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Arte é instrumento para o desenvolvimento de jovens e crianças dentro das comunidades periféricas

Atualizado: 6 de Ago de 2019

Artistas e assistente social trabalham com projetos sociais voltados para comunidades periféricas e falam sobre suas perspectivas de como esses projetos influenciam nas comunidades.


Por Arthur Corrêa.


Foto: Arthur Corrêa - Ana Caroline, Casa Circo, 2019.

Ana Caroline, 30 anos, ex-psicóloga, e atualmente professora de prática circense, relata sua experiência no projeto social ocorrido em 2014 no conjunto habitacional Macapaba. O projeto intitulado “Picadeiro Cidadão” funcionou por 6 meses e trabalhou em um viés de socialização entre as crianças do conjunto habitacional. A Secretaria de Inclusão e Mobilização Social (Sims) coordenou o projeto, e crianças de 7 a 12 anos passaram a aprender a arte dos malabares, trapézio e técnicas de equilíbrio.


A atividade era uma alternativa para fazer com que as crianças não se tornassem ociosas, explica a ex-psicóloga. Os projetos sociais são criados com o objetivo de harmonizar a convivência do ambiente. O Macapaba era um espaço novo e diferente, boa parte da comunidade eram de áreas de ressaca, pontes, e no conjunto passaram a viver em prédios, a área era distante do centro da cidade, e no início, não tinha acesso a transporte público, as pessoas não estavam acostumadas, e portanto necessitavam deste suporte, esclarece a professora.


Durante seu mapeamento na comunidade, Ana descobriu casos de crianças que sofriam violência dentro de casa, crianças que ficavam sozinhas o dia inteiro ou que não tinham alimentação, a partir daí passou-se então a trabalhar em medidas para mudar essa realidade. Após o fim do projeto social no Macapaba, moradores da região afirmam que o índice de criminalidade subiu, e algumas crianças que eram do projeto de circo, atualmente chegando na fase adulta, com 16 ou 17 anos, estão envolvidos nessa realidade, lamenta a professora e artista de prática circense.


Os projetos sociais mudam a vida das crianças e de quem entrar em contato com elas. Inclusive os professores. Neste processo de vínculo há a possibilidade de enxergar as situações de perto e a entender outros contextos. O conhecimento adquirido não fica naquele espaço, esse conhecimento circula e leva quem o tiver para outros lugares. Dentro desse entendimento a Casa Circo ganhou forma, hoje a Casa Circo não é um projeto social, seus idealizadores dependem do projeto para sobreviver, mas há a ambição em torná-lo. Ainda é necessária uma estruturação adequada para esse objetivo ser alcançado, explica Ana.


Jones Barsou, 37 anos, companheiro de Ana na Casa Circo, relatou sua experiência em projetos sociais e culturais durante o Criança Esperança em 2012.

“A arte é o único instrumento que tem a mistura, em qualquer comunidade que você vá, em qualquer bairro periférico, se você for fazer uma atividade de cultura você vai ganhar aquela comunidade, a arte em si tem esse poder”, diz Jones.

Responsável pela cadeira de circo dentro das oficinas, o professor relata a importância da arte diante desses espaços:

“Tem crianças que iniciaram em projetos sociais há muito tempo, e hoje ainda prosseguem no mesmo espaço, mas hoje sendo monitoras. E pra mim isso já é um diferencial, um resultado de uma atividade desenvolvida lá atrás e que tem resultados até hoje. Isso é uma referência para outras crianças também”.

A atividade de circo influencia no comportamento da criança, assim como outras atividades artísticas. Naquele espaço trabalha-se o exercício do respeito e da confiança, e principalmente o respeito aos próprios limites. Quando a arte é trabalhada na criança, ela consegue estabelecer princípios tanto dentro das atividades como para além daquele ambiente, para as outras relações que ela tem em seus âmbitos de vida, detalha Jones.


Foto: Arthur Corrêa - Jones Barsou, Casa Circo, 2019.

Durante os projetos as crianças criavam interesse por leitura, arte, teatro e afins. O foco principal das atividades artísticas dentro de ambientes periféricos, é não permitir que a criança tenho tempo vago, esse tempo que pode se tornar ocioso, ressalta igualmente Jones. Não é um ensino dado semelhante a uma sala de aula, a criança aprende por meio da brincadeira, ela estabelece relações.


