. Os pequenos barcos voltarão se não encalharem nos bancos de areia no meio do rio, as casas só ficarão de pé se o solo não deslanchar nas margens das ilhas, enquanto que o desenvolvimento, chega tão lento quanto o passar do tempo no lugar onde a diversão é jogar conversa fora.

“Pra cá quem manda é a natureza”
Durante o inverno quando a maré seca surgem os bancos de areia dificultando a passagem dos barcos. Foto: Delano Carvalho

Fenômenos naturais ditam o ritmo de vida no distrito. Um desses fenômenos é a formação dos bancos de areia que impedem o acesso de barcos de grande e pequeno porte a comunidades mais distantes. “Pra cá quem manda é a natureza”, enfatiza Reginaldo do Carmo Leal Souza, servidor da Companhia de Água e Esgoto do Amapá (CAESA) e frequentador das comunidades do arquipélago. “Livramento, Igarapé Grande tá tudo assoreado, tá plano de tanta terra que tem o rio".

Livramento e Santo Antônio são duas das comunidades que sofrem com o assoreamento do Rio Amazonas. Foto: Delano Carvalho

O servidor da Companhia explica a diferença entre os pequenos barcos que transportam os ribeirinhos. "Na rabeta (barco), a hélice fica na superfície, então o cara consegue controlar e ela consegue passar porque não esbarra. A voadeira nem todo lugar ele chega, porque a hélice esbarra quando a maré tá baixa, ela só passa com maré alta".


Rapeta e voadera são pequenos barcos usados pelos moradores para se transportarem entrem as comunidades. Foto: Delano Carvalho

O piloto de barco, Edinaelson Maciel, 45, navega há 30 anos. Experiente sobre as águas que correm entres as comunidades do arquipélago, diz que volume do rio é menor em algumas comunidades. “Depende de comunidade para comunidade, ou seja, de um lugar para o outro é mais difícil o acesso, aqui no arquipélago, o canal que dá acesso à comunidade do Livramento, Igarapé Grande é muito difícil, só dá quando o rio tá bem cheio”. E acrescenta, "o nosso barco tem um radar que mostra se estamos nos aproximando de um banco de areia para dar tempo de desviar e não ficar encalhado".

“É uma região que tem bastante água, mas que falta água”.

As peculiaridades de se morar no Bailique exige um trabalho mais atencioso da Defesa Civil que, além de levar ajuda para os moradores, coleta informações junto a outros órgãos para saber do que os moradores precisam. “A Defesa Civil faz um trabalho de integração com as outras agências do Estado pra levar algum tipo de ajuda aquela região. Colhemos informações pra poder justificar alguma ajuda”, explicou o tenente do Corpo de Bombeiros, Ronaldo Patrick Rodrigues, que exemplificou com a precariedade de água tratada na região.


Outro fenômeno é a erosão das margens das ilhas chamadas de Terras Caídas. Foto: Delano Carvalho

“Em dezembro de 2018, nós levamos 500 kits de tratamento de água potável para a região onde tem acontecido assoreamento por conta da inundação da água do oceano, então por incrível que pareça é uma região que tem bastante água, mas que falta água”.


No final de abril o arquipélago já completava mais de 20 dias sem energia. Foto: Delano Carvalho


O trabalho da assistente social do Tribunal de Justiça do Amapá, Suely Lima, consiste, além de outras coisas, em visitar famílias na capital e no Bailique através da Jornada Itinerante que leva serviços para os moradores. No fim de abril a assistente voltou a visitar famílias das comunidades do arquipélago e explicou as diferenças entre o serviço dos assistentes na capital e no interior, e exemplifica com um caso específico na comunidade Marinheiro de Fora.


Além da falta de serviços judiciais como retirada de domumentos como nasscimento, identidade e carteira de trabalho. Foto: Delano Carvalho

“Um dos casos aqui no Bailique é um atendimento médico no neuropediatra para uma criança e que essa oferta não tem na comunidade Marinheiro de Fora, então requer deslocamento para capital. Nesses casos a gente vai além da simples visita, a gente faz agendamento e todo um alinhamento em Macapá, porque nosso foco, toda nossa avaliação é de interesse maior para criança, olhando o bem estar da criança”, destacou.


Outro ponto importante na história e que merece atenção da assistente social é a falta de conhecimento da mãe em como andar na capital. “Essa família não sabe andar em Macapá. A mãe não sabe andar na capital pois foi criada nesse contexto do Bailique, e para que a gente dê uma resposta plausível pro juiz e pra família, a gente se compromete a agendar a consulta e informar à mãe para que ela chegue lá a tempo com a criança”.

Contudo, o mais comum é resolver tudo na comunidade. “Quando as ações são de guardar, curatela, tutela, adoção e todas as partes estão no arquipélago, tudo é resolvido aqui mesmo”.


Suely explica ainda algumas peculiaridades da região com relação a capital. “Diferente de Macapá onde, no caso de adoção, os atores participam do curso de habilitação, aqui existe uma outra logística. Como eles tem um meio de vida bem peculiar, a equipe que faz o processo acaba fazendo lentamente toda a avaliação e o acompanhamento”. E conclui, “diferente da cidade, a família biológica não sabe quem tá adotando, aqui a família biológica sabe quem adotou e a gente precisa criar toda uma logística para que não haja conflito”.


Villa Progresso tem uma escola estadual que atende as crianças. Foto: Delano Carvalho

O pescador Juraelson Mota ,53, diz que falta muita coisa na região, mas não coloca a culpa na distância da comunidade e sim na falta de vontade do poder público. "Falta água, falta professor pras crianças, sabe. Luz gente até tem, mas falta

uma semana, duas semanas, um mês porque ninguém vem ajeita" finaliza o morador.



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