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Alocação escassa dos recursos ótimos

Atualizado: 27 de Mai de 2019

Por Cláudio Morais


O ano de 2019 vive uma enxurrada de tragédias, quase como continuidade das tragédias do ano anterior. Entre fogo, mar de lama tóxica e centenas de pessoas mortas, a enxurrada que surge em seguida é daqueles que buscam respostas sobrenaturais para estes eventos; e são milhares os que vivem na ânsia de terceirizar a culpa para a Providência Divina. E se há mensagem que a Providência envia aos incautos é que não há mais espaço debaixo do tapete para varrermos nossa sujeira.


O Museu Nacional em chamas é Sérgio Cabral fazendo festa com guardanapo na cabeça em Paris, é juiz comprado. É o maior esquema de corrupção da história do mundo.


Desastre de Mariana é Lula e Dilma enchendo os bolsos de empreiteiras com dinheiro de obras para a Copa e Olimpíadas para financiar campanhas; é Belo Monte, é Rio Doce, é um monte de “museus do amanhã” sem acervo mas que custaram muito caro. É fim de patrimônio histórico inestimável. É pastor miliciano, é Michel Temer tirando pão da mesa de milhões para satisfazer a quadrilha, é Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz. São 200 bilhões perdidos por ano para a corrupção.


A tragédia de Brumadinho tem nome, sobrenome e ficha na Polícia Federal; é bala perdida, hospitais sem equipamentos, criança analfabeta, mulher estuprada. São pais que não colocam os filhos na escola e nem acham que devem pôr. É o tão maldito jeitinho brasileiro, onde já dizia o adágio “aos inimigos a lei; aos amigos, tudo”, e o sonho do brasileiro cordial, bem descrito por Sérgio Buarque de Holanda em “As Raízes do Brasil”, é nada menos que ser amigo do rei e ter parte nos 70% que correspondem a salários dos privilegiados em uma dívida pública que já engole 90% do PIB.


E jeitinho brasileiro, caríssimos, é violência e culto à violência, jeitinho brasileiro é um povo que aceita ser roubado em troca de sorrisos e migalhas; muitas vezes nem isso. É achar que os párias que comandam este país estão uns contras os outros enquanto integram a mesma quadrilha, sacrificando nossos corpos, nossas almas, nossa história e a nossa liberdade, com a leniência de todos sem qualquer constrangimento.


Quantos museus queimando, quantas Marianas e Brumadinhos, quantos rios mortos e gente morta mais até que os paremos e paremos a nós mesmos também, combatendo sobretudo nossa própria corrupção?


Entre as novas palavras que temperam o vocabulário daquele que vive sobressaltado por inúmeras crises e rumores de crises - déficit, superávit, balança comercial, endividamento do setor público, PIB, PNB, SELIC, desequilíbrio fiscal [...] - somente a certeza de que nunca na história deste país um exercício financeiro arrecadou menos em impostos que o ano anterior; e nunca se disse tanto que não há dinheiro.


O Brasil contraria a principal lógica econômica, que norteia todo o estudo da disciplina: economia é a alocação ótima dos recursos escassos. O pequeno humano quer sempre mais; consumimos sempre mais. A demanda é infinita. Na contramão da nossa ganância, os recursos que consumimos são limitados; vários deles, renováveis, mas limitados. Este é o objeto central da Economia.


Com tanto jeitinho para tudo e sobre todos, os recursos brasileiros, tão abundantes, descem descarga abaixo pela administração perversa. A lógica brasileira é da alocação escassa dos recursos ótimos.



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