Em sua trajetória, o artista e professor avalia que são crianças talentosas, mas que precisam de acompanhamento psicológico, de assistência social, porque são crianças violentadas em todas as suas instituições: em casa, na escola, em todos os lugares. As práticas circenses contribuem para a criança desenvolver habilidades que auxiliam em sua coordenação motora e no raciocínio. Por fim Jones destaca que não é só o projeto social que vai garantir o suporte necessário para estas crianças, é preciso uma rede de acompanhamento.


Natália Lobo, 23 anos, artista do coletivo TensoAtivo, relata sua experiência no projeto “Performance no Pátio”, em uma área de ressaca no bairro do Muca, no ano de 2017. O projeto consistia na realização de performances em pátios de escolas públicas, onde se reunia artistas locais e fazia-se um intercâmbio com as escolas. Durante seu desenvolvimento, o projeto se expandiu para além dos muros das escolas. Em 2017 após feita uma parceria com o “Ponto de leitura encanto dos alagados”, o coletivo passou a ir uma vez na semana para dialogar com a comunidade em uma área de ressaca, no bairro do Muca.


Após o primeiro contato com a comunidade, o interesse maior para envolvimento nos processos foram por parte das crianças. Durante o processo dos primeiros planos de aula, sentiu-se a importância de entender as necessidades de discutir e trazer a arte para aquele ambiente. O coletivo debatia discussões sérias mas levando em consideração o lúdico. Por serem crianças, era preciso trazer esses assuntos em forma de brincadeira. Discussões que as crianças não tinham em seu ambiente domiciliar, mas que eram necessárias, explica a performer.


É importante que a arte faça parte do processo de educação, instigue as pessoas a olharem para as imagens do cotidiano de outra forma. A arte não é a salvadora de tudo, mas ela contribui abrindo portas, dando possibilidades à discussões, instigando as pessoas a ver a própria realidade de outra forma, observa a artista.


De maneira geral, quando se trata de ensino através da arte, Natália avalia que as pessoas tendem a achar que o ensino é apenas uma recreação, e ressalta que apesar de em alguns momentos a atividade artística aparentar ser uma brincadeira, é um momento importante de diálogo.

O processo de ensino e aprendizagem artística há muito tempo foi retirado dos espaços institucionais, hoje em dia não é necessário ir a um museu, uma galeria, para absorver arte, ela está presente no cotidiano de cada um”, destaca.

Acervo: Coletivo TensoAtivo. Projeto Performance no Pátio.

Durante o projeto foi notado a necessidade de pertencimento de espaço. Natália explica que quando se tem um espaço que é marginalizado pela sociedade, as pessoas daquela comunidade tendem a olhar pro próprio espaço com a percepção do outro, e alerta que quando se trata das crianças, é prejudicial durante sua formação ouvir que o espaço onde se vive é ruim. No processo de pertencimento, essa visão vai se quebrando, e as pessoas percebem que aquele espaço não é só de violência, é um espaço também que surge outras discussões.


O coletivo teve uma preocupação em chegar no espaço e não fazer uma “higienização”. A performer alerta que não se pode chegar no local e propor algo “melhor” tendo como percepção do que é melhor à de alguém que é de fora do espaço, pois aquele ambiente pertence à comunidade, e portanto eles que devem decidir a forma que querem ver aquele lugar. Tomar esses tipos de atitude provém de uma vertente colonizadora, lembra Natália.


O assistente social Caique Raunir, atuante na área de assistência social em órgãos do estado e município, conta sua experiência com as comunidades periféricas sendo atuante na Secretaria de Inclusão e Mobilização Social (SIMS) e no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Na SIMS, a secretaria trabalha com a juventude através de programas sociais como o “Amapá Jovem”, recrutando adolescentes que estão no ensino médio/superior, e oferecendo cursos profissionalizantes e contratação destes para trabalhar dentro da secretaria. Através dos cursos profissionalizantes eles tem um retorno financeiro, custeado em torno de 100 a 120 reais, que é o que chama a atenção para participar do programa, explica Caique.


