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Aonde tu vais, rapaz?

Atualizado: 29 de Mai de 2019

Reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil, o Marabaixo traz um histórico de resistência.


Por Felipe Lima

A maior festividade cultural do Amapá, titulada como Ciclo do Marabaixo, é um ritual de origem africana em homenagem ao Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade, que acompanha o calendário da igreja católica. A festividade, apesar de não ter um ponto inicial definitivo na história – somente embasado em “achismos” – já é passada de geração para geração desde o século XVIII, no Amapá. Acredita-se que a dança foi trazida para o estado nesse período por negros vindos da África, para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Além de famílias que ancoraram pelas redondezas, fugidas de guerras entre mouros e cristãos.


Fotos: Thales Lima

Falar de cultura no Amapá e não lembrar do marabaixo, é o mesmo que falar do Pará e não lembrar do carimbó. Duas culturas, duas danças que, embora sejam visualmente parecidas, possuem histórias bem diferentes. Uma confusão que inclusive muitos cidadãos amapaenses confundem pela falta de proximidade com o assunto. Ainda que o período do ciclo se torne mais forte com o passar dos anos, muita gente ainda não conhece a história, as crenças e uma infinidade de coisas boas que a dança e a cultura do marabaixo carrega. São saias rodadas, caixas de marabaixo e os famosos “ladrões”, um dos mais curiosos termos desta festividade.


A expressão “ladrão” refere-se a versos cantados nas rodas de marabaixo com teor crítico e de lamentação. “Aonde tu vais rapaz, por esses caminhos sozinho? Vou fazer minha morada pelos campos do Laguinho”. O trecho da cantiga é um dos mais prestigiados pelos festeiros e simpatizantes durante o ciclo. Se tornou famoso, justamente por se tratar das lamentações dos negros que precisaram sair da frente da cidade e se deslocar para bairros estratégicos, além de, também, ser uma crítica a situação. O bairro do Laguinho, então, se tornou o local onde, hoje em dia, é concentrado as maiores partes dessa festividade, além do Santa Rita (Favela), Jesus de Nazaré e comunidades quilombolas, como o Curiaú.

Fotos: Thales Lima

O ciclo do marabaixo é anualmente comemorado graças aos seus festeiros. Laura Ramos, ou popularmente conhecida como Laura do marabaixo, 45 anos, é vice-presidente da Associação Cultural Raimundo Ladislau – associação criada por um grupo de marabaixeiros antigos e responsável pela festividade – e atual festeira. Ela explica que realizar o marabaixo a cada ano, é trabalhar incansavelmente para manter vivas as tradições e raízes de seu povo e de seus ancestrais, colocando em destaque um ponto importante “é história de famílias, de tradições e de riqueza cultural”, destaca.


A comemoração é dividida em duas partes, a sagrada e a profana. Nesse primeiro momento, acontecem as missas, novenas e ladainhas que são rezadas em latim por pessoas mais velhas da comunidade. No segundo, é quando acontecem os bailes dançantes e as rodas de marabaixo. Apesar de “profano” ser um termo falado por marabaxeiros antigos, atualmente é pouco usado.


O significado da palavra no dicionário quer dizer “que não pertence ao âmbito do sagrado”. Os brincantes, por sua vez, preferem utilizar o termo “lúdico”, que segundo eles, é mais apropriado para o contexto. Laura afirma que a manifestação tem muito para contribuir, e que não está ligada ao significado negativo da palavra “o momento da roda do marabaixo é alegria, é integração e nós achamos que é um momento lúdico”, relata.

“História de famílias, de tradições e de riqueza cultural”

Uma das peças importantes na festividade, são os dançadeiros – expressão utilizada para se referir às pessoas que dançam o marabaixo. As mulheres usando saias rodadas e floridas, colares, toalha no ombro e flores nos cabelos. Os homens com camisas coloridas e sandálias de couro nos pés, ambos formando um círculo e dançando em torno de si, sempre no sentido anti-horário. Uma dessas peças é Meri Lúcia, ou culturalmente conhecida como Mery Baraká. Tem 40 anos, e pouco mais da metade dessa idade, esteve diretamente ligada às festividades. Ela ressalta a importância que o marabaixo tem para a cultura e educação do estado: “pertence ao povo amapaense, e é importante ter um calendário anual para a realização do ciclo, até porque recentemente foi considerado patrimônio cultural imaterial do Brasil”.


Fotos: Thales Lima


Embora o patrimônio esteja reconhecido nacionalmente, ainda é preciso que a população local conheça mais sobre sua cultura. É o que afirma João Uchôa, estudante de 19 anos. O jovem é um cidadão nascido em Macapá e não conhece, a fundo, o Marabaixo. Ele diz que quando era criança, acreditava que o carimbó pertencia ao Amapá, e vê a necessidade de incluir a história do marabaixo e culturas adjacentes no ensino básico. “Deveria haver um processo de implementação dos assuntos tanto culturais, quanto sociais da história do Amapá em disciplinas do ensino básico”, idealiza.


A programação do ciclo teve início no dia 21 de abril, no domingo de páscoa, calendário paralelo ao da igreja católica e encerra no domingo do Senhor, dia 23 de junho, com a derrubada do mastro e a escolha do festeiro para o ano seguinte.

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