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A medicina que atravessa gerações e não se perdeu no tempo

Atualizado: 12 de Abr de 2019

As práticas medicinais ancestrais vêm fortalecendo ainda mais o seu protagonismo na amazônia e no mundo


Por Beatriz Melo

Quando o assunto é saúde, qual brasileiro nunca recorreu aos chás da vovó? Nem sempre de sabor agradável, mas com eficácia garantida em quase todas as situações. Na Amazônia, o uso medicinal das plantas é herança cultural das comunidades tradicionais, que há milênios vêm partilhando seus conhecimentos através de ascendências.


Ribeirinhas e indígenas fazem parte deste contexto ancestral. Guardiões da floresta, os povos tradicionais da Amazônia passaram e vêm passando aos seus descendentes seus conhecimentos ligados ao seu ambiente habitacional. Seus cotidianos foram moldados de acordo com os ciclos da natureza. Desta forma, os princípios de sustentabilidade, preservação e cuidado com a natureza fez dos povos da floresta grandes guardiões dos segredos da terra.


Entretanto, tais sabedorias não ficaram apenas entre as matas e às margens dos rios, a saída das gerações seguintes para as cidades não foi capaz de ceifar a latente riqueza de conhecimentos sobre como conviver e aproveitar toda a abundância que o meio ambiente pode oferecer.

Segundo Maurício Souza, biomédico do Núcleo de Plantas medicinais do Instituto de Pesquisas do Amapá (IEPA), o conhecimento tradicional atravessa gerações e na Amazônia este conhecimento foi semeado através da palavra contada.


Maurício Souza, no IEPA. Foto: Beatriz Melo


“O conhecimento tradicional é aquele que vem sendo transferido de pai para filho, há gerações. Geralmente ele ocorre de forma oral. Não se transfere conhecimento na Amazônia de forma escrita, isso é algo que trabalho muito com meus alunos, que eles devem escrever, devem publicar essas informações para que não se percam”, afirma.


Não há data exata que esclareça desde quando o homem se apoderou do uso de ervas para terapia de enfermidades, mas é sabido que através da observação a humanidade descobriu o poder da natureza, igualmente na escolha dos alimentos. O homem antigo observou os bichos e concluiu o que seria ou não proveitoso para si. Instinto ou Sapiência? Não sabemos ao certo, mas funcionou.


A prática é antiga, mas o uso da terapia natural não ficou para trás. Atualmente, no Brasil, existem algumas organizações com a missão de preservar o conhecimento dos povos tradicionais a respeito da medicina milenar. Catalogando as espécies que sobreviveram às intervenções do ser humano na natureza e ao tempo, os estudos científicos para comprovação da importância e eficácia das plantas como matéria prima curativa.



Jardim do IEPA. Foto: Beatriz Melo

Com os avanços das pesquisas sobre as propriedades das plantas catalogadas, os estudos a respeito das capacidades medicativas anti-inflamatórias, analgésicas e cicatrizantes de folhas, cascas ou raízes vem corroborando na produção de produtos farmaceuticamente elaborados com base em plantas medicinais.

O conhecimento empírico, importante e fundamental, concedeu seu lugar para o conhecimento científico, que pode comprovar o que há anos já sabiam: a natureza é sábia, autossustentável e está ligada aos seres vivos que nela habitam. O azeite de Andiroba foi reconhecido como potente anti-inflamatório, o azeite de Copaíba passou a ser respeitado pela comunidade farmacêutica como eficiente antibiótico e cicatrizante.


Farmácia do IEPA. Foto: Beatriz Melo

O IEPA é responsável por grandes pesquisas sobre a Amazônia, com ênfase na medicina tradicional, há décadas é precursor da pesquisa científica no Amapá e grande aliado na luta pela permanência dos saberes ancestrais na sociedade contemporânea.


Com alto potencial, as plantas são usadas na confecção de fitoterápicos, que são medicamentos elaborados a partir de extratos vegetais. Atualmente, a farmácia do IEPA comercializa 37 produtos com 95% de sua composição oriunda de extrato de matéria prima amazônida e dentre estes, os mais procurados são: Xarope de Urucum e Jucá para problemas respiratórios, o Colutório de Copaíba, Gengibre e Jucá para inflamações na garganta, a Tintura de Jacareúba para o tratamento da Diabetes e a Tintura de Casca Doce e Sucuuba para gastrite.


Todos os produtos elaborados e vendidos pelo Instituto possuem certificação farmacêutica. Não é à toa que tem atraído muitos curiosos e necessitados para os tratamentos naturais. Em 2017, a farmácia do IEPA arrecadou R$180 mil na venda de fitoterápicos e fitocosméticos.

A procura por cuidados naturais faz parte da história humana e o passar dos anos atrelado ao advento dos medicamentos sintéticos não foram capazes de extinguir a crença popular nas plantas como remédio. Em uma breve pesquisa feita nas redes sociais, 98% dos participantes da enquete acreditam no poder das plantas como curativas e 91% afirma que o hábito de usar azeites ou chás para os cuidados da saúde é um hábito passado por gerações.


Nesta pesquisa, a maioria dos participantes têm idades entre 18 e 24 anos e são do norte do Brasil, moram na Amazônia. A juventude acredita nos saberes ancestrais, pois seus avós, pais e tios também acreditam e utilizam chás para curar problemas ginecológicos, gástricos, cutâneos e até mesmo emocionais.

O achismo não tem mais espaço quando a questão são os tratamentos naturais. A cultura anciã está sendo comprovada para não se perder e com os registros já feitos, a sua presença na coletividade estará no discurso, no hábito, na crença e na ciência moderna.


Não se transfere conhecimento na Amazônia de forma escrita


“Tive uma dor muito grande na minha cabeça, no meu ouvido, era no meu ouvido. Eu vinha da escola e quando a gente voltava o sol tava muito quente, não tinha árvore grande e o sol quente demais. Essa dor de ouvido era tão forte que eu me rolava no chão, aí eu fui me embora lá pra casa e a mamãe tirou a casca de Sucuuba, fez o chá e banhava a minha cabeça. Ela fez isso por uns três dias e nunca mais tive dor de ouvido”.

Relato de Maria Lúcia Paixão Melo, que aos 67 anos lembra-se da infância onde os tratamentos feitos à base de folhas, cascas e óleos eram a melhor e única opção. Naquele tempo, na roça, os médicos não chegavam e a estrada mais próxima quase não passava carro. Esta foi apenas uma das várias histórias de Lúcia.


Maria Lúcia. Foto: Beatriz Melo


A preservação do meio ambiente e da cultura tradicional são medidas sociais, cabíveis a todo e qualquer cidadão consciente do papel fundamental que a natureza exerce acerca da vida na terra. A biodiversidade Amazônica abraça cerca de 2.500 espécies de árvores e 30 mil espécies de planta, enorme tesouro do planeta Terra. A pesquisa científica sobre as propriedades medicinais ofertadas pelos elementos que a natureza oferece, assim como estudos aprofundados sobre as comunidades tradicionais são resgates da memória do mundo. É passado, presente e futuro. É o inconsciente coletivo.


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