No CREAS o programa é diferenciado, pois os planos, programas e projetos são voltados não apenas para a juventude mas para a família. Os problemas, muitas vezes, não estão nos filhos, mas na família, então há a necessidade de se trabalhar toda a estrutura, ressalta o assistente. Dentro das comunidades periféricas, Caique observou que os pais, em sua maior demanda, são analfabetos, há famílias com pais autoritários, totalitários, violentos. O assistente alerta a necessidade de suporte, tendo-se em vista que a criação é a base que forma essas crianças.


As medidas socioeducativas que são trabalhadas no campo da assistência do CREAS são 3: prestação de serviço à comunidade (PSC), liberdade assistida (LA) e a medida protetiva (MP). Caique observa que dentro do PSC é mais simples alcançar o público jovem, por conta de serem adolescentes que cometeram atos infracionais, eles estão ali pra cumprir medidas judiciais, portanto a participação se torna obrigatória, tornando mais fácil o processo de ressocialização e reeducação. O assistente nota que por muitas vezes, adolescentes que cometem atos infracionais acabam sendo mais participativos. Ingressam no mundo do esporte ou da cultura, com o objetivo tanto de ocupar o tempo ocioso quanto pra cumprir a carga horária necessária, e extinguir aquele processo judicial, explica o assistente social.


Dentro da secretaria da SIMS, ter um recurso financeiro é agregado positivamente para o interesse do jovem no programa, atenta Caique, pois a partir do momento que o jovem tem um retorno financeiro a atividade acaba se tornando mais prazerosa. Para o assistente, a atividade acaba agregando positivamente em dois sentidos: fazer uma atividade que vai dar um suporte no futuro e ganhar financeiramente com isso. Na SIMS, o público se torna diferenciado porque são adolescentes que buscam esse programa, e no CREAS, o público vem através de uma demanda dirigida pelo judiciário, esclarece Caique.


Dentro do CREAS trata-se da violação de direitos, através da medida que é trabalhada por meio do PAEF, que é o serviço de fortalecimento de vinculo. Há uma equipe multidisciplinar para trabalhar a violação de direitos: um psicólogo, um pedagogo, um assistente social e o jurídico. O processo inicia com o acolhimento, posteriormente o fortalecimento de vinculo e por fim há o encaminhamento para os órgãos responsáveis. No entanto, quando se trata de jovens, há o mesmo processo, mas fica sob a responsabilidade do CREAS.


Caique explica que a SIMS, por ser uma secretaria de estado, tem como dar um subsidio para os jovens que buscam fazer alguma capacitação. Diferentemente do CREAS em que o adolescente tem que fazer aquilo por obrigação, e muitas vezes eles não querem, então há uma preocupação em fazer projetos pra chamar a atenção desses jovens. O assistente observa que são poucos que se interessam e continuam depois que acaba o período que é determinado pelo juiz.


Em sua análise, Caique nota que alguns acabam cumprindo o período de medida socioeducativa e retornam pro mundo do crime. Alguns conseguem ter um retorno mais positivo, que saem do projeto e começam a construir uma vida acadêmica estudantil, no entanto, infelizmente a maior demanda é que saiam e voltem pra mesma realidade do crime, lamenta o assistente.


Quando questionado sobre uma medida para investir nas comunidades periféricas e no auxílio para esta realidade ser amenizada o assistente justifica que há a tentativa de se trabalhar a socialização, reeducação dos jovens através da cultura, esporte, arte, entretanto, outra coisa que poderia agregar positivamente seriam cursos de capacitação, pois estes jovens tem força de vontade, alguns caem no mundo do crime por necessidade, e com esses cursos as pessoas teriam mais oportunidade de emprego.

“A gente não precisa de mais políticas públicas, a gente precisa fazer essas políticas públicas já existentes acontecerem”, salienta Caique.
“O assistente social por mais que queira, não é capaz de mudar o mundo, mas é capaz de mudar cada família que esbarra em seu caminho”

aponta Caique. Estes jovens estão em busca de ajuda, e é dever do assistente ajudar, no entanto, é necessário querer recebê-la, ele alerta. Por isso o centro CREAS reforça a necessidade em não focar somente no adolescente, mas trabalhar o vínculo da família como um todo.

O assistente alerta que por muitas vezes a base está defasada: a mãe e o pai são analfabetos, criam através da violência, e isso influência negativamente na criança. Para Caique os projetos sociais voltados para comunidades periféricas podem obter um resultado mais positivo quando se trabalha toda a estrutura da família, desde a essência até os campos mais complexos.

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